Bons dias, colegas. 
Posso estar um pouco atrasado na conversa, não tenho frequentado tanto a 
lista, infelizmente. 
Permitam-me divulgar uma mesa sobre IA e Ética de que participei, online, 
no final do ano passado. 
Creio que há ressonâncias com o que aqui se discutiu, principalmente as 
últimas mensagens. 
A minha apresentação é a primeira, mas não necessariamente a mais 
interessante, devo dizer. 
Pretendo reelaborar a fala para a conferência da SBL na 78ª reunião da SBPC 
a acontecer em julho, em Niteroi. Assim, toda sugestão é bem vinda. 
Eis o enlace: https://www.youtube.com/live/dM_c_M33bCs?si=EpwpWihC5eFYJdx7
Saudações,


On Friday, May 22, 2026 at 9:43:54 AM UTC-3 marciopalmares wrote:

> Lembrei de uma coisa...
>
> O Adolfo disse que não gosta de ficção científica, tudo bem. Gosto é 
> gosto, não se discute.
>
> 'Solaris' foi um dos melhores livros que li na vida... Não vou dar 
> spoiler, pois pode haver alguém jovem aqui, acompanhando as discussões. 
>
> Outro que gostei muito quando li, acho que com uns 15 anos, foi o 
> 'Esfera', do Michael Crichton. Este livro lembra o 'Solaris' em alguns 
> aspectos...
>
> No 'Esfera' um matemático ocupa um papel central em uma equipe destinada a 
> analisar uma nave alienígena encontrada no fundo do oceano.
>
> Um dos momentos mais aterrorizantes e perturbadores ocorre quando um 
> computador usado pela equipe adquire 'consciência', parece ter sido 
> invadido pela máquina alienígena. 
>
> Nos dois casos é explorado o problema da exteriorização de nossas 
> faculdades subjetivas: inteligência, razão, consciência, sentimentos.
>
> Este tema é recorrente na literatura porque é realmente o que sempre 
> fizemos, desde o princípio: reunimos todas as nossas principais qualidades 
> (solidariedade, generosidade, amor, compaixão, bondade...), exteriorizamos, 
> objetivamos em um "outro" (deuses) e passamos a nos relacionar mentalmente 
> com este "outro".
>
> Reunimos nossos piores atributos coletivos (violência, egoísmo...), os 
> exteriorizamos, objetificamos em um "outro" (o mal, demônios, o que seja) e 
> passamos a acreditar que estamos de algum modo subjugados por este "outro", 
> que brotou de nossas próprias cabeças.
>
> Agora, conseguimos fabricar máquinas que fazem matemática sofisticada de 
> alto nível, inédita. É uma exteriorização de nossa criatividade. Somos nós, 
> porém exteriorizados, objetificados num "outro". Nos relacionamos com esse 
> "outro".
>
> É um tema velho, por isso tão recorrente. 
>
> Não vou fingir aqui que li Hegel. Comprei essa edição em português da 
> Vozes, do "Ciência da Lógica" em dois volumes... Já comecei a ler e 
> abandonei diversas vezes. Acho tremendamente difícil, praticamente 
> ilegível. Mas alguns comentadores dizem que Hegel acreditava que o 
> "espírito humano" se exterioriza na História, em instituições... e então se 
> reconhece nelas. É uma boa ideia, eu acho (se for mesmo o que ele diz, não 
> posso confirmar porque não li).
>
> É isso o que estamos fazendo com essas máquinas: estamos assombrados 
> porque nos exteriorizamos num "outro".
>
>
>
> Em sexta-feira, 22 de maio de 2026, Eduardo Ochs <[email protected]> 
> escreveu:
>
>> Oi todos,
>>
>> > Que bom que ainda temos esses debates polêmicos aqui na lista.
>> > Muitos estudantes estão migrando dos fóruns de discussão entre
>> > pessoas e debatendo apenas com o ChatGPT, Claude, etc. Estão
>> > preferindo conversar com as máquinas do que a interlocução com
>> > humanos. (Acho que li no blog do Peter Smith, não tenho certeza, que
>> > houve uma diminuição no fluxo de perguntas e respostas no Math Stack
>> > Exchange...)
>>
>> Em 2025.2 eu tive uma turma em que uns 80% dos alunos eram estudantes
>> de Computação de 2o e 3o período que eram assombrações... eu passava
>> umas atividades de grupo em que eles tinham que calcular o resultado
>> de coisas como isso aqui na mão,
>>
>>   { (x,y) | x∈{-2,...,2}, y∈{-2,...,2}, y=sqrt(1-x^2) }
>>
>> e nos grupos de assombrações os alunos nem discutiam entre si e nem
>> tentavam "pensar no papel" - eles dividiam os 50 exercícios da
>> atividade entre as 5 pessoas de cada grupo, perguntavam algumas coisas
>> pro ChatGPT, e pronto: eles tinham feito o exercício "do melhor jeito
>> possível", e tinham chegado nos resultados bem rápido.
>>
>> Pra gente é bem claro que o "melhor jeito possível" de fazer o
>> exercício depende da métrica, e que tem várias métricas diferentes, e
>> que a métrica que esses alunos estavam usando era péssima, porque eles
>> não aprenderam quase nada e não treinaram quase nada. Só que pra
>> explicar pra eles quais são as métricas "melhores" a gente teria que
>> ter boas explicações do como funcionam coisas como "pensar no papel",
>> "aprender", "treinar até ficar fácil", "fazer boas perguntas", "fazer
>> perguntas que sejam úteis pros outros", etc, que fazem pouco sentido
>> pros xóvens...
>>
>> Alguém tem material sobre isso pra me recomendar? Eu acabei de
>> baixar e ler uns 10 artigos curtos da "AI & Society", que o João
>> Marcos recomendou e que eu não conhecia -
>> <https://link.springer.com/journal/146/volumes-and-issues/41-2>...
>> eu até tenho um monte de livros e artigos sobre isso que eu posso
>> mandar pra quem quiser, mas são todos bem mais antigos, e talvez
>> vocês tenham recomendações recentes...
>>
>>   [[]],
>>     Eduardo Ochs
>>     Psicopata do CEFET
>>     https://anggtwu.net/2026-alguns-motivos-bel.html
>>
>>
>> On Fri, 22 May 2026 at 08:29, Márcio Palmares <[email protected]> 
>> wrote:
>>
>>> Que bom que ainda temos esses debates polêmicos aqui na lista. Muitos 
>>> estudantes estão migrando dos fóruns de discussão entre pessoas e debatendo 
>>> apenas com o ChatGPT, Claude, etc. Estão preferindo conversar com as 
>>> máquinas do que a interlocução com humanos. (Acho que li no blog do Peter 
>>> Smith, não tenho certeza, que houve uma diminuição no fluxo de perguntas e 
>>> respostas no Math Stack Exchange...)
>>>
>>> Eu separo a dimensão sociológica, política, econômica, da dimensão 
>>> puramente teórica, matemática e filosófica. Acho que misturar as coisas 
>>> prejudica nossa compreensão. Sou comunista de carteirinha, desde os 17 
>>> anos. Poderia discutir o aspecto sociológico também, mas não é tão 
>>> significativo, pois não tem nada de novo. Todas as tecnologias são 
>>> mercadorias. Na verdade, todo trabalho humano assume a forma mercadoria no 
>>> capitalismo. Toda tecnologia é explorada por corporações grandes ou 
>>> pequenas com o objetivo exclusivo de conseguir lucro, mais concentração de 
>>> poder, mais concentração de capital.
>>>
>>> "Parece que o resultado em questão se deve mais ao desejo da OpenAI de 
>>> concorrer com a Antrophic --publicidade, portanto-- do que de uma 
>>> verdadeira preocupação com a pesquisa matemática".
>>>
>>> Este contraponto é como dizer: "Parece que o fato de a Coca-Cola estar 
>>> vendendo água mineral se deve mais ao desejo de a empresa de obter lucros 
>>> do que uma verdadeira preocupação com a hidratação das pessoas."
>>>
>>> É um ataque contra um espantalho. Toda empresa busca lucro, faz 
>>> publicidade, vende sua mercadoria, concorre no mercado com outras empresas, 
>>> assedia o governo dos países onde está instalada para ter vantagens, 
>>> explora sua força de trabalho...
>>>
>>> Não há novidade alguma aqui. Talvez um aspecto meio novo: normalmente, 
>>> áreas de ponta em tecnologia estão ligadas a complexos estatais-militares, 
>>> como no caso da energia atômica. Aqui um setor privado é o propulsor da 
>>> ferramenta, e vem adquirindo cada vez mais poder e influência sobre os 
>>> governos (veja-se o 'artigo' recente da Anthropic sobre 'geopolítica', onde 
>>> a empresa prevê um apocalipse caso o 'ocidente' perca a liderança em IA 
>>> para a China. Realmente a Anthropic está preocupada com a opressão dos 
>>> chineses? Ou está de olho no fluxo de investimentos que pode vir do governo 
>>> dos EUA?).
>>>
>>> A IA na forma atual é um problema humano, ambiental? Claro que sim. 
>>> Tanto quanto os agrotóxicos, os microplásticos, os desastres climáticos... 
>>> Mas essa dimensão não é relevante filosoficamente. É relevante para a 
>>> política diária. Mas a escala de tempo dos problemas filosóficos é outra. 
>>> Sistemas econômicos mudam, a filosofia fica.
>>>
>>> A Profa. Tatiana Roque da UFRJ escreveu um artigo na Folha de São Paulo 
>>> fazendo esse contraponto sugerido pela Gisele na postagem anterior, uma 
>>> visão mais histórica, mais filosófica, menos 'entusiamo ingênuo' e mais 
>>> 'senso crítico'. Foi publicado no momento em que o Marcelo Viana estava 
>>> terminando a série de colunas dele sobre a IA na matemática. Claramente, 
>>> são pontos de vista opostos. Reproduzo abaixo, na íntegra, o artigo da 
>>> Tatiana Roque. É ilustrativo em vários aspectos. No entanto, em minha 
>>> opinião, expressa uma reação conservadora diante da novidade filosófica, 
>>> epistêmica.
>>>
>>> Peguei o termo "revolução científica" do ensaio do Bessis, divulgado 
>>> pela Valéria, com o qual começamos a discussão. Acho que ele está correto.
>>>
>>> Acho que estamos atravessando essa revolução e ainda tentando entender o 
>>> que será este mundo novo que emergirá dela, quando ela se completar. Minha 
>>> aposta: surgirá uma era de 'transcognitivismo' (para confrontar com 
>>> 'trans-humanismo'). Sem descartar a hipótese de ciborgues ou coisas do 
>>> tipo, o que parece estar surgindo é uma cognição híbrida: uma colaboração 
>>> cada vez maior do homem com a máquina. E o interessante é que, agora, a 
>>> máquina pode nos surpreender, criar matemática nova. Não é apenas força 
>>> bruta. É exteriorização de nossa criatividade. Essa colaboração 
>>> provavelmente mudará o modo como pensamos em matemática, fazemos matemática.
>>>
>>> Vou ler agora o artigo que o João Marcos sugeriu, sobre 
>>> comportamentalismo versus cognitivismo, para ver se entendo o ponto.
>>>
>>> Segue o artigo da Tatiana Roque:
>>>
>>> -x-x-x-
>>>
>>> 'Hype da IA' não pode rebaixar o pensamento humano e bloquear debate 
>>> sobre a tecnologia
>>>
>>> Com avanço da IA, a capacidade de máquinas passa a definir o significado 
>>> da inteligência humana
>>>
>>> Fase de superexcitação com a tecnologia está de volta, mas a história 
>>> mostra que destino não é inexorável
>>>
>>> Tatiana Roque
>>>
>>> [RESUMO] Em reflexão sobre as raízes históricas da inteligência 
>>> artificial, autora retoma a previsão do matemático Alan Turing, que propôs 
>>> que o debate sobre o significado do pensamento humano seria esquecido no 
>>> final do século 20 com o fim dos questionamentos sobre a inteligência das 
>>> máquinas. Hoje, a falta de humildade epistêmica em um período de 
>>> desenvolvimento acelerado da tecnologia pode causar grandes catástrofes.
>>>
>>> ×
>>>
>>> Paris inteira correu para ver o flautista. Pessoas de todas as idades 
>>> tentavam achar um bom ângulo para assistir àquele espetáculo inusitado.
>>>
>>> Na grande estreia daquela noite, o músico era um autômato. A máquina 
>>> havia sido construída pelo mecânico francês Jacques de Vaucanson e fazia 
>>> movimentos contidos em cima de um pedestal. Mais do que um suporte, 
>>> escondia-se ali o mecanismo engenhoso que dava vida ao flautista. O público 
>>> saiu encantado com a precisão da performance, que foi destaque nos jornais 
>>> daquele janeiro de 1738.
>>>
>>> Sempre fui fascinada por brinquedos de corda, feitos de metal, com 
>>> pintura delicada e colorida. Na minha estante de livros, tenho um 
>>> carrossel, um pintinho, um elefante, um pião e um humanoide, todos com 
>>> aquela aura retrô.
>>>
>>> Quando chego cansada do trabalho, costumo dar corda no pintinho para 
>>> vê-lo ciscar compulsivamente em cima da mesa, até o mecanismo se exaurir. 
>>> Já o carrossel toca Edith Piaf enquanto gira cavalos e demoiselles. Em 
>>> nenhum momento, esqueço que são engenhos mecânicos. Ao contrário, é isso 
>>> que têm de encantador.
>>>
>>> Até que ponto as máquinas podem imitar seres humanos? Essa pergunta vem 
>>> de longe. Ninguém achava, no século 18, que o flautista iria superar um 
>>> músico de carne e osso. Para isso, seria preciso reproduzir a 
>>> característica humana mais singular: a inteligência.
>>>
>>> Ao longo do século 19, foram muitas as tentativas de imitar essa 
>>> faculdade, especialmente com a invenção das primeiras máquinas de calcular, 
>>> propostas por Charles Babbage para substituir o trabalho mental. O avanço 
>>> da computação, durante a Segunda Guerra Mundial, tornou a questão mais 
>>> urgente ao fim do conflito.
>>>
>>> Em 1950, surgiu um teste para verificar se a inteligência dos 
>>> computadores pode se equiparar à humana. A proposta foi feita pelo 
>>> matemático Alan Turing, conhecido como um dos pais da computação, no artigo 
>>> "Máquinas de computação e inteligência". Apesar de celebrado como inventor 
>>> da "inteligência artificial", ele não usava esses termos.
>>>
>>> Sou historiadora da ciência e, nessa profissão, partimos da premissa de 
>>> que investigar a obra de um cientista exige recuperar as noções como por 
>>> ele empregadas, sem encaixá-las retrospectivamente nas denominações atuais. 
>>> Olhar o passado com os olhos do presente é anacronismo, vício a ser evitado 
>>> na prática da história. De fato, Turing queria saber se as máquinas podem 
>>> pensar, mas formulou a pergunta em termos peculiares, que podem passar 
>>> despercebidos aos olhares açodados de hoje.
>>>
>>> Antes de investigar se as máquinas podem pensar, seria preciso responder 
>>> à pergunta: o que caracteriza o pensamento humano? Mas essa questão é 
>>> difícil demais, e Turing faz um desvio:
>>>
>>> "Acredito que a pergunta original, 'as máquinas podem pensar?', é 
>>> insignificante demais para merecer discussão. No entanto, acredito que, no 
>>> final do século, o uso das palavras e a opinião geral das pessoas 
>>> instruídas terão mudado tanto que será possível falar de máquinas pensando 
>>> sem esperar ser contrariado."
>>>
>>> A previsão é espantosa, além de profética: a busca pelo significado do 
>>> que é pensar será esquecida até o final do século 20 e, só assim, será 
>>> possível falar de máquinas pensando sem ser contrariado. É exatamente o que 
>>> está acontecendo hoje. Não parece mais importar o que há de especial na 
>>> inteligência ou no pensamento ou até onde o ser humano pode levar o 
>>> exercício dessas faculdades. Basta saber como são percebidas em seu uso 
>>> mais comum. Chamamos esse fenômeno de demônio de Turing.
>>>
>>> A percepção é uma faculdade traiçoeira, contaminada por interesses. E se 
>>> estivermos enganados a cada vez que nossos sentidos nos fizerem crer que 
>>> observamos algo real? Esse é um dilema da filosofia desde a caverna de 
>>> Platão.
>>>
>>> A dificuldade se agrava com a pergunta de Descartes: e se estivermos 
>>> equivocados a cada vez que tivermos uma certeza? Um gênio maligno poderia 
>>> estar nos enganando, diz o filósofo francês. Mesmo verdades básicas e 
>>> aparentemente inquestionáveis, como as verdades matemáticas (2 + 3 = 5), 
>>> poderiam ser falsas e a certeza que experimentamos sobre elas talvez seja 
>>> obra do demônio.
>>>
>>> A hipótese do gênio maligno, o demônio de Descartes, é uma forma de nos 
>>> convencer sobre a necessidade de um método rigoroso para obter certezas.
>>>
>>> Turing não era filósofo. Preocupado com critérios práticos para avaliar 
>>> a performance dos computadores, propôs substituir a pergunta "as máquinas 
>>> podem pensar?" por um teste, chamado de jogo da imitação. Uma máquina e uma 
>>> pessoa humana devem responder a perguntas, posicionados de forma que um 
>>> júri, encarregado de avaliar as respostas, não consiga ver de onde elas 
>>> vieram. Se o júri errar, ou seja, se avaliar como humanas as respostas 
>>> fornecidas pela máquina, ela pode ser dita inteligente.
>>>
>>> Vejam a ironia: Turing não estava tentando desvendar os mistérios do 
>>> pensamento humano, apenas provar que isso não é necessário para dizer se 
>>> uma máquina se equipara a um ser humano na tarefa de responder a perguntas. 
>>> Diferente do flautista, que escondia seu maquinário dentro do pedestal, o 
>>> jogo da imitação requer um ser humano escondido. Rebatizado mais tarde de 
>>> teste de Turing, o desafio sugere que a máquina pode ser equiparada à 
>>> inteligência humana se conseguir iludir pessoas de carne e osso.
>>>
>>> A ideia de inteligência artificial surgiu um pouco depois, em 1956, 
>>> quando um professor do Dartmouth College, John McCarthy, convocou 
>>> pesquisadores de peso das áreas de computação, neurociências e cibernética 
>>> para uma conferência. Como estratégia para tornar o convite sedutor, 
>>> incluiu um termo chamativo na proposta: inteligência artificial.
>>>
>>> Tratava-se de um nome novo para os estudos sobre autômatos, mas não só. 
>>> O objetivo era avançar na conjectura de que qualquer característica da 
>>> inteligência pode ser descrita com tanta precisão que é possível treinar 
>>> uma máquina para simulá-la. Nessa época, o tipo predominante de 
>>> inteligência artificial era bem diferente da atual, mais influenciada pela 
>>> lógica do que pela estatística.
>>>
>>> Essa IA clássica costuma ser chamada de Gofai, um acrônimo para "good 
>>> old-fashioned AI" (digamos, a boa e velha IA). Dito de modo resumido, a IA 
>>> simbólica aprendia a partir de regras explícitas, ao contrário das técnicas 
>>> atuais, que se apoiam na enorme quantidade de dados disponíveis na internet.
>>>
>>> Naquela época, já se falava em redes neurais, ideia que está na base da 
>>> IA de hoje. Mas apenas nos anos 1990, com o avanço do poder computacional, 
>>> ela passou a exibir resultados satisfatórios. As diferenças entre a Gofai e 
>>> as redes neurais são difíceis de explicar, mas o contraponto ajuda a 
>>> lembrar que não existe apenas um caminho.
>>>
>>> A história da IA é marcada por surtos periódicos de superexcitação 
>>> intercalados com os chamados invernos da IA, nos quais os limites se tornam 
>>> aparentes, o entusiasmo se esvai e o financiamento é cortado.
>>>
>>> Durante a década de 1960, abordagens simbólicas obtiveram sucesso na 
>>> simulação de comportamentos inteligentes em jogos, matemática simbólica ou 
>>> demonstração de teoremas. Depois, o investimento declinou. O ano de 1973 
>>> foi um marco, com publicações jogando um balde de água fria nos métodos 
>>> usados até ali e mudando o foco da pesquisa. O entusiasmo retornou, até que 
>>> as promessas não cumpridas culminaram em outra reação negativa na década de 
>>> 1980.
>>>
>>> Estaríamos retornando à fase de superexcitação? Será que ela vai 
>>> demorar? Parece que sim, mas o senso histórico ajuda a lembrar que não se 
>>> trata de um destino inexorável.
>>>
>>> Nossa definição de inteligência está mudando com o avanço da IA. É 
>>> normal que os conceitos mudem de sentido, mas precisamos estar atentos para 
>>> que essa mudança não acabe diminuindo o potencial da inteligência humana e 
>>> bloqueando um debate franco sobre os rumos da tecnologia.
>>>
>>> Na matemática, existe uma grande diferença entre resolver problemas e 
>>> formulá-los. Em geral, não se percebe isso, pois o ensino básico é 
>>> excessivamente focado em resolver problemas, como usar a fórmula de 
>>> resolução de equações do segundo grau, encontrar a soma dos termos de uma 
>>> progressão aritmética ou multiplicar matrizes. Um matemático profissional 
>>> não faz nada disso. Ele propõe novos problemas. Se forem bons, esses 
>>> problemas podem virar teoremas, motivar boas teses de doutorado ou ser 
>>> aplicados a outras áreas. Costumo dizer que os problemas são o motor da 
>>> matemática.
>>>
>>> Neste momento, grandes cientistas e empresários comemoram o sucesso de 
>>> uma ferramenta de IA na Olimpíada Internacional de Matemática. Os 
>>> entusiastas correm para dizer que estamos diante de uma inteligência 
>>> artificial comparável à dos humanos, já que a matemática é símbolo de 
>>> inteligência.
>>>
>>> De fato, a IA é uma ótima resolvedora de problemas, mas estamos longe de 
>>> vê-la inventar problemas consistentes, ofício de todo bom cientista. À 
>>> frente da empresa ligada ao Google que criou a ferramenta vitoriosa nas 
>>> olimpíadas, Demis Hassabis reconhece essa diferença entre resolver e 
>>> inventar problemas. Os grandes avanços da ciência dependem da formulação de 
>>> boas perguntas, não só das respostas certas.
>>>
>>> Luciano Floridi é um filósofo que tem refletido sobre as implicações 
>>> éticas da IA. Para ele, a inteligência artificial de hoje é uma dissociação 
>>> entre a resolução bem-sucedida de problemas e o comportamento inteligente. 
>>> Dissociação é uma palavra forte. Ela sugere que o comportamento inteligente 
>>> não está sendo mobilizado, em toda a sua amplitude, quando a IA executa as 
>>> tarefas necessárias para resolver problemas, pois estão ausentes a 
>>> consciência, a perspicácia, a sensibilidade, os insights, a experiência e a 
>>> sabedoria.
>>>
>>> Mesmo sem nenhuma dessas capacidades humanas, a IA fornece soluções 
>>> convincentes, mas graças às técnicas avançadas para processar enormes 
>>> quantidades de dados produzidos pelos seres humanos.
>>>
>>> O sucesso da IA depende de uma construção pouco explícita: foi criado um 
>>> ambiente favorável, no qual as tecnologias inteligentes se sentem em casa. 
>>> Vivemos agarrados a nossos celulares, os objetos da casa se tornam smart, a 
>>> TV e o fogão vêm com um assistente de bordo inteligente, os veículos 
>>> possuem chips e um GPS nos acompanha. Tudo isso deixa rastros em dados e 
>>> mais dados.
>>>
>>> Talvez o mundo esteja se adaptando à IA, e não o contrário, do mesmo 
>>> modo como nossas mãos adquirem a forma de um celular, nossas relações reais 
>>> refletem traços de nosso comportamento nas redes sociais e nosso cérebro 
>>> apodrece com o tempo gasto na internet, como descrito no chamado "brain 
>>> rot".
>>>
>>> O demônio de Turing é o gênio maligno que nos leva a avaliar nossa 
>>> própria inteligência a partir do que a máquina é capaz de fazer. Esse é um 
>>> risco invisível nas discussões sobre o futuro e o poder da IA. Uma 
>>> redefinição vai se firmando, sem que os termos estejam explícitos. Só então 
>>> "será possível falar de máquinas pensando sem esperar ser contrariado", 
>>> exatamente como Turing previu.
>>>
>>> As ideias vão se adequando aos ares do tempo de tal maneira que nem 
>>> sequer estranhamos quando um caminhão autônomo é considerado uma façanha da 
>>> inteligência artificial, mesmo que até há pouco tempo não achássemos que 
>>> dirigir fosse uma atividade inteligente.
>>>
>>> Os avanços dos próximos anos serão velozes e precisaremos de critérios 
>>> para avaliar se estamos realmente perto de uma inteligência artificial 
>>> equiparável à dos humanos. Pode ser útil examinar se ela sabe inventar 
>>> problemas tão bem quanto um bom matemático —e o mesmo vale para a arte e 
>>> outras áreas criativas, que dependem mais de perguntas consistentes do que 
>>> de respostas eficazes.
>>>
>>> Os debates sobre inteligência artificial são envolvidos por muito hype. 
>>> Isso atrapalha uma conversa franca sobre suas consequências, desde os 
>>> impactos no mundo do trabalho até o uso dos recursos naturais. Encantamento 
>>> e ocultamento são dois lados do mesmo demônio, distrações que terminam por 
>>> esvaziar nossa agência e desmobilizar a ação política necessária para 
>>> incidir nos rumos da IA. Não é uma tarefa fácil, mas a história nos lembra 
>>> que há técnicas diversas e algumas podem ser mais úteis do que outras se 
>>> fixarmos o bem comum como objetivo.
>>>
>>> "Não acredite no hype da IA" é o título de um artigo de Daron Acemoglu, 
>>> prêmio Nobel de Economia. Ele mostra, com riqueza de dados, que os ganhos 
>>> de produtividade, por enquanto, são modestos e a "automação pelo prazer de 
>>> automatizar" amplia as desigualdades sociais. Acemoglu é um dos defensores 
>>> mais eloquentes da ideia de que devemos direcionar o curso da mudança 
>>> tecnológica e não aceitar o caminho atual como inevitável.
>>>
>>> Húbris é um conceito de origem grega, comumente associado à soberba. Os 
>>> mitos antigos advertiam para o perigo de se superestimar a contribuição 
>>> humana diante de grandes conquistas. Quando obtêm sucesso importante em 
>>> algum feito, como vencer guerras ou inventar ferramentas poderosas, os 
>>> humanos correm o risco de subestimar o papel da fortuna e achar que tudo é 
>>> fruto de sua própria genialidade.
>>>
>>> Mais uma vez, o demônio está à espreita, só que o excesso de confiança 
>>> irrita os deuses. A sensação de invulnerabilidade e a falta de humildade 
>>> epistêmica que a húbris enseja podem despertar a ira dos deuses e ocasionar 
>>> grandes catástrofes. Precisamos evitá-las, e redirecionar o uso e as 
>>> prioridades no desenvolvimento da IA é parte dessa missão.
>>>
>>> ***
>>>
>>> Este texto é uma versão adaptada da introdução de "A Máquina e Nós: 
>>> Promessas e Armadilhas da Inteligência Artificial", que será publicado pela 
>>> Todavia em junho.
>>>
>>>
>>>
>>>
>>>
>>>
>>>
>>> Em quinta-feira, 21 de maio de 2026, Joao Marcos <[email protected]> 
>>> escreveu:
>>>
>>>> Márcio Palmares escreveu:
>>>> >
>>>> > Seres humanos exteriorizam sua imaginação criando ferramentas, 
>>>> máquinas, tecnologia.
>>>> >
>>>> > Agora, exteriorizamos nosso pensamento matemático, ou certas porções 
>>>> dele. De um machado de pedra para uma máquina capaz de fazer matemática... 
>>>> Podemos delegar à máquina a resolução de alguns problemas. E ela pode se 
>>>> sair melhor do que nós em certos casos (do mesmo modo que uma escavadeira 
>>>> se sai melhor do que um indivíduo com uma pá). Mas não se trata de força 
>>>> bruta. Este caso mostra criatividade, engenhosidade: exteriorização de 
>>>> faculdades humanas.
>>>> >
>>>> > Para um materialista no sentido filosófico, isso tudo é surpreendente 
>>>> em um único sentido: somos matéria estelar que adquiriu vida e consciência 
>>>> (Carl Sagan). Somos máquinas biológicas. Se fosse impossível construir 
>>>> máquinas capazes de imitar certas faculdades humanas (inteligência 
>>>> matemática), então nós não existiríamos.
>>>>
>>>> No que diz respeito ao advento das LLMs e a nossa reflexão acerca das
>>>> suas capacidades, lembrei-me deste artigo:
>>>>
>>>> Cognitivism prevents us from understanding artificial intelligence
>>>> https://link.springer.com/article/10.1007/s00146-025-02583-5
>>>>
>>>> Será que é mesmo o caso de reavivarmos a chama do comportamentalismo,
>>>> em detrimento do cognitivismo?
>>>>
>>>>
>>>> Gisele Dalva escreveu:
>>>> > Nem tudo o que reluz é ouro, já diz a cantiga de capoeira, e dar uns 
>>>> passos atrás antes de preconizar grandes e radicais mudanças em alguma 
>>>> prática científica pode ser uma boa atitude.
>>>>
>>>> Eu não hesitaria em afirmar que as mudanças trazidas pelas LLMs à
>>>> prática matemática são, com efeito, grandes e radicais.
>>>>
>>>> Querendo ou não, nunca mais voltaremos a fazer buscas da forma como
>>>> fazíamos outrora.  E isso me faz recordar o clássico artigo
>>>> "Intelligent machinery", escrito pelo patrono da "Filosofia da
>>>> Inteligência", Alan Turing, no qual ele discute, entre outras tantas
>>>> questões, "the idea that intellectual activity consists mainly of
>>>> various kinds of search".  Pois a coisa está funcionando, e está, sim,
>>>> desmistificando um bom bocado a ideia romantizada acerca das
>>>> capacidades que nos tornariam singularmente humanos --- capacidades
>>>> estas, aliás, que muitos humanos parecem usar com bastante parcimônia.
>>>>
>>>> []s, João Marcos
>>>>
>>>> -- 
>>>> LOGICA-L
>>>> Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de 
>>>> Lógica <[email protected]>
>>>> --- 
>>>> Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo 
>>>> "LOGICA-L" dos Grupos do Google.
>>>> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, 
>>>> envie um e-mail para [email protected].
>>>> Para ver esta conversa, acesse 
>>>> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CAO6j_Lj4d_L0%3DMr_ai9UbNhoxinqJ4KSyJwsa_6U_jBM9bMVEg%40mail.gmail.com
>>>> .
>>>>
>>> -- 
>>> LOGICA-L
>>> Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de 
>>> Lógica <[email protected]>
>>> --- 
>>> Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" dos 
>>> Grupos do Google.
>>> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, 
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