Boa tarde, pessoal!

Uma vantagem da discussão ou interlocução com as máquinas, e que está
empurrando os estudantes em massa na direção dos LLMs é que uma máquina
nunca perde a paciência com o usuário, nunca desmerece suas dúvidas, nunca
se coloca numa posição superior... É um exercício bacana para nós tentarmos
discutir mais ou menos num padrão assim, de modo que o debate seja
instrutivo para todos... Se não fizermos esse esforço, a interlocução entre
humanos vai continuar diminuindo.

Dito isto, eu gosto de debates polêmicos, é onde me sinto à vontade. E
nunca me irrito com uma posição oposta à minha, porque no ambiente de luta
política e ideológica onde cresci as discussões sempre foram muito mais
pesadas e geralmente com consequências sérias no dia seguinte...

Bem. A matemática sempre foi um esporte de elite (metaforicamente falando).
São poucos os estudantes que conseguem cursar um bacharelado, depois
mestrado e doutorado em matemática. Um número ainda menor chega aos postos
nas universidades, como professores, ou são empregados em institutos de
pesquisa ou empresas. Tenho um amigo que fez doutorado, trabalhou em duas
temporadas como professor substituto na UFPR, é um sujeito excepcional, mas
depois não conseguiu mais emprego. Passou bastante tempo desempregado e eu
já o vi vendendo móveis e o carro no Facebook.

Convenhamos: matemática profissional é para poucos.

De modo que quando chegamos ao topo, nas universidades ou institutos como o
IMPA, é como se tivéssemos vencido uma corrida dificílima pela
sobrevivência, por uma "posição". E é natural querermos preservar esse
domínio conquistado.

Surge então uma máquina controlada pelo capital privado, fora do circuito
estado/universidade pública, capaz de, aparentemente, fazer matemática de
alto nível e isso parece deslocar o financiamento da pesquisa.

E então descobrimos que o capitalismo existe. Que nossas sólidas posições
acadêmicas podem se desmanchar no ar se perdermos o financiamento de nossos
projetos de pesquisa, de nossos programas de pós-graduação.

Acho que daí vem a nossa reação conservadora... Estamos meio ameaçados de
extinção... Somos como artesãos que mantiveram o monopólio de uma prática
em nossas corporações, exigindo rituais dificílimos de passagem para a
concessão de títulos, vendo a grande indústria mecanizar nossa atividade e
retirar nossa exclusividade.

Agora, um porém: Bolsonaro ou Milei são mais ameaçadores para a pesquisa
básica e para as universidades públicas do que o redirecionamento do fluxo
de capital, que está sendo absorvido pelas grandes corporações de IA.

Outra: será que realmente conseguiríamos separar o financiamento da
pesquisa dos interesses do capital? Me parece que toda a história do
nascimento da ciência moderna entraria como um capítulo da transformação do
capital comercial em industrial. A exploração das colônias mandava no fluxo
de dinheiro, que mandava nas navegações, que mandava na pesquisa
científica. É difícil ver a ciência sendo produzida independentemente dos
interesses imediatos do capitalismo.

Agora, o problema filosófico: uma máquina realmente conseguiu produzir
matemática de ponta, inédita, relevante?

Se sim, uma importante transformação ocorreu, e ela nos obriga a
reavaliarmos o que entendemos por inteligência matemática, criatividade
matemática.

Ao meu ver, o Tim Gowers tem razão. Será que, agora, ainda somos capazes de
dizer que há algo no pensamento matemático humano que não possa ser feito
por máquinas? É difícil sustentar essa tese sem metafísica, sem uma posição
que, coerentemente defendida nos levaria a Tomás de Aquino. E é difícil
porque uma montanha de evidência empírica está se acumulando contra ela.

E para quem quiser começar agora a lutar contra o capitalismo, nós que
estamos nesse ofício há muito tempo só temos a dizer: sejam bem-vindos!
Antes tarde do que nunca.

Abraços!

M.









Em sábado, 23 de maio de 2026, Gisele Dalva <[email protected]>
escreveu:

> Olá,
>
> Não acho que essa troca de mensagens tenha nada de polêmico: estamos, em
> modo *free ride*, dando opiniões acerca de coisas sobre as quais sabemos,
> uns mais outros menos. Naturalmente, portanto, a "conversa" tende a ser
> confusa. O que custo a admitir é que a frase que eu destaquei (e o fato de
> eu a ter destacado) tenha sido lida como uma espécie de ataque contra um
> espantalho; tampouco me soa plausível a analogia com a Coca-Cola vendendo
> água para contestar a plausibilidade da frase. Do fato de que empresas
> visam lucro ao anunciar seus produtos não se segue que isso seja
> irrelevante na discussão sobre o modo como o produto é produzido, como suas
> virtudes anunciadas e quais os impactos disso para as práticas que incluem
> o uso de tais produtos.
>
> Mas hoje estou cansada para temas de introdução à lógica.
>
> *À tout,*
> G.
>
> On Sat, May 23, 2026 at 2:57 PM Gisele Dalva <[email protected]>
> wrote:
>
>> Saudações, pessoal,
>>
>> João Marcos, eu não disse que não vejo potencial para mudancas radicais e
>> profundas; disse que me parece filosoficamente plausível, antes de
>> defendê-las (como definitivas, inevitáveis, positivas, o que for) ou
>> atacá-las (como imposições do grande capital, como evitáveis, negativas,
>> igualmente o que for), buscar precisão na descrição dos fenômenos em
>> questão e no uso dos conceitos mobilizados nessas descrições. Por isso
>> falei que ser matemático não garante "filosoficidade" ao que se diz sobre
>> sua prática como matemático (ou lógico, *for what matters*); cada
>> manifestação de um matemático sobre esses desenvolvimentos com LLMs contem
>> conceitos como *prova*, *evidência*, *descoberta*, *intuição*, etc..
>> cujo sentido não é o mesmo, o que faz com que a "conversa" fique confusa. E
>> é para isso, creio, que estamos, as filósofas, na conversa: para mapear
>> esses usos dos conceitos e tentar fazer distinções que nos ajudem a
>> compreender melhor os fenômenos (e nossas narrativas sobre eles). Eu gosto
>> de fazer perguntas meio tolas, tipo: quem é o "nós" em "nunca mais
>> voltaremos a fazer busca..."? Quais as implicações de uma eventual
>> diferenciação mais finas do "nós" em questão (em termos de pedagogia da
>> matemática, por exemplo)?
>>
>> Considero fascinante o tema das implicações antropológicas do avanço das
>> "IAs" sobre todas as dimensões de nossas vidas, por certo, mas meu ponto
>> aqui é muito mais prosaico: do que estamos falando mesmo?
>>
>> Um abraço,
>> G.
>>
>> On Thu, May 21, 2026 at 10:52 PM Joao Marcos <[email protected]> wrote:
>>
>>> Márcio Palmares escreveu:
>>> >
>>> > Seres humanos exteriorizam sua imaginação criando ferramentas,
>>> máquinas, tecnologia.
>>> >
>>> > Agora, exteriorizamos nosso pensamento matemático, ou certas porções
>>> dele. De um machado de pedra para uma máquina capaz de fazer matemática...
>>> Podemos delegar à máquina a resolução de alguns problemas. E ela pode se
>>> sair melhor do que nós em certos casos (do mesmo modo que uma escavadeira
>>> se sai melhor do que um indivíduo com uma pá). Mas não se trata de força
>>> bruta. Este caso mostra criatividade, engenhosidade: exteriorização de
>>> faculdades humanas.
>>> >
>>> > Para um materialista no sentido filosófico, isso tudo é surpreendente
>>> em um único sentido: somos matéria estelar que adquiriu vida e consciência
>>> (Carl Sagan). Somos máquinas biológicas. Se fosse impossível construir
>>> máquinas capazes de imitar certas faculdades humanas (inteligência
>>> matemática), então nós não existiríamos.
>>>
>>> No que diz respeito ao advento das LLMs e a nossa reflexão acerca das
>>> suas capacidades, lembrei-me deste artigo:
>>>
>>> Cognitivism prevents us from understanding artificial intelligence
>>> https://link.springer.com/article/10.1007/s00146-025-02583-5
>>>
>>> Será que é mesmo o caso de reavivarmos a chama do comportamentalismo,
>>> em detrimento do cognitivismo?
>>>
>>>
>>> Gisele Dalva escreveu:
>>> > Nem tudo o que reluz é ouro, já diz a cantiga de capoeira, e dar uns
>>> passos atrás antes de preconizar grandes e radicais mudanças em alguma
>>> prática científica pode ser uma boa atitude.
>>>
>>> Eu não hesitaria em afirmar que as mudanças trazidas pelas LLMs à
>>> prática matemática são, com efeito, grandes e radicais.
>>>
>>> Querendo ou não, nunca mais voltaremos a fazer buscas da forma como
>>> fazíamos outrora.  E isso me faz recordar o clássico artigo
>>> "Intelligent machinery", escrito pelo patrono da "Filosofia da
>>> Inteligência", Alan Turing, no qual ele discute, entre outras tantas
>>> questões, "the idea that intellectual activity consists mainly of
>>> various kinds of search".  Pois a coisa está funcionando, e está, sim,
>>> desmistificando um bom bocado a ideia romantizada acerca das
>>> capacidades que nos tornariam singularmente humanos --- capacidades
>>> estas, aliás, que muitos humanos parecem usar com bastante parcimônia.
>>>
>>> []s, João Marcos
>>>
>>> --
>>> LOGICA-L
>>> Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de
>>> Lógica <[email protected]>
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