um presente para o finado Engenheiro

a diferença *entre um político e um
estadista<http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/direto-ao-ponto/o-confronto-entre-um-politico-sem-grandeza-e-um-estadista/>
*


*Debate entre um político e um
estadista<http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/direto-ao-ponto/o-confronto-entre-um-politico-sem-grandeza-e-um-estadista/>
*

14 de março de 2010

Traídos pela indiferença ultrajante do Itamaraty, afrontados pela infame
hostilidade do presidente da República, presos políticos cubanos e
dissidentes em liberdade vigiada endereçaram ao presidente da Costa Rica o
mesmo pedido de socorro que Lula rechaçou. Fiel à biografia admirável, Oscar
Arias nem esperara pela chegada do apelo (que o colega brasileiro ainda não
leu) para colocar-se ao lado das vítimas do arbítrio. Já estava em ação ─ e
em ação continua.

Neste sábado, Arias escreveu sobre o tema no jornal espanhol *El País*. O
confronto entre o falatório de Lula e trechos do artigo permite uma
pedagógica comparação entre os dois chefes de governo:

*LULA*: *“Lamento profundamente que uma pessoa se deixe morrer por fazer uma
greve de fome. Vocês sabem que sou contra greve de fome porque já fiz greve
de fome”.*
*ARIAS:* *“Uma greve de fome de 85 dias não foi suficiente para convencer o
governo cubano de que era necessário preservar a vida de uma pessoa, acima
de qualquer diferença ideológica. Não foi suficiente para induzir à
compaixão um regime que se vangloria da solidariedade que, na prática, só
aplica a seus simpatizantes. Nada podemos fazer agora para salvar Orlando
Zapata, mas podemos erguer a voz em nome de Guillermo Fariñas Hernández, que
há 17 dias está em greve de fome em Santa Clara, reivindicando a libertação
de outros presos políticos, especialmente aqueles em precário estado de
saúde”.*

*LULA:* *“Eu acho que a greve de fome não pode ser utilizada como pretexto
para libertar pessoas em nome dos direitos humanos. Imagine se todos os
bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade”.
*
*ARIAS*: *“Seria perigoso se um Estado de Direito se visse obrigado a
libertar todos os presos que decidirem deixar de alimentar-se. Mas esses
presos cubanos não são como os outros, nem há em Cuba um Estado de Direiro.
São presos políticos ou de consciência, que não cometeram nenhum delito além
de opor-se a um regime”.*

*LULA:* *“Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo
cubanos”.
**ARIAS**: “Não existem presos políticos nas democracias. Em nenhum país
verdadeiramente livre alguém vai para a prisão por pensar de modo diferente.
Cuba pode fazer todos os esforços retóricos para vender a ideia de que é uma
“democracia especial”. Cada preso político nega essa afirmação. Cada preso
político é uma prova irrefutável de autoritarismo. Todos foram julgados por
um sistema de independência questionável e sofreram punições excessivas sem
terem causado danos a qualquer pessoa”.*

*LULA:* *“Cada país tem o direito de decidir o que é melhor para ele”*.
*ARIAS*: “*Sempre lutei para que Cuba faça a transição para a democracia.
(…) O governo de Raúl Castro tem outra oportunidade para mostrar que pode
aprender a respeitar os direitos humanos, sobretudo os direitos dos
opositores. Se o governo cubano libertasse os presos políticos, teria mais
autoridade para reclamar respeito a seu sistema político e à sua forma de
fazer as coisas”.*

*LULA:* *“Não vou dar palpites nos assuntos de outros países, principalmente
um país amigo”.*
*ARIAS*: *“Estou consciente de que, ao fazer estas afirmações, eu me exponho
a todo tipo de acusação. O regime cubano me acusará de imiscuir-me em
assuntos internos, de violar sua soberania e, quase com certeza, de ser um
lacaio do império. Sem dúvida, sou um lacaio do império: do império da
razão, da compaixão e da liberdade. Não me calo quando os direitos humanos
são desrespeitados. Não posso calar-me se a simples existência de um regime
como o de Cuba é uma afronta à democracia. Não me calo quando seres humanos
estão com a vida em jogo só por terem contestado uma causa ideológica que
prescreveu há anos. Vivi o suficiente para saber que não há nada pior que
ter medo de dizer a verdade”.*

**

Oscar Arias é um chefe de Estado. Lula é chefe de uma seita com cara de
bando. Arias é um pensador, conhece a História e tenta moldar um futuro mais
luminoso. Lula nunca leu um livro, não sabe o que aconteceu e só pensa na
próxima eleição. Arias é justo e generoso. Lula é mesquinho e oportunista.
Arias se guia por princípios e valores. Lula menospreza irrelevâncias como
direitos humanos, liberdade ou democracia.

O artigo do presidente da Costa Rica, um homem digno, honra o Nobel da Paz
que recebeu. A discurseira do presidente brasileiro, um falastrão sem
compromisso com valores morais, tornou-o tão candidato ao prêmio quanto
Fidel, Chávez ou Ahmadinejad. A colisão frontal entre o que Lula disse e o
que Arias escreveu escancarou a distância abissal que separa* *um político
sem grandeza de um estadista.

http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/

Responder a