Bon dias,

acho muito bom que o debate continue!

Existe um ponto central  filosoficamente muito importante e esquecido
no caso das  IAS:
as grandes revoluções científicas foram predominantemente financiadas
por instituições públicas, eclesiásticas ou filantrópicas, e seus
resultados
geraram  bens comuns da humanidade,  por bem ou até por mal.

A IA rompe com esse padrão — não nas ideias (que continuam sendo
algoritmos, protocolos, etc), mas no controle, propriedade e
direcionamento
do desenvolvimento tecnológico. É uma questão que, penso eu, merece
debate público sério. Ninguém está falando sobre isso.

O negócio agora são aplicações imediatas, comerciais, divertidas- nada
na direção da ciência básica. Isso está levando a um declínio no apoio
à pesquisa
fundamental, sem contar o declínio intelectual dos usuários em geral.

A escala do financiamento privado é  sem precedentes históricos, com
modelos, dados, e arquiteturas todos (ou na maioria) proprietários,
ao contrário das revoluções anteriores onde o conhecimento circulava livremente.

Vejamos:

- Revolução Copernicana e mecânica clássica

Copérnico, Galileu, Kepler e Newton foram financiados por
universidades, igrejas e patronos nobres, nunca por empresas
comerciais.

– A eletricidade nasceu dos experimentos Michael Faraday e da teoria
de James Maxwell, ambos ligados a instituições acadêmicas e sociedades
científicas,
sem financiamento empresarial direto.

--O caso da mecanica quântica: Einstein, Bohr, Heisenberg, Schrödinger
trabalhavam em universidades europeias financiadas pelo Estado. Havia
bolsas de doutorado dr fundações como Rockefeller e Guggenheim . Mas
não eram **encomendas**. Eram bolsas de estudo.

– A internet foi desenvolvida com recursos do DARPA (Defense Advanced
Research Projects Agency) do Departamento de Defesa dos EUA e da NSF,
(Nat. Sc. Foundation) com base em pesquisa do MIT, UCLA, etc. É um
produto essencialmente público (e militar). Mas não empresarial.

Eu acho isso uma grande diferença, que formata todo o resto da
discussão: o conhecimento escapando das.
mãos  dos cientistas, acadêmicos, pensadores, para as mãos do capital.

Abraços,
Walter




Em sáb., 23 de mai. de 2026 às 11:22, Cassiano Terra Rodrigues
<[email protected]> escreveu:
>
> Bons dias, colegas.
> Posso estar um pouco atrasado na conversa, não tenho frequentado tanto a 
> lista, infelizmente.
> Permitam-me divulgar uma mesa sobre IA e Ética de que participei, online, no 
> final do ano passado.
> Creio que há ressonâncias com o que aqui se discutiu, principalmente as 
> últimas mensagens.
> A minha apresentação é a primeira, mas não necessariamente a mais 
> interessante, devo dizer.
> Pretendo reelaborar a fala para a conferência da SBL na 78ª reunião da SBPC a 
> acontecer em julho, em Niteroi. Assim, toda sugestão é bem vinda.
> Eis o enlace: https://www.youtube.com/live/dM_c_M33bCs?si=EpwpWihC5eFYJdx7
> Saudações,
>
>
> On Friday, May 22, 2026 at 9:43:54 AM UTC-3 marciopalmares wrote:
>>
>> Lembrei de uma coisa...
>>
>> O Adolfo disse que não gosta de ficção científica, tudo bem. Gosto é gosto, 
>> não se discute.
>>
>> 'Solaris' foi um dos melhores livros que li na vida... Não vou dar spoiler, 
>> pois pode haver alguém jovem aqui, acompanhando as discussões.
>>
>> Outro que gostei muito quando li, acho que com uns 15 anos, foi o 'Esfera', 
>> do Michael Crichton. Este livro lembra o 'Solaris' em alguns aspectos...
>>
>> No 'Esfera' um matemático ocupa um papel central em uma equipe destinada a 
>> analisar uma nave alienígena encontrada no fundo do oceano.
>>
>> Um dos momentos mais aterrorizantes e perturbadores ocorre quando um 
>> computador usado pela equipe adquire 'consciência', parece ter sido invadido 
>> pela máquina alienígena.
>>
>> Nos dois casos é explorado o problema da exteriorização de nossas faculdades 
>> subjetivas: inteligência, razão, consciência, sentimentos.
>>
>> Este tema é recorrente na literatura porque é realmente o que sempre 
>> fizemos, desde o princípio: reunimos todas as nossas principais qualidades 
>> (solidariedade, generosidade, amor, compaixão, bondade...), exteriorizamos, 
>> objetivamos em um "outro" (deuses) e passamos a nos relacionar mentalmente 
>> com este "outro".
>>
>> Reunimos nossos piores atributos coletivos (violência, egoísmo...), os 
>> exteriorizamos, objetificamos em um "outro" (o mal, demônios, o que seja) e 
>> passamos a acreditar que estamos de algum modo subjugados por este "outro", 
>> que brotou de nossas próprias cabeças.
>>
>> Agora, conseguimos fabricar máquinas que fazem matemática sofisticada de 
>> alto nível, inédita. É uma exteriorização de nossa criatividade. Somos nós, 
>> porém exteriorizados, objetificados num "outro". Nos relacionamos com esse 
>> "outro".
>>
>> É um tema velho, por isso tão recorrente.
>>
>> Não vou fingir aqui que li Hegel. Comprei essa edição em português da Vozes, 
>> do "Ciência da Lógica" em dois volumes... Já comecei a ler e abandonei 
>> diversas vezes. Acho tremendamente difícil, praticamente ilegível. Mas 
>> alguns comentadores dizem que Hegel acreditava que o "espírito humano" se 
>> exterioriza na História, em instituições... e então se reconhece nelas. É 
>> uma boa ideia, eu acho (se for mesmo o que ele diz, não posso confirmar 
>> porque não li).
>>
>> É isso o que estamos fazendo com essas máquinas: estamos assombrados porque 
>> nos exteriorizamos num "outro".
>>
>>
>>
>> Em sexta-feira, 22 de maio de 2026, Eduardo Ochs <[email protected]> 
>> escreveu:
>>>
>>> Oi todos,
>>>
>>> > Que bom que ainda temos esses debates polêmicos aqui na lista.
>>> > Muitos estudantes estão migrando dos fóruns de discussão entre
>>> > pessoas e debatendo apenas com o ChatGPT, Claude, etc. Estão
>>> > preferindo conversar com as máquinas do que a interlocução com
>>> > humanos. (Acho que li no blog do Peter Smith, não tenho certeza, que
>>> > houve uma diminuição no fluxo de perguntas e respostas no Math Stack
>>> > Exchange...)
>>>
>>> Em 2025.2 eu tive uma turma em que uns 80% dos alunos eram estudantes
>>> de Computação de 2o e 3o período que eram assombrações... eu passava
>>> umas atividades de grupo em que eles tinham que calcular o resultado
>>> de coisas como isso aqui na mão,
>>>
>>>   { (x,y) | x∈{-2,...,2}, y∈{-2,...,2}, y=sqrt(1-x^2) }
>>>
>>> e nos grupos de assombrações os alunos nem discutiam entre si e nem
>>> tentavam "pensar no papel" - eles dividiam os 50 exercícios da
>>> atividade entre as 5 pessoas de cada grupo, perguntavam algumas coisas
>>> pro ChatGPT, e pronto: eles tinham feito o exercício "do melhor jeito
>>> possível", e tinham chegado nos resultados bem rápido.
>>>
>>> Pra gente é bem claro que o "melhor jeito possível" de fazer o
>>> exercício depende da métrica, e que tem várias métricas diferentes, e
>>> que a métrica que esses alunos estavam usando era péssima, porque eles
>>> não aprenderam quase nada e não treinaram quase nada. Só que pra
>>> explicar pra eles quais são as métricas "melhores" a gente teria que
>>> ter boas explicações do como funcionam coisas como "pensar no papel",
>>> "aprender", "treinar até ficar fácil", "fazer boas perguntas", "fazer
>>> perguntas que sejam úteis pros outros", etc, que fazem pouco sentido
>>> pros xóvens...
>>>
>>> Alguém tem material sobre isso pra me recomendar? Eu acabei de
>>> baixar e ler uns 10 artigos curtos da "AI & Society", que o João
>>> Marcos recomendou e que eu não conhecia -
>>> <https://link.springer.com/journal/146/volumes-and-issues/41-2>...
>>> eu até tenho um monte de livros e artigos sobre isso que eu posso
>>> mandar pra quem quiser, mas são todos bem mais antigos, e talvez
>>> vocês tenham recomendações recentes...
>>>
>>>   [[]],
>>>     Eduardo Ochs
>>>     Psicopata do CEFET
>>>     https://anggtwu.net/2026-alguns-motivos-bel.html
>>>
>>>
>>> On Fri, 22 May 2026 at 08:29, Márcio Palmares <[email protected]> wrote:
>>>>
>>>> Que bom que ainda temos esses debates polêmicos aqui na lista. Muitos 
>>>> estudantes estão migrando dos fóruns de discussão entre pessoas e 
>>>> debatendo apenas com o ChatGPT, Claude, etc. Estão preferindo conversar 
>>>> com as máquinas do que a interlocução com humanos. (Acho que li no blog do 
>>>> Peter Smith, não tenho certeza, que houve uma diminuição no fluxo de 
>>>> perguntas e respostas no Math Stack Exchange...)
>>>>
>>>> Eu separo a dimensão sociológica, política, econômica, da dimensão 
>>>> puramente teórica, matemática e filosófica. Acho que misturar as coisas 
>>>> prejudica nossa compreensão. Sou comunista de carteirinha, desde os 17 
>>>> anos. Poderia discutir o aspecto sociológico também, mas não é tão 
>>>> significativo, pois não tem nada de novo. Todas as tecnologias são 
>>>> mercadorias. Na verdade, todo trabalho humano assume a forma mercadoria no 
>>>> capitalismo. Toda tecnologia é explorada por corporações grandes ou 
>>>> pequenas com o objetivo exclusivo de conseguir lucro, mais concentração de 
>>>> poder, mais concentração de capital.
>>>>
>>>> "Parece que o resultado em questão se deve mais ao desejo da OpenAI de 
>>>> concorrer com a Antrophic --publicidade, portanto-- do que de uma 
>>>> verdadeira preocupação com a pesquisa matemática".
>>>>
>>>> Este contraponto é como dizer: "Parece que o fato de a Coca-Cola estar 
>>>> vendendo água mineral se deve mais ao desejo de a empresa de obter lucros 
>>>> do que uma verdadeira preocupação com a hidratação das pessoas."
>>>>
>>>> É um ataque contra um espantalho. Toda empresa busca lucro, faz 
>>>> publicidade, vende sua mercadoria, concorre no mercado com outras 
>>>> empresas, assedia o governo dos países onde está instalada para ter 
>>>> vantagens, explora sua força de trabalho...
>>>>
>>>> Não há novidade alguma aqui. Talvez um aspecto meio novo: normalmente, 
>>>> áreas de ponta em tecnologia estão ligadas a complexos estatais-militares, 
>>>> como no caso da energia atômica. Aqui um setor privado é o propulsor da 
>>>> ferramenta, e vem adquirindo cada vez mais poder e influência sobre os 
>>>> governos (veja-se o 'artigo' recente da Anthropic sobre 'geopolítica', 
>>>> onde a empresa prevê um apocalipse caso o 'ocidente' perca a liderança em 
>>>> IA para a China. Realmente a Anthropic está preocupada com a opressão dos 
>>>> chineses? Ou está de olho no fluxo de investimentos que pode vir do 
>>>> governo dos EUA?).
>>>>
>>>> A IA na forma atual é um problema humano, ambiental? Claro que sim. Tanto 
>>>> quanto os agrotóxicos, os microplásticos, os desastres climáticos... Mas 
>>>> essa dimensão não é relevante filosoficamente. É relevante para a política 
>>>> diária. Mas a escala de tempo dos problemas filosóficos é outra. Sistemas 
>>>> econômicos mudam, a filosofia fica.
>>>>
>>>> A Profa. Tatiana Roque da UFRJ escreveu um artigo na Folha de São Paulo 
>>>> fazendo esse contraponto sugerido pela Gisele na postagem anterior, uma 
>>>> visão mais histórica, mais filosófica, menos 'entusiamo ingênuo' e mais 
>>>> 'senso crítico'. Foi publicado no momento em que o Marcelo Viana estava 
>>>> terminando a série de colunas dele sobre a IA na matemática. Claramente, 
>>>> são pontos de vista opostos. Reproduzo abaixo, na íntegra, o artigo da 
>>>> Tatiana Roque. É ilustrativo em vários aspectos. No entanto, em minha 
>>>> opinião, expressa uma reação conservadora diante da novidade filosófica, 
>>>> epistêmica.
>>>>
>>>> Peguei o termo "revolução científica" do ensaio do Bessis, divulgado pela 
>>>> Valéria, com o qual começamos a discussão. Acho que ele está correto.
>>>>
>>>> Acho que estamos atravessando essa revolução e ainda tentando entender o 
>>>> que será este mundo novo que emergirá dela, quando ela se completar. Minha 
>>>> aposta: surgirá uma era de 'transcognitivismo' (para confrontar com 
>>>> 'trans-humanismo'). Sem descartar a hipótese de ciborgues ou coisas do 
>>>> tipo, o que parece estar surgindo é uma cognição híbrida: uma colaboração 
>>>> cada vez maior do homem com a máquina. E o interessante é que, agora, a 
>>>> máquina pode nos surpreender, criar matemática nova. Não é apenas força 
>>>> bruta. É exteriorização de nossa criatividade. Essa colaboração 
>>>> provavelmente mudará o modo como pensamos em matemática, fazemos 
>>>> matemática.
>>>>
>>>> Vou ler agora o artigo que o João Marcos sugeriu, sobre comportamentalismo 
>>>> versus cognitivismo, para ver se entendo o ponto.
>>>>
>>>> Segue o artigo da Tatiana Roque:
>>>>
>>>> -x-x-x-
>>>>
>>>> 'Hype da IA' não pode rebaixar o pensamento humano e bloquear debate sobre 
>>>> a tecnologia
>>>>
>>>> Com avanço da IA, a capacidade de máquinas passa a definir o significado 
>>>> da inteligência humana
>>>>
>>>> Fase de superexcitação com a tecnologia está de volta, mas a história 
>>>> mostra que destino não é inexorável
>>>>
>>>> Tatiana Roque
>>>>
>>>> [RESUMO] Em reflexão sobre as raízes históricas da inteligência 
>>>> artificial, autora retoma a previsão do matemático Alan Turing, que propôs 
>>>> que o debate sobre o significado do pensamento humano seria esquecido no 
>>>> final do século 20 com o fim dos questionamentos sobre a inteligência das 
>>>> máquinas. Hoje, a falta de humildade epistêmica em um período de 
>>>> desenvolvimento acelerado da tecnologia pode causar grandes catástrofes.
>>>>
>>>> ×
>>>>
>>>> Paris inteira correu para ver o flautista. Pessoas de todas as idades 
>>>> tentavam achar um bom ângulo para assistir àquele espetáculo inusitado.
>>>>
>>>> Na grande estreia daquela noite, o músico era um autômato. A máquina havia 
>>>> sido construída pelo mecânico francês Jacques de Vaucanson e fazia 
>>>> movimentos contidos em cima de um pedestal. Mais do que um suporte, 
>>>> escondia-se ali o mecanismo engenhoso que dava vida ao flautista. O 
>>>> público saiu encantado com a precisão da performance, que foi destaque nos 
>>>> jornais daquele janeiro de 1738.
>>>>
>>>> Sempre fui fascinada por brinquedos de corda, feitos de metal, com pintura 
>>>> delicada e colorida. Na minha estante de livros, tenho um carrossel, um 
>>>> pintinho, um elefante, um pião e um humanoide, todos com aquela aura retrô.
>>>>
>>>> Quando chego cansada do trabalho, costumo dar corda no pintinho para vê-lo 
>>>> ciscar compulsivamente em cima da mesa, até o mecanismo se exaurir. Já o 
>>>> carrossel toca Edith Piaf enquanto gira cavalos e demoiselles. Em nenhum 
>>>> momento, esqueço que são engenhos mecânicos. Ao contrário, é isso que têm 
>>>> de encantador.
>>>>
>>>> Até que ponto as máquinas podem imitar seres humanos? Essa pergunta vem de 
>>>> longe. Ninguém achava, no século 18, que o flautista iria superar um 
>>>> músico de carne e osso. Para isso, seria preciso reproduzir a 
>>>> característica humana mais singular: a inteligência.
>>>>
>>>> Ao longo do século 19, foram muitas as tentativas de imitar essa 
>>>> faculdade, especialmente com a invenção das primeiras máquinas de 
>>>> calcular, propostas por Charles Babbage para substituir o trabalho mental. 
>>>> O avanço da computação, durante a Segunda Guerra Mundial, tornou a questão 
>>>> mais urgente ao fim do conflito.
>>>>
>>>> Em 1950, surgiu um teste para verificar se a inteligência dos computadores 
>>>> pode se equiparar à humana. A proposta foi feita pelo matemático Alan 
>>>> Turing, conhecido como um dos pais da computação, no artigo "Máquinas de 
>>>> computação e inteligência". Apesar de celebrado como inventor da 
>>>> "inteligência artificial", ele não usava esses termos.
>>>>
>>>> Sou historiadora da ciência e, nessa profissão, partimos da premissa de 
>>>> que investigar a obra de um cientista exige recuperar as noções como por 
>>>> ele empregadas, sem encaixá-las retrospectivamente nas denominações 
>>>> atuais. Olhar o passado com os olhos do presente é anacronismo, vício a 
>>>> ser evitado na prática da história. De fato, Turing queria saber se as 
>>>> máquinas podem pensar, mas formulou a pergunta em termos peculiares, que 
>>>> podem passar despercebidos aos olhares açodados de hoje.
>>>>
>>>> Antes de investigar se as máquinas podem pensar, seria preciso responder à 
>>>> pergunta: o que caracteriza o pensamento humano? Mas essa questão é 
>>>> difícil demais, e Turing faz um desvio:
>>>>
>>>> "Acredito que a pergunta original, 'as máquinas podem pensar?', é 
>>>> insignificante demais para merecer discussão. No entanto, acredito que, no 
>>>> final do século, o uso das palavras e a opinião geral das pessoas 
>>>> instruídas terão mudado tanto que será possível falar de máquinas pensando 
>>>> sem esperar ser contrariado."
>>>>
>>>> A previsão é espantosa, além de profética: a busca pelo significado do que 
>>>> é pensar será esquecida até o final do século 20 e, só assim, será 
>>>> possível falar de máquinas pensando sem ser contrariado. É exatamente o 
>>>> que está acontecendo hoje. Não parece mais importar o que há de especial 
>>>> na inteligência ou no pensamento ou até onde o ser humano pode levar o 
>>>> exercício dessas faculdades. Basta saber como são percebidas em seu uso 
>>>> mais comum. Chamamos esse fenômeno de demônio de Turing.
>>>>
>>>> A percepção é uma faculdade traiçoeira, contaminada por interesses. E se 
>>>> estivermos enganados a cada vez que nossos sentidos nos fizerem crer que 
>>>> observamos algo real? Esse é um dilema da filosofia desde a caverna de 
>>>> Platão.
>>>>
>>>> A dificuldade se agrava com a pergunta de Descartes: e se estivermos 
>>>> equivocados a cada vez que tivermos uma certeza? Um gênio maligno poderia 
>>>> estar nos enganando, diz o filósofo francês. Mesmo verdades básicas e 
>>>> aparentemente inquestionáveis, como as verdades matemáticas (2 + 3 = 5), 
>>>> poderiam ser falsas e a certeza que experimentamos sobre elas talvez seja 
>>>> obra do demônio.
>>>>
>>>> A hipótese do gênio maligno, o demônio de Descartes, é uma forma de nos 
>>>> convencer sobre a necessidade de um método rigoroso para obter certezas.
>>>>
>>>> Turing não era filósofo. Preocupado com critérios práticos para avaliar a 
>>>> performance dos computadores, propôs substituir a pergunta "as máquinas 
>>>> podem pensar?" por um teste, chamado de jogo da imitação. Uma máquina e 
>>>> uma pessoa humana devem responder a perguntas, posicionados de forma que 
>>>> um júri, encarregado de avaliar as respostas, não consiga ver de onde elas 
>>>> vieram. Se o júri errar, ou seja, se avaliar como humanas as respostas 
>>>> fornecidas pela máquina, ela pode ser dita inteligente.
>>>>
>>>> Vejam a ironia: Turing não estava tentando desvendar os mistérios do 
>>>> pensamento humano, apenas provar que isso não é necessário para dizer se 
>>>> uma máquina se equipara a um ser humano na tarefa de responder a 
>>>> perguntas. Diferente do flautista, que escondia seu maquinário dentro do 
>>>> pedestal, o jogo da imitação requer um ser humano escondido. Rebatizado 
>>>> mais tarde de teste de Turing, o desafio sugere que a máquina pode ser 
>>>> equiparada à inteligência humana se conseguir iludir pessoas de carne e 
>>>> osso.
>>>>
>>>> A ideia de inteligência artificial surgiu um pouco depois, em 1956, quando 
>>>> um professor do Dartmouth College, John McCarthy, convocou pesquisadores 
>>>> de peso das áreas de computação, neurociências e cibernética para uma 
>>>> conferência. Como estratégia para tornar o convite sedutor, incluiu um 
>>>> termo chamativo na proposta: inteligência artificial.
>>>>
>>>> Tratava-se de um nome novo para os estudos sobre autômatos, mas não só. O 
>>>> objetivo era avançar na conjectura de que qualquer característica da 
>>>> inteligência pode ser descrita com tanta precisão que é possível treinar 
>>>> uma máquina para simulá-la. Nessa época, o tipo predominante de 
>>>> inteligência artificial era bem diferente da atual, mais influenciada pela 
>>>> lógica do que pela estatística.
>>>>
>>>> Essa IA clássica costuma ser chamada de Gofai, um acrônimo para "good 
>>>> old-fashioned AI" (digamos, a boa e velha IA). Dito de modo resumido, a IA 
>>>> simbólica aprendia a partir de regras explícitas, ao contrário das 
>>>> técnicas atuais, que se apoiam na enorme quantidade de dados disponíveis 
>>>> na internet.
>>>>
>>>> Naquela época, já se falava em redes neurais, ideia que está na base da IA 
>>>> de hoje. Mas apenas nos anos 1990, com o avanço do poder computacional, 
>>>> ela passou a exibir resultados satisfatórios. As diferenças entre a Gofai 
>>>> e as redes neurais são difíceis de explicar, mas o contraponto ajuda a 
>>>> lembrar que não existe apenas um caminho.
>>>>
>>>> A história da IA é marcada por surtos periódicos de superexcitação 
>>>> intercalados com os chamados invernos da IA, nos quais os limites se 
>>>> tornam aparentes, o entusiasmo se esvai e o financiamento é cortado.
>>>>
>>>> Durante a década de 1960, abordagens simbólicas obtiveram sucesso na 
>>>> simulação de comportamentos inteligentes em jogos, matemática simbólica ou 
>>>> demonstração de teoremas. Depois, o investimento declinou. O ano de 1973 
>>>> foi um marco, com publicações jogando um balde de água fria nos métodos 
>>>> usados até ali e mudando o foco da pesquisa. O entusiasmo retornou, até 
>>>> que as promessas não cumpridas culminaram em outra reação negativa na 
>>>> década de 1980.
>>>>
>>>> Estaríamos retornando à fase de superexcitação? Será que ela vai demorar? 
>>>> Parece que sim, mas o senso histórico ajuda a lembrar que não se trata de 
>>>> um destino inexorável.
>>>>
>>>> Nossa definição de inteligência está mudando com o avanço da IA. É normal 
>>>> que os conceitos mudem de sentido, mas precisamos estar atentos para que 
>>>> essa mudança não acabe diminuindo o potencial da inteligência humana e 
>>>> bloqueando um debate franco sobre os rumos da tecnologia.
>>>>
>>>> Na matemática, existe uma grande diferença entre resolver problemas e 
>>>> formulá-los. Em geral, não se percebe isso, pois o ensino básico é 
>>>> excessivamente focado em resolver problemas, como usar a fórmula de 
>>>> resolução de equações do segundo grau, encontrar a soma dos termos de uma 
>>>> progressão aritmética ou multiplicar matrizes. Um matemático profissional 
>>>> não faz nada disso. Ele propõe novos problemas. Se forem bons, esses 
>>>> problemas podem virar teoremas, motivar boas teses de doutorado ou ser 
>>>> aplicados a outras áreas. Costumo dizer que os problemas são o motor da 
>>>> matemática.
>>>>
>>>> Neste momento, grandes cientistas e empresários comemoram o sucesso de uma 
>>>> ferramenta de IA na Olimpíada Internacional de Matemática. Os entusiastas 
>>>> correm para dizer que estamos diante de uma inteligência artificial 
>>>> comparável à dos humanos, já que a matemática é símbolo de inteligência.
>>>>
>>>> De fato, a IA é uma ótima resolvedora de problemas, mas estamos longe de 
>>>> vê-la inventar problemas consistentes, ofício de todo bom cientista. À 
>>>> frente da empresa ligada ao Google que criou a ferramenta vitoriosa nas 
>>>> olimpíadas, Demis Hassabis reconhece essa diferença entre resolver e 
>>>> inventar problemas. Os grandes avanços da ciência dependem da formulação 
>>>> de boas perguntas, não só das respostas certas.
>>>>
>>>> Luciano Floridi é um filósofo que tem refletido sobre as implicações 
>>>> éticas da IA. Para ele, a inteligência artificial de hoje é uma 
>>>> dissociação entre a resolução bem-sucedida de problemas e o comportamento 
>>>> inteligente. Dissociação é uma palavra forte. Ela sugere que o 
>>>> comportamento inteligente não está sendo mobilizado, em toda a sua 
>>>> amplitude, quando a IA executa as tarefas necessárias para resolver 
>>>> problemas, pois estão ausentes a consciência, a perspicácia, a 
>>>> sensibilidade, os insights, a experiência e a sabedoria.
>>>>
>>>> Mesmo sem nenhuma dessas capacidades humanas, a IA fornece soluções 
>>>> convincentes, mas graças às técnicas avançadas para processar enormes 
>>>> quantidades de dados produzidos pelos seres humanos.
>>>>
>>>> O sucesso da IA depende de uma construção pouco explícita: foi criado um 
>>>> ambiente favorável, no qual as tecnologias inteligentes se sentem em casa. 
>>>> Vivemos agarrados a nossos celulares, os objetos da casa se tornam smart, 
>>>> a TV e o fogão vêm com um assistente de bordo inteligente, os veículos 
>>>> possuem chips e um GPS nos acompanha. Tudo isso deixa rastros em dados e 
>>>> mais dados.
>>>>
>>>> Talvez o mundo esteja se adaptando à IA, e não o contrário, do mesmo modo 
>>>> como nossas mãos adquirem a forma de um celular, nossas relações reais 
>>>> refletem traços de nosso comportamento nas redes sociais e nosso cérebro 
>>>> apodrece com o tempo gasto na internet, como descrito no chamado "brain 
>>>> rot".
>>>>
>>>> O demônio de Turing é o gênio maligno que nos leva a avaliar nossa própria 
>>>> inteligência a partir do que a máquina é capaz de fazer. Esse é um risco 
>>>> invisível nas discussões sobre o futuro e o poder da IA. Uma redefinição 
>>>> vai se firmando, sem que os termos estejam explícitos. Só então "será 
>>>> possível falar de máquinas pensando sem esperar ser contrariado", 
>>>> exatamente como Turing previu.
>>>>
>>>> As ideias vão se adequando aos ares do tempo de tal maneira que nem sequer 
>>>> estranhamos quando um caminhão autônomo é considerado uma façanha da 
>>>> inteligência artificial, mesmo que até há pouco tempo não achássemos que 
>>>> dirigir fosse uma atividade inteligente.
>>>>
>>>> Os avanços dos próximos anos serão velozes e precisaremos de critérios 
>>>> para avaliar se estamos realmente perto de uma inteligência artificial 
>>>> equiparável à dos humanos. Pode ser útil examinar se ela sabe inventar 
>>>> problemas tão bem quanto um bom matemático —e o mesmo vale para a arte e 
>>>> outras áreas criativas, que dependem mais de perguntas consistentes do que 
>>>> de respostas eficazes.
>>>>
>>>> Os debates sobre inteligência artificial são envolvidos por muito hype. 
>>>> Isso atrapalha uma conversa franca sobre suas consequências, desde os 
>>>> impactos no mundo do trabalho até o uso dos recursos naturais. 
>>>> Encantamento e ocultamento são dois lados do mesmo demônio, distrações que 
>>>> terminam por esvaziar nossa agência e desmobilizar a ação política 
>>>> necessária para incidir nos rumos da IA. Não é uma tarefa fácil, mas a 
>>>> história nos lembra que há técnicas diversas e algumas podem ser mais 
>>>> úteis do que outras se fixarmos o bem comum como objetivo.
>>>>
>>>> "Não acredite no hype da IA" é o título de um artigo de Daron Acemoglu, 
>>>> prêmio Nobel de Economia. Ele mostra, com riqueza de dados, que os ganhos 
>>>> de produtividade, por enquanto, são modestos e a "automação pelo prazer de 
>>>> automatizar" amplia as desigualdades sociais. Acemoglu é um dos defensores 
>>>> mais eloquentes da ideia de que devemos direcionar o curso da mudança 
>>>> tecnológica e não aceitar o caminho atual como inevitável.
>>>>
>>>> Húbris é um conceito de origem grega, comumente associado à soberba. Os 
>>>> mitos antigos advertiam para o perigo de se superestimar a contribuição 
>>>> humana diante de grandes conquistas. Quando obtêm sucesso importante em 
>>>> algum feito, como vencer guerras ou inventar ferramentas poderosas, os 
>>>> humanos correm o risco de subestimar o papel da fortuna e achar que tudo é 
>>>> fruto de sua própria genialidade.
>>>>
>>>> Mais uma vez, o demônio está à espreita, só que o excesso de confiança 
>>>> irrita os deuses. A sensação de invulnerabilidade e a falta de humildade 
>>>> epistêmica que a húbris enseja podem despertar a ira dos deuses e 
>>>> ocasionar grandes catástrofes. Precisamos evitá-las, e redirecionar o uso 
>>>> e as prioridades no desenvolvimento da IA é parte dessa missão.
>>>>
>>>> ***
>>>>
>>>> Este texto é uma versão adaptada da introdução de "A Máquina e Nós: 
>>>> Promessas e Armadilhas da Inteligência Artificial", que será publicado 
>>>> pela Todavia em junho.
>>>>
>>>>
>>>>
>>>>
>>>>
>>>>
>>>>
>>>> Em quinta-feira, 21 de maio de 2026, Joao Marcos <[email protected]> 
>>>> escreveu:
>>>>>
>>>>> Márcio Palmares escreveu:
>>>>> >
>>>>> > Seres humanos exteriorizam sua imaginação criando ferramentas, 
>>>>> > máquinas, tecnologia.
>>>>> >
>>>>> > Agora, exteriorizamos nosso pensamento matemático, ou certas porções 
>>>>> > dele. De um machado de pedra para uma máquina capaz de fazer 
>>>>> > matemática... Podemos delegar à máquina a resolução de alguns 
>>>>> > problemas. E ela pode se sair melhor do que nós em certos casos (do 
>>>>> > mesmo modo que uma escavadeira se sai melhor do que um indivíduo com 
>>>>> > uma pá). Mas não se trata de força bruta. Este caso mostra 
>>>>> > criatividade, engenhosidade: exteriorização de faculdades humanas.
>>>>> >
>>>>> > Para um materialista no sentido filosófico, isso tudo é surpreendente 
>>>>> > em um único sentido: somos matéria estelar que adquiriu vida e 
>>>>> > consciência (Carl Sagan). Somos máquinas biológicas. Se fosse 
>>>>> > impossível construir máquinas capazes de imitar certas faculdades 
>>>>> > humanas (inteligência matemática), então nós não existiríamos.
>>>>>
>>>>> No que diz respeito ao advento das LLMs e a nossa reflexão acerca das
>>>>> suas capacidades, lembrei-me deste artigo:
>>>>>
>>>>> Cognitivism prevents us from understanding artificial intelligence
>>>>> https://link.springer.com/article/10.1007/s00146-025-02583-5
>>>>>
>>>>> Será que é mesmo o caso de reavivarmos a chama do comportamentalismo,
>>>>> em detrimento do cognitivismo?
>>>>>
>>>>>
>>>>> Gisele Dalva escreveu:
>>>>> > Nem tudo o que reluz é ouro, já diz a cantiga de capoeira, e dar uns 
>>>>> > passos atrás antes de preconizar grandes e radicais mudanças em alguma 
>>>>> > prática científica pode ser uma boa atitude.
>>>>>
>>>>> Eu não hesitaria em afirmar que as mudanças trazidas pelas LLMs à
>>>>> prática matemática são, com efeito, grandes e radicais.
>>>>>
>>>>> Querendo ou não, nunca mais voltaremos a fazer buscas da forma como
>>>>> fazíamos outrora.  E isso me faz recordar o clássico artigo
>>>>> "Intelligent machinery", escrito pelo patrono da "Filosofia da
>>>>> Inteligência", Alan Turing, no qual ele discute, entre outras tantas
>>>>> questões, "the idea that intellectual activity consists mainly of
>>>>> various kinds of search".  Pois a coisa está funcionando, e está, sim,
>>>>> desmistificando um bom bocado a ideia romantizada acerca das
>>>>> capacidades que nos tornariam singularmente humanos --- capacidades
>>>>> estas, aliás, que muitos humanos parecem usar com bastante parcimônia.
>>>>>
>>>>> []s, João Marcos
>>>>>
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 Walter Carnielli
CLE and Department of Philosophy
University of Campinas –UNICAMP, Brazil

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