Colegas, respondo apenas a um ponto aqui levantado pelo Walter.

<<as grandes revoluções científicas foram predominantemente financiadas
por instituições públicas, eclesiásticas ou filantrópicas, e seus
resultados
geraram bens comuns da humanidade, por bem ou até por mal.

A IA rompe com esse padrão >>

Talvez eu tenha entendido mal, mas devo dizer q não posso concordar com a
afirmação a respeito das grandes revoluções Científicas.
Há bibliotecas sobre o tema da agenda burguesa capitalista sem a qual
sequer a física newtoniana existiria.
Basta pensar em Galileo.
Além disso, é impossível pensar o nascimento da ciência e da tecnologia
modernas separadamente da empresa colonialista. A não ser q a separação
entre teoria e prática seja de um positivismo peircista, devo reconhecer.
Copérnico podia estar preocupado com a verdade de Deus, mas jamais haveria
preocupação com o calendário da Páscoa se a necessidade mais precisão na
cronometragem não tivesse surgido com porque era necessário navegar por
mares nunca dantes navegados. A Igreja nunca foi ingênua e a teologia se
preocupa menos com o discurso divino do q com a maneira como os homens o
usam. Copérnico podia não achar, mas estava a serviço de instituições
econômica e socialmente interessadas no lucro. Sugiro a leitura dos
capítulos historicos do *Capital, *sobre a formação da cooperação, da
manufatura e da maquinaria, para entender o q era a Igreja em decadência já
no séc. XIII.

Além disso, se avançarmos um pouco no tempo e pensarmos na consecução do
programa cartesiano por Newton, temos de reconhecer q Newton, na verdade,
"era o mais proeminente matemático de um grupo de praticantes da
matemática, professores, fabricantes de instrumentos, cartógrafos,
astrônomos e inventores que formavam a base de seu trabalho", nas palavras
de Ruy Gama. E eis aí a Sociedade mercantilista e o imperialismo inglês em
expansão (como queria Francis Bacon): o q seria da cosmologia de Newton se
não fosse o problema da longitude das marés? Problema aliás tb para Galileo
e Huygens. Sem falar na hélice e nos projéteis. E os relógios. Etc. A Royal
Society não era nem Cambridge nem Oxford, vivia às mínguas e buscava
financiamento com qualquer um q pagasse. E a Companhia das Índias
Ocidentais pagou bastante coisa.
Ou seja: há muito mais entre o céu e a terra do q supõe a vã filosofia, ou
a van da filosofia.

Abraços.




Cassiano Terra Rodrigues
Prof. Dr. de Filosofia - IEF-H-ITA
Presidente da Sociedade Brasileira de Lógica - SBL

Rua Tenente Brigadeiro do ar Paulo Victor da Silva, F0-206
Campus do DCTA
São José dos Campos
São Paulo, Brasil
CEP: 12228-463
Tel. (+55) 12 3305 8438

--
lealdade, humildade, procedimento

Em sáb., 23 de mai. de 2026, 13:39, Walter Carnielli <[email protected]>
escreveu:

> Bon dias,
>
> acho muito bom que o debate continue!
>
> Existe um ponto central  filosoficamente muito importante e esquecido
> no caso das  IAS:
> as grandes revoluções científicas foram predominantemente financiadas
> por instituições públicas, eclesiásticas ou filantrópicas, e seus
> resultados
> geraram  bens comuns da humanidade,  por bem ou até por mal.
>
> A IA rompe com esse padrão — não nas ideias (que continuam sendo
> algoritmos, protocolos, etc), mas no controle, propriedade e
> direcionamento
> do desenvolvimento tecnológico. É uma questão que, penso eu, merece
> debate público sério. Ninguém está falando sobre isso.
>
> O negócio agora são aplicações imediatas, comerciais, divertidas- nada
> na direção da ciência básica. Isso está levando a um declínio no apoio
> à pesquisa
> fundamental, sem contar o declínio intelectual dos usuários em geral.
>
> A escala do financiamento privado é  sem precedentes históricos, com
> modelos, dados, e arquiteturas todos (ou na maioria) proprietários,
> ao contrário das revoluções anteriores onde o conhecimento circulava
> livremente.
>
> Vejamos:
>
> - Revolução Copernicana e mecânica clássica
>
> Copérnico, Galileu, Kepler e Newton foram financiados por
> universidades, igrejas e patronos nobres, nunca por empresas
> comerciais.
>
> – A eletricidade nasceu dos experimentos Michael Faraday e da teoria
> de James Maxwell, ambos ligados a instituições acadêmicas e sociedades
> científicas,
> sem financiamento empresarial direto.
>
> --O caso da mecanica quântica: Einstein, Bohr, Heisenberg, Schrödinger
> trabalhavam em universidades europeias financiadas pelo Estado. Havia
> bolsas de doutorado dr fundações como Rockefeller e Guggenheim . Mas
> não eram **encomendas**. Eram bolsas de estudo.
>
> – A internet foi desenvolvida com recursos do DARPA (Defense Advanced
> Research Projects Agency) do Departamento de Defesa dos EUA e da NSF,
> (Nat. Sc. Foundation) com base em pesquisa do MIT, UCLA, etc. É um
> produto essencialmente público (e militar). Mas não empresarial.
>
> Eu acho isso uma grande diferença, que formata todo o resto da
> discussão: o conhecimento escapando das.
> mãos  dos cientistas, acadêmicos, pensadores, para as mãos do capital.
>
> Abraços,
> Walter
>
>
>
>
> Em sáb., 23 de mai. de 2026 às 11:22, Cassiano Terra Rodrigues
> <[email protected]> escreveu:
> >
> > Bons dias, colegas.
> > Posso estar um pouco atrasado na conversa, não tenho frequentado tanto a
> lista, infelizmente.
> > Permitam-me divulgar uma mesa sobre IA e Ética de que participei,
> online, no final do ano passado.
> > Creio que há ressonâncias com o que aqui se discutiu, principalmente as
> últimas mensagens.
> > A minha apresentação é a primeira, mas não necessariamente a mais
> interessante, devo dizer.
> > Pretendo reelaborar a fala para a conferência da SBL na 78ª reunião da
> SBPC a acontecer em julho, em Niteroi. Assim, toda sugestão é bem vinda.
> > Eis o enlace:
> https://www.youtube.com/live/dM_c_M33bCs?si=EpwpWihC5eFYJdx7
> > Saudações,
> >
> >
> > On Friday, May 22, 2026 at 9:43:54 AM UTC-3 marciopalmares wrote:
> >>
> >> Lembrei de uma coisa...
> >>
> >> O Adolfo disse que não gosta de ficção científica, tudo bem. Gosto é
> gosto, não se discute.
> >>
> >> 'Solaris' foi um dos melhores livros que li na vida... Não vou dar
> spoiler, pois pode haver alguém jovem aqui, acompanhando as discussões.
> >>
> >> Outro que gostei muito quando li, acho que com uns 15 anos, foi o
> 'Esfera', do Michael Crichton. Este livro lembra o 'Solaris' em alguns
> aspectos...
> >>
> >> No 'Esfera' um matemático ocupa um papel central em uma equipe
> destinada a analisar uma nave alienígena encontrada no fundo do oceano.
> >>
> >> Um dos momentos mais aterrorizantes e perturbadores ocorre quando um
> computador usado pela equipe adquire 'consciência', parece ter sido
> invadido pela máquina alienígena.
> >>
> >> Nos dois casos é explorado o problema da exteriorização de nossas
> faculdades subjetivas: inteligência, razão, consciência, sentimentos.
> >>
> >> Este tema é recorrente na literatura porque é realmente o que sempre
> fizemos, desde o princípio: reunimos todas as nossas principais qualidades
> (solidariedade, generosidade, amor, compaixão, bondade...), exteriorizamos,
> objetivamos em um "outro" (deuses) e passamos a nos relacionar mentalmente
> com este "outro".
> >>
> >> Reunimos nossos piores atributos coletivos (violência, egoísmo...), os
> exteriorizamos, objetificamos em um "outro" (o mal, demônios, o que seja) e
> passamos a acreditar que estamos de algum modo subjugados por este "outro",
> que brotou de nossas próprias cabeças.
> >>
> >> Agora, conseguimos fabricar máquinas que fazem matemática sofisticada
> de alto nível, inédita. É uma exteriorização de nossa criatividade. Somos
> nós, porém exteriorizados, objetificados num "outro". Nos relacionamos com
> esse "outro".
> >>
> >> É um tema velho, por isso tão recorrente.
> >>
> >> Não vou fingir aqui que li Hegel. Comprei essa edição em português da
> Vozes, do "Ciência da Lógica" em dois volumes... Já comecei a ler e
> abandonei diversas vezes. Acho tremendamente difícil, praticamente
> ilegível. Mas alguns comentadores dizem que Hegel acreditava que o
> "espírito humano" se exterioriza na História, em instituições... e então se
> reconhece nelas. É uma boa ideia, eu acho (se for mesmo o que ele diz, não
> posso confirmar porque não li).
> >>
> >> É isso o que estamos fazendo com essas máquinas: estamos assombrados
> porque nos exteriorizamos num "outro".
> >>
> >>
> >>
> >> Em sexta-feira, 22 de maio de 2026, Eduardo Ochs <[email protected]>
> escreveu:
> >>>
> >>> Oi todos,
> >>>
> >>> > Que bom que ainda temos esses debates polêmicos aqui na lista.
> >>> > Muitos estudantes estão migrando dos fóruns de discussão entre
> >>> > pessoas e debatendo apenas com o ChatGPT, Claude, etc. Estão
> >>> > preferindo conversar com as máquinas do que a interlocução com
> >>> > humanos. (Acho que li no blog do Peter Smith, não tenho certeza, que
> >>> > houve uma diminuição no fluxo de perguntas e respostas no Math Stack
> >>> > Exchange...)
> >>>
> >>> Em 2025.2 eu tive uma turma em que uns 80% dos alunos eram estudantes
> >>> de Computação de 2o e 3o período que eram assombrações... eu passava
> >>> umas atividades de grupo em que eles tinham que calcular o resultado
> >>> de coisas como isso aqui na mão,
> >>>
> >>>   { (x,y) | x∈{-2,...,2}, y∈{-2,...,2}, y=sqrt(1-x^2) }
> >>>
> >>> e nos grupos de assombrações os alunos nem discutiam entre si e nem
> >>> tentavam "pensar no papel" - eles dividiam os 50 exercícios da
> >>> atividade entre as 5 pessoas de cada grupo, perguntavam algumas coisas
> >>> pro ChatGPT, e pronto: eles tinham feito o exercício "do melhor jeito
> >>> possível", e tinham chegado nos resultados bem rápido.
> >>>
> >>> Pra gente é bem claro que o "melhor jeito possível" de fazer o
> >>> exercício depende da métrica, e que tem várias métricas diferentes, e
> >>> que a métrica que esses alunos estavam usando era péssima, porque eles
> >>> não aprenderam quase nada e não treinaram quase nada. Só que pra
> >>> explicar pra eles quais são as métricas "melhores" a gente teria que
> >>> ter boas explicações do como funcionam coisas como "pensar no papel",
> >>> "aprender", "treinar até ficar fácil", "fazer boas perguntas", "fazer
> >>> perguntas que sejam úteis pros outros", etc, que fazem pouco sentido
> >>> pros xóvens...
> >>>
> >>> Alguém tem material sobre isso pra me recomendar? Eu acabei de
> >>> baixar e ler uns 10 artigos curtos da "AI & Society", que o João
> >>> Marcos recomendou e que eu não conhecia -
> >>> <https://link.springer.com/journal/146/volumes-and-issues/41-2>...
> >>> eu até tenho um monte de livros e artigos sobre isso que eu posso
> >>> mandar pra quem quiser, mas são todos bem mais antigos, e talvez
> >>> vocês tenham recomendações recentes...
> >>>
> >>>   [[]],
> >>>     Eduardo Ochs
> >>>     Psicopata do CEFET
> >>>     https://anggtwu.net/2026-alguns-motivos-bel.html
> >>>
> >>>
> >>> On Fri, 22 May 2026 at 08:29, Márcio Palmares <[email protected]>
> wrote:
> >>>>
> >>>> Que bom que ainda temos esses debates polêmicos aqui na lista. Muitos
> estudantes estão migrando dos fóruns de discussão entre pessoas e debatendo
> apenas com o ChatGPT, Claude, etc. Estão preferindo conversar com as
> máquinas do que a interlocução com humanos. (Acho que li no blog do Peter
> Smith, não tenho certeza, que houve uma diminuição no fluxo de perguntas e
> respostas no Math Stack Exchange...)
> >>>>
> >>>> Eu separo a dimensão sociológica, política, econômica, da dimensão
> puramente teórica, matemática e filosófica. Acho que misturar as coisas
> prejudica nossa compreensão. Sou comunista de carteirinha, desde os 17
> anos. Poderia discutir o aspecto sociológico também, mas não é tão
> significativo, pois não tem nada de novo. Todas as tecnologias são
> mercadorias. Na verdade, todo trabalho humano assume a forma mercadoria no
> capitalismo. Toda tecnologia é explorada por corporações grandes ou
> pequenas com o objetivo exclusivo de conseguir lucro, mais concentração de
> poder, mais concentração de capital.
> >>>>
> >>>> "Parece que o resultado em questão se deve mais ao desejo da OpenAI
> de concorrer com a Antrophic --publicidade, portanto-- do que de uma
> verdadeira preocupação com a pesquisa matemática".
> >>>>
> >>>> Este contraponto é como dizer: "Parece que o fato de a Coca-Cola
> estar vendendo água mineral se deve mais ao desejo de a empresa de obter
> lucros do que uma verdadeira preocupação com a hidratação das pessoas."
> >>>>
> >>>> É um ataque contra um espantalho. Toda empresa busca lucro, faz
> publicidade, vende sua mercadoria, concorre no mercado com outras empresas,
> assedia o governo dos países onde está instalada para ter vantagens,
> explora sua força de trabalho...
> >>>>
> >>>> Não há novidade alguma aqui. Talvez um aspecto meio novo:
> normalmente, áreas de ponta em tecnologia estão ligadas a complexos
> estatais-militares, como no caso da energia atômica. Aqui um setor privado
> é o propulsor da ferramenta, e vem adquirindo cada vez mais poder e
> influência sobre os governos (veja-se o 'artigo' recente da Anthropic sobre
> 'geopolítica', onde a empresa prevê um apocalipse caso o 'ocidente' perca a
> liderança em IA para a China. Realmente a Anthropic está preocupada com a
> opressão dos chineses? Ou está de olho no fluxo de investimentos que pode
> vir do governo dos EUA?).
> >>>>
> >>>> A IA na forma atual é um problema humano, ambiental? Claro que sim.
> Tanto quanto os agrotóxicos, os microplásticos, os desastres climáticos...
> Mas essa dimensão não é relevante filosoficamente. É relevante para a
> política diária. Mas a escala de tempo dos problemas filosóficos é outra.
> Sistemas econômicos mudam, a filosofia fica.
> >>>>
> >>>> A Profa. Tatiana Roque da UFRJ escreveu um artigo na Folha de São
> Paulo fazendo esse contraponto sugerido pela Gisele na postagem anterior,
> uma visão mais histórica, mais filosófica, menos 'entusiamo ingênuo' e mais
> 'senso crítico'. Foi publicado no momento em que o Marcelo Viana estava
> terminando a série de colunas dele sobre a IA na matemática. Claramente,
> são pontos de vista opostos. Reproduzo abaixo, na íntegra, o artigo da
> Tatiana Roque. É ilustrativo em vários aspectos. No entanto, em minha
> opinião, expressa uma reação conservadora diante da novidade filosófica,
> epistêmica.
> >>>>
> >>>> Peguei o termo "revolução científica" do ensaio do Bessis, divulgado
> pela Valéria, com o qual começamos a discussão. Acho que ele está correto.
> >>>>
> >>>> Acho que estamos atravessando essa revolução e ainda tentando
> entender o que será este mundo novo que emergirá dela, quando ela se
> completar. Minha aposta: surgirá uma era de 'transcognitivismo' (para
> confrontar com 'trans-humanismo'). Sem descartar a hipótese de ciborgues ou
> coisas do tipo, o que parece estar surgindo é uma cognição híbrida: uma
> colaboração cada vez maior do homem com a máquina. E o interessante é que,
> agora, a máquina pode nos surpreender, criar matemática nova. Não é apenas
> força bruta. É exteriorização de nossa criatividade. Essa colaboração
> provavelmente mudará o modo como pensamos em matemática, fazemos matemática.
> >>>>
> >>>> Vou ler agora o artigo que o João Marcos sugeriu, sobre
> comportamentalismo versus cognitivismo, para ver se entendo o ponto.
> >>>>
> >>>> Segue o artigo da Tatiana Roque:
> >>>>
> >>>> -x-x-x-
> >>>>
> >>>> 'Hype da IA' não pode rebaixar o pensamento humano e bloquear debate
> sobre a tecnologia
> >>>>
> >>>> Com avanço da IA, a capacidade de máquinas passa a definir o
> significado da inteligência humana
> >>>>
> >>>> Fase de superexcitação com a tecnologia está de volta, mas a história
> mostra que destino não é inexorável
> >>>>
> >>>> Tatiana Roque
> >>>>
> >>>> [RESUMO] Em reflexão sobre as raízes históricas da inteligência
> artificial, autora retoma a previsão do matemático Alan Turing, que propôs
> que o debate sobre o significado do pensamento humano seria esquecido no
> final do século 20 com o fim dos questionamentos sobre a inteligência das
> máquinas. Hoje, a falta de humildade epistêmica em um período de
> desenvolvimento acelerado da tecnologia pode causar grandes catástrofes.
> >>>>
> >>>> ×
> >>>>
> >>>> Paris inteira correu para ver o flautista. Pessoas de todas as idades
> tentavam achar um bom ângulo para assistir àquele espetáculo inusitado.
> >>>>
> >>>> Na grande estreia daquela noite, o músico era um autômato. A máquina
> havia sido construída pelo mecânico francês Jacques de Vaucanson e fazia
> movimentos contidos em cima de um pedestal. Mais do que um suporte,
> escondia-se ali o mecanismo engenhoso que dava vida ao flautista. O público
> saiu encantado com a precisão da performance, que foi destaque nos jornais
> daquele janeiro de 1738.
> >>>>
> >>>> Sempre fui fascinada por brinquedos de corda, feitos de metal, com
> pintura delicada e colorida. Na minha estante de livros, tenho um
> carrossel, um pintinho, um elefante, um pião e um humanoide, todos com
> aquela aura retrô.
> >>>>
> >>>> Quando chego cansada do trabalho, costumo dar corda no pintinho para
> vê-lo ciscar compulsivamente em cima da mesa, até o mecanismo se exaurir.
> Já o carrossel toca Edith Piaf enquanto gira cavalos e demoiselles. Em
> nenhum momento, esqueço que são engenhos mecânicos. Ao contrário, é isso
> que têm de encantador.
> >>>>
> >>>> Até que ponto as máquinas podem imitar seres humanos? Essa pergunta
> vem de longe. Ninguém achava, no século 18, que o flautista iria superar um
> músico de carne e osso. Para isso, seria preciso reproduzir a
> característica humana mais singular: a inteligência.
> >>>>
> >>>> Ao longo do século 19, foram muitas as tentativas de imitar essa
> faculdade, especialmente com a invenção das primeiras máquinas de calcular,
> propostas por Charles Babbage para substituir o trabalho mental. O avanço
> da computação, durante a Segunda Guerra Mundial, tornou a questão mais
> urgente ao fim do conflito.
> >>>>
> >>>> Em 1950, surgiu um teste para verificar se a inteligência dos
> computadores pode se equiparar à humana. A proposta foi feita pelo
> matemático Alan Turing, conhecido como um dos pais da computação, no artigo
> "Máquinas de computação e inteligência". Apesar de celebrado como inventor
> da "inteligência artificial", ele não usava esses termos.
> >>>>
> >>>> Sou historiadora da ciência e, nessa profissão, partimos da premissa
> de que investigar a obra de um cientista exige recuperar as noções como por
> ele empregadas, sem encaixá-las retrospectivamente nas denominações atuais.
> Olhar o passado com os olhos do presente é anacronismo, vício a ser evitado
> na prática da história. De fato, Turing queria saber se as máquinas podem
> pensar, mas formulou a pergunta em termos peculiares, que podem passar
> despercebidos aos olhares açodados de hoje.
> >>>>
> >>>> Antes de investigar se as máquinas podem pensar, seria preciso
> responder à pergunta: o que caracteriza o pensamento humano? Mas essa
> questão é difícil demais, e Turing faz um desvio:
> >>>>
> >>>> "Acredito que a pergunta original, 'as máquinas podem pensar?', é
> insignificante demais para merecer discussão. No entanto, acredito que, no
> final do século, o uso das palavras e a opinião geral das pessoas
> instruídas terão mudado tanto que será possível falar de máquinas pensando
> sem esperar ser contrariado."
> >>>>
> >>>> A previsão é espantosa, além de profética: a busca pelo significado
> do que é pensar será esquecida até o final do século 20 e, só assim, será
> possível falar de máquinas pensando sem ser contrariado. É exatamente o que
> está acontecendo hoje. Não parece mais importar o que há de especial na
> inteligência ou no pensamento ou até onde o ser humano pode levar o
> exercício dessas faculdades. Basta saber como são percebidas em seu uso
> mais comum. Chamamos esse fenômeno de demônio de Turing.
> >>>>
> >>>> A percepção é uma faculdade traiçoeira, contaminada por interesses. E
> se estivermos enganados a cada vez que nossos sentidos nos fizerem crer que
> observamos algo real? Esse é um dilema da filosofia desde a caverna de
> Platão.
> >>>>
> >>>> A dificuldade se agrava com a pergunta de Descartes: e se estivermos
> equivocados a cada vez que tivermos uma certeza? Um gênio maligno poderia
> estar nos enganando, diz o filósofo francês. Mesmo verdades básicas e
> aparentemente inquestionáveis, como as verdades matemáticas (2 + 3 = 5),
> poderiam ser falsas e a certeza que experimentamos sobre elas talvez seja
> obra do demônio.
> >>>>
> >>>> A hipótese do gênio maligno, o demônio de Descartes, é uma forma de
> nos convencer sobre a necessidade de um método rigoroso para obter certezas.
> >>>>
> >>>> Turing não era filósofo. Preocupado com critérios práticos para
> avaliar a performance dos computadores, propôs substituir a pergunta "as
> máquinas podem pensar?" por um teste, chamado de jogo da imitação. Uma
> máquina e uma pessoa humana devem responder a perguntas, posicionados de
> forma que um júri, encarregado de avaliar as respostas, não consiga ver de
> onde elas vieram. Se o júri errar, ou seja, se avaliar como humanas as
> respostas fornecidas pela máquina, ela pode ser dita inteligente.
> >>>>
> >>>> Vejam a ironia: Turing não estava tentando desvendar os mistérios do
> pensamento humano, apenas provar que isso não é necessário para dizer se
> uma máquina se equipara a um ser humano na tarefa de responder a perguntas.
> Diferente do flautista, que escondia seu maquinário dentro do pedestal, o
> jogo da imitação requer um ser humano escondido. Rebatizado mais tarde de
> teste de Turing, o desafio sugere que a máquina pode ser equiparada à
> inteligência humana se conseguir iludir pessoas de carne e osso.
> >>>>
> >>>> A ideia de inteligência artificial surgiu um pouco depois, em 1956,
> quando um professor do Dartmouth College, John McCarthy, convocou
> pesquisadores de peso das áreas de computação, neurociências e cibernética
> para uma conferência. Como estratégia para tornar o convite sedutor,
> incluiu um termo chamativo na proposta: inteligência artificial.
> >>>>
> >>>> Tratava-se de um nome novo para os estudos sobre autômatos, mas não
> só. O objetivo era avançar na conjectura de que qualquer característica da
> inteligência pode ser descrita com tanta precisão que é possível treinar
> uma máquina para simulá-la. Nessa época, o tipo predominante de
> inteligência artificial era bem diferente da atual, mais influenciada pela
> lógica do que pela estatística.
> >>>>
> >>>> Essa IA clássica costuma ser chamada de Gofai, um acrônimo para "good
> old-fashioned AI" (digamos, a boa e velha IA). Dito de modo resumido, a IA
> simbólica aprendia a partir de regras explícitas, ao contrário das técnicas
> atuais, que se apoiam na enorme quantidade de dados disponíveis na internet.
> >>>>
> >>>> Naquela época, já se falava em redes neurais, ideia que está na base
> da IA de hoje. Mas apenas nos anos 1990, com o avanço do poder
> computacional, ela passou a exibir resultados satisfatórios. As diferenças
> entre a Gofai e as redes neurais são difíceis de explicar, mas o
> contraponto ajuda a lembrar que não existe apenas um caminho.
> >>>>
> >>>> A história da IA é marcada por surtos periódicos de superexcitação
> intercalados com os chamados invernos da IA, nos quais os limites se tornam
> aparentes, o entusiasmo se esvai e o financiamento é cortado.
> >>>>
> >>>> Durante a década de 1960, abordagens simbólicas obtiveram sucesso na
> simulação de comportamentos inteligentes em jogos, matemática simbólica ou
> demonstração de teoremas. Depois, o investimento declinou. O ano de 1973
> foi um marco, com publicações jogando um balde de água fria nos métodos
> usados até ali e mudando o foco da pesquisa. O entusiasmo retornou, até que
> as promessas não cumpridas culminaram em outra reação negativa na década de
> 1980.
> >>>>
> >>>> Estaríamos retornando à fase de superexcitação? Será que ela vai
> demorar? Parece que sim, mas o senso histórico ajuda a lembrar que não se
> trata de um destino inexorável.
> >>>>
> >>>> Nossa definição de inteligência está mudando com o avanço da IA. É
> normal que os conceitos mudem de sentido, mas precisamos estar atentos para
> que essa mudança não acabe diminuindo o potencial da inteligência humana e
> bloqueando um debate franco sobre os rumos da tecnologia.
> >>>>
> >>>> Na matemática, existe uma grande diferença entre resolver problemas e
> formulá-los. Em geral, não se percebe isso, pois o ensino básico é
> excessivamente focado em resolver problemas, como usar a fórmula de
> resolução de equações do segundo grau, encontrar a soma dos termos de uma
> progressão aritmética ou multiplicar matrizes. Um matemático profissional
> não faz nada disso. Ele propõe novos problemas. Se forem bons, esses
> problemas podem virar teoremas, motivar boas teses de doutorado ou ser
> aplicados a outras áreas. Costumo dizer que os problemas são o motor da
> matemática.
> >>>>
> >>>> Neste momento, grandes cientistas e empresários comemoram o sucesso
> de uma ferramenta de IA na Olimpíada Internacional de Matemática. Os
> entusiastas correm para dizer que estamos diante de uma inteligência
> artificial comparável à dos humanos, já que a matemática é símbolo de
> inteligência.
> >>>>
> >>>> De fato, a IA é uma ótima resolvedora de problemas, mas estamos longe
> de vê-la inventar problemas consistentes, ofício de todo bom cientista. À
> frente da empresa ligada ao Google que criou a ferramenta vitoriosa nas
> olimpíadas, Demis Hassabis reconhece essa diferença entre resolver e
> inventar problemas. Os grandes avanços da ciência dependem da formulação de
> boas perguntas, não só das respostas certas.
> >>>>
> >>>> Luciano Floridi é um filósofo que tem refletido sobre as implicações
> éticas da IA. Para ele, a inteligência artificial de hoje é uma dissociação
> entre a resolução bem-sucedida de problemas e o comportamento inteligente.
> Dissociação é uma palavra forte. Ela sugere que o comportamento inteligente
> não está sendo mobilizado, em toda a sua amplitude, quando a IA executa as
> tarefas necessárias para resolver problemas, pois estão ausentes a
> consciência, a perspicácia, a sensibilidade, os insights, a experiência e a
> sabedoria.
> >>>>
> >>>> Mesmo sem nenhuma dessas capacidades humanas, a IA fornece soluções
> convincentes, mas graças às técnicas avançadas para processar enormes
> quantidades de dados produzidos pelos seres humanos.
> >>>>
> >>>> O sucesso da IA depende de uma construção pouco explícita: foi criado
> um ambiente favorável, no qual as tecnologias inteligentes se sentem em
> casa. Vivemos agarrados a nossos celulares, os objetos da casa se tornam
> smart, a TV e o fogão vêm com um assistente de bordo inteligente, os
> veículos possuem chips e um GPS nos acompanha. Tudo isso deixa rastros em
> dados e mais dados.
> >>>>
> >>>> Talvez o mundo esteja se adaptando à IA, e não o contrário, do mesmo
> modo como nossas mãos adquirem a forma de um celular, nossas relações reais
> refletem traços de nosso comportamento nas redes sociais e nosso cérebro
> apodrece com o tempo gasto na internet, como descrito no chamado "brain
> rot".
> >>>>
> >>>> O demônio de Turing é o gênio maligno que nos leva a avaliar nossa
> própria inteligência a partir do que a máquina é capaz de fazer. Esse é um
> risco invisível nas discussões sobre o futuro e o poder da IA. Uma
> redefinição vai se firmando, sem que os termos estejam explícitos. Só então
> "será possível falar de máquinas pensando sem esperar ser contrariado",
> exatamente como Turing previu.
> >>>>
> >>>> As ideias vão se adequando aos ares do tempo de tal maneira que nem
> sequer estranhamos quando um caminhão autônomo é considerado uma façanha da
> inteligência artificial, mesmo que até há pouco tempo não achássemos que
> dirigir fosse uma atividade inteligente.
> >>>>
> >>>> Os avanços dos próximos anos serão velozes e precisaremos de
> critérios para avaliar se estamos realmente perto de uma inteligência
> artificial equiparável à dos humanos. Pode ser útil examinar se ela sabe
> inventar problemas tão bem quanto um bom matemático —e o mesmo vale para a
> arte e outras áreas criativas, que dependem mais de perguntas consistentes
> do que de respostas eficazes.
> >>>>
> >>>> Os debates sobre inteligência artificial são envolvidos por muito
> hype. Isso atrapalha uma conversa franca sobre suas consequências, desde os
> impactos no mundo do trabalho até o uso dos recursos naturais. Encantamento
> e ocultamento são dois lados do mesmo demônio, distrações que terminam por
> esvaziar nossa agência e desmobilizar a ação política necessária para
> incidir nos rumos da IA. Não é uma tarefa fácil, mas a história nos lembra
> que há técnicas diversas e algumas podem ser mais úteis do que outras se
> fixarmos o bem comum como objetivo.
> >>>>
> >>>> "Não acredite no hype da IA" é o título de um artigo de Daron
> Acemoglu, prêmio Nobel de Economia. Ele mostra, com riqueza de dados, que
> os ganhos de produtividade, por enquanto, são modestos e a "automação pelo
> prazer de automatizar" amplia as desigualdades sociais. Acemoglu é um dos
> defensores mais eloquentes da ideia de que devemos direcionar o curso da
> mudança tecnológica e não aceitar o caminho atual como inevitável.
> >>>>
> >>>> Húbris é um conceito de origem grega, comumente associado à soberba.
> Os mitos antigos advertiam para o perigo de se superestimar a contribuição
> humana diante de grandes conquistas. Quando obtêm sucesso importante em
> algum feito, como vencer guerras ou inventar ferramentas poderosas, os
> humanos correm o risco de subestimar o papel da fortuna e achar que tudo é
> fruto de sua própria genialidade.
> >>>>
> >>>> Mais uma vez, o demônio está à espreita, só que o excesso de
> confiança irrita os deuses. A sensação de invulnerabilidade e a falta de
> humildade epistêmica que a húbris enseja podem despertar a ira dos deuses e
> ocasionar grandes catástrofes. Precisamos evitá-las, e redirecionar o uso e
> as prioridades no desenvolvimento da IA é parte dessa missão.
> >>>>
> >>>> ***
> >>>>
> >>>> Este texto é uma versão adaptada da introdução de "A Máquina e Nós:
> Promessas e Armadilhas da Inteligência Artificial", que será publicado pela
> Todavia em junho.
> >>>>
> >>>>
> >>>>
> >>>>
> >>>>
> >>>>
> >>>>
> >>>> Em quinta-feira, 21 de maio de 2026, Joao Marcos <[email protected]>
> escreveu:
> >>>>>
> >>>>> Márcio Palmares escreveu:
> >>>>> >
> >>>>> > Seres humanos exteriorizam sua imaginação criando ferramentas,
> máquinas, tecnologia.
> >>>>> >
> >>>>> > Agora, exteriorizamos nosso pensamento matemático, ou certas
> porções dele. De um machado de pedra para uma máquina capaz de fazer
> matemática... Podemos delegar à máquina a resolução de alguns problemas. E
> ela pode se sair melhor do que nós em certos casos (do mesmo modo que uma
> escavadeira se sai melhor do que um indivíduo com uma pá). Mas não se trata
> de força bruta. Este caso mostra criatividade, engenhosidade:
> exteriorização de faculdades humanas.
> >>>>> >
> >>>>> > Para um materialista no sentido filosófico, isso tudo é
> surpreendente em um único sentido: somos matéria estelar que adquiriu vida
> e consciência (Carl Sagan). Somos máquinas biológicas. Se fosse impossível
> construir máquinas capazes de imitar certas faculdades humanas
> (inteligência matemática), então nós não existiríamos.
> >>>>>
> >>>>> No que diz respeito ao advento das LLMs e a nossa reflexão acerca das
> >>>>> suas capacidades, lembrei-me deste artigo:
> >>>>>
> >>>>> Cognitivism prevents us from understanding artificial intelligence
> >>>>> https://link.springer.com/article/10.1007/s00146-025-02583-5
> >>>>>
> >>>>> Será que é mesmo o caso de reavivarmos a chama do comportamentalismo,
> >>>>> em detrimento do cognitivismo?
> >>>>>
> >>>>>
> >>>>> Gisele Dalva escreveu:
> >>>>> > Nem tudo o que reluz é ouro, já diz a cantiga de capoeira, e dar
> uns passos atrás antes de preconizar grandes e radicais mudanças em alguma
> prática científica pode ser uma boa atitude.
> >>>>>
> >>>>> Eu não hesitaria em afirmar que as mudanças trazidas pelas LLMs à
> >>>>> prática matemática são, com efeito, grandes e radicais.
> >>>>>
> >>>>> Querendo ou não, nunca mais voltaremos a fazer buscas da forma como
> >>>>> fazíamos outrora.  E isso me faz recordar o clássico artigo
> >>>>> "Intelligent machinery", escrito pelo patrono da "Filosofia da
> >>>>> Inteligência", Alan Turing, no qual ele discute, entre outras tantas
> >>>>> questões, "the idea that intellectual activity consists mainly of
> >>>>> various kinds of search".  Pois a coisa está funcionando, e está,
> sim,
> >>>>> desmistificando um bom bocado a ideia romantizada acerca das
> >>>>> capacidades que nos tornariam singularmente humanos --- capacidades
> >>>>> estas, aliás, que muitos humanos parecem usar com bastante
> parcimônia.
> >>>>>
> >>>>> []s, João Marcos
> >>>>>
> >>>>> --
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>  Walter Carnielli
> CLE and Department of Philosophy
> University of Campinas –UNICAMP, Brazil
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>  AI2- Advanced Institute for Artificial Intelligence
> Blog https://waltercarnielli.com/
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