Matadores e censores: modelos ideais?
[por Rolf Kuntz]
Fonte: O Estado de S.Paulo - Economia & Negócios 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirmou mais uma vez sua simpatia 
pelos governos assassinos. Não o fez em segredo, mas numa
entrevista à Associated Press (AP), quando comparou os presos políticos de Cuba 
aos homicidas, traficantes, estupradores e ladrões
presos nas cadeias de São Paulo. Sua admiração pelos caudilhos e dirigentes 
autoritários não é novidade. A defesa dos matadores,
como os irmãos Castro e o presidente do Irã, o enforcador de opositores Mahmoud 
Ahmadinejad, apenas mostra com total clareza a
atração do Planalto pelo autoritarismo, até nas suas manifestações mais 
brutais. 

Essa opção tem orientado as decisões políticas e econômicas da diplomacia 
brasileira, frequentemente com elevado custo para o País.
Se um caudilho manda invadir instalações da Petrobrás e ameaça violar acordos 
comerciais, para que contestá-lo? Por que não aceitar
barreiras comerciais impostas por um casal vizinho tão simpático e tão 
empenhado em amordaçar a imprensa de seu país? Por que não
defender com uma fidelidade canina os interesses de Hugo Chávez na América 
Central e na porção norte da América do Sul? Por que não
apoiar, na eleição para a chefia da Unesco, um ministro egípcio comprometido 
com a censura e conhecido pela promessa de queimar
livros israelenses? 

No caso da Unesco, a decisão do Itamaraty foi especialmente espantosa - para os 
menos informados sobre o governo Lula - porque um
forte candidato era o brasileiro Márcio Barbosa, diretor adjunto da 
instituição. Respeitado internacionalmente, ele poderia, segundo
analistas, obter o apoio de países de peso, como Estados Unidos, México, 
Argentina, Rússia, França, Índia e China. Diante da decisão
do governo brasileiro, ele desistiu. O Itamaraty, além de pagar o vexame da 
escolha, engoliu mais uma derrota, porque foi eleita a
diplomata búlgara Irina Bokova. 

Mas a entrevista à AP foi preciosa porque deixou mais claros do que nunca os 
padrões de julgamento do presidente brasileiro. Além de
igualar os presos políticos aos condenados por crimes comuns, ele equiparou os 
sistemas judiciais de Cuba e do Brasil. É preciso,
segundo ele, respeitar as decisões da Justiça cubana, assim como se deve exigir 
respeito às decisões dos tribunais brasileiros. 

Mas o Brasil ainda é um Estado de Direito. Seus tribunais devem pautar-se por 
critérios independentes do grupelho no poder. O
processo inclui necessariamente o contraditório. Há um enorme arsenal de 
recursos processuais - amplo demais, até, na opinião de
vários especialistas. Além disso, ninguém é legalmente punível por suas 
opiniões nem pela tentativa de organizar sindicatos ou
partidos. 

Para o presidente Lula, não há diferença relevante entre os dois sistemas. 
Portanto, não há diferença relevante entre um preso por
crime de opinião ou de manifestação política e um condenado por homicídio, 
assalto, tráfico de drogas ou furto. 

Mas o presidente é capaz de certas distinções. Segundo ele, a Justiça cubana é 
perfeitamente respeitável. A política de Cuba,
também. Por isso seu governo mandou de volta a Havana, sem hesitação aparente, 
dois pugilistas, na época dos Jogos Pan-Americanos.
Mas a Justiça italiana, como observou o cientista político José Augusto Guilhon 
de Albuquerque, não mereceu o mesmo respeito. Cesare
Battisti, acolhido no Brasil como refugiado político, foi condenado pela 
Justiça da Itália não por crime político, mas por haver,
segundo as conclusões do processo, participado de homicídios. Uma das vítimas 
foi um açougueiro. 

Com sua entrevista, o presidente Lula forneceu mais um dado para quem deve 
decidir sobre as medidas propostas no famigerado decreto
dos Direitos Humanos, com suas ameaças à liberdade de imprensa e a outros 
institutos essenciais à democracia. Forneceu informações
valiosas, também, para quem ainda procura entender o significado de "Estado 
forte", na linguagem petista. Além disso, não há como
desprezar esses dados quando se discutem projetos altamente propícios à 
centralização das decisões econômicas, como o do pré-sal e o
da ressurreição de Telebrás. 

O risco não está na criação de estatais, mas no aumento dos poderes do grupo no 
poder. Poderes maiores são especialmente perigosos
quando os governantes confundem a oposição política e a divergência de opiniões 
com crimes como o homicídio, o roubo e o tráfico.
Ahmadinejad e os irmãos Castro fazem essa confusão. Lula também, como agora se 
confirmou. 

Rolf Kuntz é jornalista














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