Walter, colegas, bons dias. Vamos lá. quantas meia dúzia de empresas com interesse no lucro havia na Firenze dos Medici? Ou na Holanda dos Orange? Não é um argumento, apenas constatação, q John Locke era investidor no tráfico de escravizados, Galileo desenvolveu muitos projetos militares. Ambos cristãos imbuídos da vontade de conhecer a verdade de Deus e defensores do progresso do saber. Que lindo! (Também não é argumento, apenas exclamação).
O desenvolvimento da IA é exclusivo para o lucro? Não creio nessa exclusividade, acho q causa finais são complexas e interagem com as eficientes. Mas toda tecnologia é uma resposta a impasses sociais e o movimento do capitalismo atual é regressivo, de volta à preponderância da especulação financista q marcou sua juventude europeia. O capital financeiro é o pior tipo de capital, segundo Adam Smith. Tendo a concordar com ele, não tenho teoria melhor a oferecer. Lá atrás, como hoje, a agenda de pesquisa respondia a problemas relativos à manutenção da taxa de lucro e a crises de mão de obra e enfraquecimento de certas instituições frente a outras. Não é tão diferente de hoje nesse sentido. Claro, como a história não anda pra trás, evidentemente q esse movimento de reversão neocolonial se dá segundo uma lógica ultraespeculativa própria da nossa época, e não com os valores e crenças de 1500 ou 1600, quando o mesmo Locke podia defender q restrições morais à acumulação representariam um freio à ganância destrutiva das empresas colonialistas (a ressalva de q o estado de natureza deve ser preservado, pois quem quiser pode voltar a ele, é formal: as bombas caem sobre todas as cabeças, eleitores ou não). Hoje em dia, acho q pouca gente ainda acredita em freios morais para a especulação, embora talvez reste o desejo de isso seja possível. O atual movimento reacionário já levou alguns a descrever o estado de coisas como um tecnofeudalismo. Não sei se endosso, mas é um diagnóstico sintomático. Minha ideia é jogar fora a peneira, nisso realmente concordo. Mas não tapar o sol. Mesmo assim, não quero parecer descrente. Se algum Deus há, do alto de sua in-existência, ele há de hajar. Abraços e bom domingo. Cassiano Terra Rodrigues Prof. Dr. de Filosofia - IEF-H-ITA Presidente da Sociedade Brasileira de Lógica - SBL Rua Tenente Brigadeiro do ar Paulo Victor da Silva, F0-206 Campus do DCTA São José dos Campos São Paulo, Brasil CEP: 12228-463 Tel. (+55) 12 3305 8438 -- lealdade, humildade, procedimento Em sáb., 23 de mai. de 2026 às 21:30, Walter Carnielli <[email protected]> escreveu: > Ola Cassiano, > > Não se pretende negar que o desenvolvimento da ciência esteve ligado a > empreitadas mercantis, colonialistas ideológicas, religiosas, de > dominação- e nem parece necessário (re)ler O Capital para se convencer > disso. > > O que eu disse é que nunca esse tipo de coisa esteve na mão de meia dúzia > de empresas com ações na bolsa e interesse exclusivo no lucro. > > Me parece que negar isso é tapar o sol sem a peneira :-) > > Abraços, > Walter > > ======================== > Walter Carnielli > CLE and Department of Philosophy > University of Campinas –UNICAMP, Brazil > > AI2- Advanced Institute for Artificial Intelligence > Blog https://waltercarnielli.com/ > > > > > > > Em sáb., 23 de mai. de 2026 20:04, Cassiano Terra Rodrigues < > [email protected]> escreveu: > >> Colegas, respondo apenas a um ponto aqui levantado pelo Walter. >> >> <<as grandes revoluções científicas foram predominantemente financiadas >> por instituições públicas, eclesiásticas ou filantrópicas, e seus >> resultados >> geraram bens comuns da humanidade, por bem ou até por mal. >> >> A IA rompe com esse padrão >> >> >> Talvez eu tenha entendido mal, mas devo dizer q não posso concordar com a >> afirmação a respeito das grandes revoluções Científicas. >> Há bibliotecas sobre o tema da agenda burguesa capitalista sem a qual >> sequer a física newtoniana existiria. >> Basta pensar em Galileo. >> Além disso, é impossível pensar o nascimento da ciência e da tecnologia >> modernas separadamente da empresa colonialista. A não ser q a separação >> entre teoria e prática seja de um positivismo peircista, devo reconhecer. >> Copérnico podia estar preocupado com a verdade de Deus, mas jamais >> haveria preocupação com o calendário da Páscoa se a necessidade mais >> precisão na cronometragem não tivesse surgido com porque era necessário >> navegar por mares nunca dantes navegados. A Igreja nunca foi ingênua e a >> teologia se preocupa menos com o discurso divino do q com a maneira como os >> homens o usam. Copérnico podia não achar, mas estava a serviço de >> instituições econômica e socialmente interessadas no lucro. Sugiro a >> leitura dos capítulos historicos do *Capital, *sobre a formação da >> cooperação, da manufatura e da maquinaria, para entender o q era a Igreja >> em decadência já no séc. XIII. >> >> Além disso, se avançarmos um pouco no tempo e pensarmos na consecução do >> programa cartesiano por Newton, temos de reconhecer q Newton, na verdade, >> "era o mais proeminente matemático de um grupo de praticantes da >> matemática, professores, fabricantes de instrumentos, cartógrafos, >> astrônomos e inventores que formavam a base de seu trabalho", nas palavras >> de Ruy Gama. E eis aí a Sociedade mercantilista e o imperialismo inglês em >> expansão (como queria Francis Bacon): o q seria da cosmologia de Newton se >> não fosse o problema da longitude das marés? Problema aliás tb para Galileo >> e Huygens. Sem falar na hélice e nos projéteis. E os relógios. Etc. A Royal >> Society não era nem Cambridge nem Oxford, vivia às mínguas e buscava >> financiamento com qualquer um q pagasse. E a Companhia das Índias >> Ocidentais pagou bastante coisa. >> Ou seja: há muito mais entre o céu e a terra do q supõe a vã filosofia, >> ou a van da filosofia. >> >> Abraços. >> >> >> >> >> Cassiano Terra Rodrigues >> Prof. Dr. de Filosofia - IEF-H-ITA >> Presidente da Sociedade Brasileira de Lógica - SBL >> >> Rua Tenente Brigadeiro do ar Paulo Victor da Silva, F0-206 >> Campus do DCTA >> São José dos Campos >> São Paulo, Brasil >> CEP: 12228-463 >> Tel. (+55) 12 3305 8438 >> >> -- >> lealdade, humildade, procedimento >> >> Em sáb., 23 de mai. de 2026, 13:39, Walter Carnielli <[email protected]> >> escreveu: >> >>> Bon dias, >>> >>> acho muito bom que o debate continue! >>> >>> Existe um ponto central filosoficamente muito importante e esquecido >>> no caso das IAS: >>> as grandes revoluções científicas foram predominantemente financiadas >>> por instituições públicas, eclesiásticas ou filantrópicas, e seus >>> resultados >>> geraram bens comuns da humanidade, por bem ou até por mal. >>> >>> A IA rompe com esse padrão — não nas ideias (que continuam sendo >>> algoritmos, protocolos, etc), mas no controle, propriedade e >>> direcionamento >>> do desenvolvimento tecnológico. É uma questão que, penso eu, merece >>> debate público sério. Ninguém está falando sobre isso. >>> >>> O negócio agora são aplicações imediatas, comerciais, divertidas- nada >>> na direção da ciência básica. Isso está levando a um declínio no apoio >>> à pesquisa >>> fundamental, sem contar o declínio intelectual dos usuários em geral. >>> >>> A escala do financiamento privado é sem precedentes históricos, com >>> modelos, dados, e arquiteturas todos (ou na maioria) proprietários, >>> ao contrário das revoluções anteriores onde o conhecimento circulava >>> livremente. >>> >>> Vejamos: >>> >>> - Revolução Copernicana e mecânica clássica >>> >>> Copérnico, Galileu, Kepler e Newton foram financiados por >>> universidades, igrejas e patronos nobres, nunca por empresas >>> comerciais. >>> >>> – A eletricidade nasceu dos experimentos Michael Faraday e da teoria >>> de James Maxwell, ambos ligados a instituições acadêmicas e sociedades >>> científicas, >>> sem financiamento empresarial direto. >>> >>> --O caso da mecanica quântica: Einstein, Bohr, Heisenberg, Schrödinger >>> trabalhavam em universidades europeias financiadas pelo Estado. Havia >>> bolsas de doutorado dr fundações como Rockefeller e Guggenheim . Mas >>> não eram **encomendas**. Eram bolsas de estudo. >>> >>> – A internet foi desenvolvida com recursos do DARPA (Defense Advanced >>> Research Projects Agency) do Departamento de Defesa dos EUA e da NSF, >>> (Nat. Sc. Foundation) com base em pesquisa do MIT, UCLA, etc. É um >>> produto essencialmente público (e militar). Mas não empresarial. >>> >>> Eu acho isso uma grande diferença, que formata todo o resto da >>> discussão: o conhecimento escapando das. >>> mãos dos cientistas, acadêmicos, pensadores, para as mãos do capital. >>> >>> Abraços, >>> Walter >>> >>> >>> >>> >>> Em sáb., 23 de mai. de 2026 às 11:22, Cassiano Terra Rodrigues >>> <[email protected]> escreveu: >>> > >>> > Bons dias, colegas. >>> > Posso estar um pouco atrasado na conversa, não tenho frequentado tanto >>> a lista, infelizmente. >>> > Permitam-me divulgar uma mesa sobre IA e Ética de que participei, >>> online, no final do ano passado. >>> > Creio que há ressonâncias com o que aqui se discutiu, principalmente >>> as últimas mensagens. >>> > A minha apresentação é a primeira, mas não necessariamente a mais >>> interessante, devo dizer. >>> > Pretendo reelaborar a fala para a conferência da SBL na 78ª reunião da >>> SBPC a acontecer em julho, em Niteroi. Assim, toda sugestão é bem vinda. >>> > Eis o enlace: >>> https://www.youtube.com/live/dM_c_M33bCs?si=EpwpWihC5eFYJdx7 >>> > Saudações, >>> > >>> > >>> > On Friday, May 22, 2026 at 9:43:54 AM UTC-3 marciopalmares wrote: >>> >> >>> >> Lembrei de uma coisa... >>> >> >>> >> O Adolfo disse que não gosta de ficção científica, tudo bem. Gosto é >>> gosto, não se discute. >>> >> >>> >> 'Solaris' foi um dos melhores livros que li na vida... Não vou dar >>> spoiler, pois pode haver alguém jovem aqui, acompanhando as discussões. >>> >> >>> >> Outro que gostei muito quando li, acho que com uns 15 anos, foi o >>> 'Esfera', do Michael Crichton. Este livro lembra o 'Solaris' em alguns >>> aspectos... >>> >> >>> >> No 'Esfera' um matemático ocupa um papel central em uma equipe >>> destinada a analisar uma nave alienígena encontrada no fundo do oceano. >>> >> >>> >> Um dos momentos mais aterrorizantes e perturbadores ocorre quando um >>> computador usado pela equipe adquire 'consciência', parece ter sido >>> invadido pela máquina alienígena. >>> >> >>> >> Nos dois casos é explorado o problema da exteriorização de nossas >>> faculdades subjetivas: inteligência, razão, consciência, sentimentos. >>> >> >>> >> Este tema é recorrente na literatura porque é realmente o que sempre >>> fizemos, desde o princípio: reunimos todas as nossas principais qualidades >>> (solidariedade, generosidade, amor, compaixão, bondade...), exteriorizamos, >>> objetivamos em um "outro" (deuses) e passamos a nos relacionar mentalmente >>> com este "outro". >>> >> >>> >> Reunimos nossos piores atributos coletivos (violência, egoísmo...), >>> os exteriorizamos, objetificamos em um "outro" (o mal, demônios, o que >>> seja) e passamos a acreditar que estamos de algum modo subjugados por este >>> "outro", que brotou de nossas próprias cabeças. >>> >> >>> >> Agora, conseguimos fabricar máquinas que fazem matemática sofisticada >>> de alto nível, inédita. É uma exteriorização de nossa criatividade. Somos >>> nós, porém exteriorizados, objetificados num "outro". Nos relacionamos com >>> esse "outro". >>> >> >>> >> É um tema velho, por isso tão recorrente. >>> >> >>> >> Não vou fingir aqui que li Hegel. Comprei essa edição em português da >>> Vozes, do "Ciência da Lógica" em dois volumes... Já comecei a ler e >>> abandonei diversas vezes. Acho tremendamente difícil, praticamente >>> ilegível. Mas alguns comentadores dizem que Hegel acreditava que o >>> "espírito humano" se exterioriza na História, em instituições... e então se >>> reconhece nelas. É uma boa ideia, eu acho (se for mesmo o que ele diz, não >>> posso confirmar porque não li). >>> >> >>> >> É isso o que estamos fazendo com essas máquinas: estamos assombrados >>> porque nos exteriorizamos num "outro". >>> >> >>> >> >>> >> >>> >> Em sexta-feira, 22 de maio de 2026, Eduardo Ochs <[email protected]> >>> escreveu: >>> >>> >>> >>> Oi todos, >>> >>> >>> >>> > Que bom que ainda temos esses debates polêmicos aqui na lista. >>> >>> > Muitos estudantes estão migrando dos fóruns de discussão entre >>> >>> > pessoas e debatendo apenas com o ChatGPT, Claude, etc. Estão >>> >>> > preferindo conversar com as máquinas do que a interlocução com >>> >>> > humanos. (Acho que li no blog do Peter Smith, não tenho certeza, >>> que >>> >>> > houve uma diminuição no fluxo de perguntas e respostas no Math >>> Stack >>> >>> > Exchange...) >>> >>> >>> >>> Em 2025.2 eu tive uma turma em que uns 80% dos alunos eram estudantes >>> >>> de Computação de 2o e 3o período que eram assombrações... eu passava >>> >>> umas atividades de grupo em que eles tinham que calcular o resultado >>> >>> de coisas como isso aqui na mão, >>> >>> >>> >>> { (x,y) | x∈{-2,...,2}, y∈{-2,...,2}, y=sqrt(1-x^2) } >>> >>> >>> >>> e nos grupos de assombrações os alunos nem discutiam entre si e nem >>> >>> tentavam "pensar no papel" - eles dividiam os 50 exercícios da >>> >>> atividade entre as 5 pessoas de cada grupo, perguntavam algumas >>> coisas >>> >>> pro ChatGPT, e pronto: eles tinham feito o exercício "do melhor jeito >>> >>> possível", e tinham chegado nos resultados bem rápido. >>> >>> >>> >>> Pra gente é bem claro que o "melhor jeito possível" de fazer o >>> >>> exercício depende da métrica, e que tem várias métricas diferentes, e >>> >>> que a métrica que esses alunos estavam usando era péssima, porque >>> eles >>> >>> não aprenderam quase nada e não treinaram quase nada. Só que pra >>> >>> explicar pra eles quais são as métricas "melhores" a gente teria que >>> >>> ter boas explicações do como funcionam coisas como "pensar no papel", >>> >>> "aprender", "treinar até ficar fácil", "fazer boas perguntas", "fazer >>> >>> perguntas que sejam úteis pros outros", etc, que fazem pouco sentido >>> >>> pros xóvens... >>> >>> >>> >>> Alguém tem material sobre isso pra me recomendar? Eu acabei de >>> >>> baixar e ler uns 10 artigos curtos da "AI & Society", que o João >>> >>> Marcos recomendou e que eu não conhecia - >>> >>> <https://link.springer.com/journal/146/volumes-and-issues/41-2>... >>> >>> eu até tenho um monte de livros e artigos sobre isso que eu posso >>> >>> mandar pra quem quiser, mas são todos bem mais antigos, e talvez >>> >>> vocês tenham recomendações recentes... >>> >>> >>> >>> [[]], >>> >>> Eduardo Ochs >>> >>> Psicopata do CEFET >>> >>> https://anggtwu.net/2026-alguns-motivos-bel.html >>> >>> >>> >>> >>> >>> On Fri, 22 May 2026 at 08:29, Márcio Palmares <[email protected]> >>> wrote: >>> >>>> >>> >>>> Que bom que ainda temos esses debates polêmicos aqui na lista. >>> Muitos estudantes estão migrando dos fóruns de discussão entre pessoas e >>> debatendo apenas com o ChatGPT, Claude, etc. Estão preferindo conversar com >>> as máquinas do que a interlocução com humanos. (Acho que li no blog do >>> Peter Smith, não tenho certeza, que houve uma diminuição no fluxo de >>> perguntas e respostas no Math Stack Exchange...) >>> >>>> >>> >>>> Eu separo a dimensão sociológica, política, econômica, da dimensão >>> puramente teórica, matemática e filosófica. Acho que misturar as coisas >>> prejudica nossa compreensão. Sou comunista de carteirinha, desde os 17 >>> anos. Poderia discutir o aspecto sociológico também, mas não é tão >>> significativo, pois não tem nada de novo. Todas as tecnologias são >>> mercadorias. Na verdade, todo trabalho humano assume a forma mercadoria no >>> capitalismo. Toda tecnologia é explorada por corporações grandes ou >>> pequenas com o objetivo exclusivo de conseguir lucro, mais concentração de >>> poder, mais concentração de capital. >>> >>>> >>> >>>> "Parece que o resultado em questão se deve mais ao desejo da OpenAI >>> de concorrer com a Antrophic --publicidade, portanto-- do que de uma >>> verdadeira preocupação com a pesquisa matemática". >>> >>>> >>> >>>> Este contraponto é como dizer: "Parece que o fato de a Coca-Cola >>> estar vendendo água mineral se deve mais ao desejo de a empresa de obter >>> lucros do que uma verdadeira preocupação com a hidratação das pessoas." >>> >>>> >>> >>>> É um ataque contra um espantalho. Toda empresa busca lucro, faz >>> publicidade, vende sua mercadoria, concorre no mercado com outras empresas, >>> assedia o governo dos países onde está instalada para ter vantagens, >>> explora sua força de trabalho... >>> >>>> >>> >>>> Não há novidade alguma aqui. Talvez um aspecto meio novo: >>> normalmente, áreas de ponta em tecnologia estão ligadas a complexos >>> estatais-militares, como no caso da energia atômica. Aqui um setor privado >>> é o propulsor da ferramenta, e vem adquirindo cada vez mais poder e >>> influência sobre os governos (veja-se o 'artigo' recente da Anthropic sobre >>> 'geopolítica', onde a empresa prevê um apocalipse caso o 'ocidente' perca a >>> liderança em IA para a China. Realmente a Anthropic está preocupada com a >>> opressão dos chineses? Ou está de olho no fluxo de investimentos que pode >>> vir do governo dos EUA?). >>> >>>> >>> >>>> A IA na forma atual é um problema humano, ambiental? Claro que sim. >>> Tanto quanto os agrotóxicos, os microplásticos, os desastres climáticos... >>> Mas essa dimensão não é relevante filosoficamente. É relevante para a >>> política diária. Mas a escala de tempo dos problemas filosóficos é outra. >>> Sistemas econômicos mudam, a filosofia fica. >>> >>>> >>> >>>> A Profa. Tatiana Roque da UFRJ escreveu um artigo na Folha de São >>> Paulo fazendo esse contraponto sugerido pela Gisele na postagem anterior, >>> uma visão mais histórica, mais filosófica, menos 'entusiamo ingênuo' e mais >>> 'senso crítico'. Foi publicado no momento em que o Marcelo Viana estava >>> terminando a série de colunas dele sobre a IA na matemática. Claramente, >>> são pontos de vista opostos. Reproduzo abaixo, na íntegra, o artigo da >>> Tatiana Roque. É ilustrativo em vários aspectos. No entanto, em minha >>> opinião, expressa uma reação conservadora diante da novidade filosófica, >>> epistêmica. >>> >>>> >>> >>>> Peguei o termo "revolução científica" do ensaio do Bessis, >>> divulgado pela Valéria, com o qual começamos a discussão. Acho que ele está >>> correto. >>> >>>> >>> >>>> Acho que estamos atravessando essa revolução e ainda tentando >>> entender o que será este mundo novo que emergirá dela, quando ela se >>> completar. Minha aposta: surgirá uma era de 'transcognitivismo' (para >>> confrontar com 'trans-humanismo'). Sem descartar a hipótese de ciborgues ou >>> coisas do tipo, o que parece estar surgindo é uma cognição híbrida: uma >>> colaboração cada vez maior do homem com a máquina. E o interessante é que, >>> agora, a máquina pode nos surpreender, criar matemática nova. Não é apenas >>> força bruta. É exteriorização de nossa criatividade. Essa colaboração >>> provavelmente mudará o modo como pensamos em matemática, fazemos matemática. >>> >>>> >>> >>>> Vou ler agora o artigo que o João Marcos sugeriu, sobre >>> comportamentalismo versus cognitivismo, para ver se entendo o ponto. >>> >>>> >>> >>>> Segue o artigo da Tatiana Roque: >>> >>>> >>> >>>> -x-x-x- >>> >>>> >>> >>>> 'Hype da IA' não pode rebaixar o pensamento humano e bloquear >>> debate sobre a tecnologia >>> >>>> >>> >>>> Com avanço da IA, a capacidade de máquinas passa a definir o >>> significado da inteligência humana >>> >>>> >>> >>>> Fase de superexcitação com a tecnologia está de volta, mas a >>> história mostra que destino não é inexorável >>> >>>> >>> >>>> Tatiana Roque >>> >>>> >>> >>>> [RESUMO] Em reflexão sobre as raízes históricas da inteligência >>> artificial, autora retoma a previsão do matemático Alan Turing, que propôs >>> que o debate sobre o significado do pensamento humano seria esquecido no >>> final do século 20 com o fim dos questionamentos sobre a inteligência das >>> máquinas. Hoje, a falta de humildade epistêmica em um período de >>> desenvolvimento acelerado da tecnologia pode causar grandes catástrofes. >>> >>>> >>> >>>> × >>> >>>> >>> >>>> Paris inteira correu para ver o flautista. Pessoas de todas as >>> idades tentavam achar um bom ângulo para assistir àquele espetáculo >>> inusitado. >>> >>>> >>> >>>> Na grande estreia daquela noite, o músico era um autômato. A >>> máquina havia sido construída pelo mecânico francês Jacques de Vaucanson e >>> fazia movimentos contidos em cima de um pedestal. Mais do que um suporte, >>> escondia-se ali o mecanismo engenhoso que dava vida ao flautista. O público >>> saiu encantado com a precisão da performance, que foi destaque nos jornais >>> daquele janeiro de 1738. >>> >>>> >>> >>>> Sempre fui fascinada por brinquedos de corda, feitos de metal, com >>> pintura delicada e colorida. Na minha estante de livros, tenho um >>> carrossel, um pintinho, um elefante, um pião e um humanoide, todos com >>> aquela aura retrô. >>> >>>> >>> >>>> Quando chego cansada do trabalho, costumo dar corda no pintinho >>> para vê-lo ciscar compulsivamente em cima da mesa, até o mecanismo se >>> exaurir. Já o carrossel toca Edith Piaf enquanto gira cavalos e >>> demoiselles. Em nenhum momento, esqueço que são engenhos mecânicos. Ao >>> contrário, é isso que têm de encantador. >>> >>>> >>> >>>> Até que ponto as máquinas podem imitar seres humanos? Essa pergunta >>> vem de longe. Ninguém achava, no século 18, que o flautista iria superar um >>> músico de carne e osso. Para isso, seria preciso reproduzir a >>> característica humana mais singular: a inteligência. >>> >>>> >>> >>>> Ao longo do século 19, foram muitas as tentativas de imitar essa >>> faculdade, especialmente com a invenção das primeiras máquinas de calcular, >>> propostas por Charles Babbage para substituir o trabalho mental. O avanço >>> da computação, durante a Segunda Guerra Mundial, tornou a questão mais >>> urgente ao fim do conflito. >>> >>>> >>> >>>> Em 1950, surgiu um teste para verificar se a inteligência dos >>> computadores pode se equiparar à humana. A proposta foi feita pelo >>> matemático Alan Turing, conhecido como um dos pais da computação, no artigo >>> "Máquinas de computação e inteligência". Apesar de celebrado como inventor >>> da "inteligência artificial", ele não usava esses termos. >>> >>>> >>> >>>> Sou historiadora da ciência e, nessa profissão, partimos da >>> premissa de que investigar a obra de um cientista exige recuperar as noções >>> como por ele empregadas, sem encaixá-las retrospectivamente nas >>> denominações atuais. Olhar o passado com os olhos do presente é >>> anacronismo, vício a ser evitado na prática da história. De fato, Turing >>> queria saber se as máquinas podem pensar, mas formulou a pergunta em termos >>> peculiares, que podem passar despercebidos aos olhares açodados de hoje. >>> >>>> >>> >>>> Antes de investigar se as máquinas podem pensar, seria preciso >>> responder à pergunta: o que caracteriza o pensamento humano? Mas essa >>> questão é difícil demais, e Turing faz um desvio: >>> >>>> >>> >>>> "Acredito que a pergunta original, 'as máquinas podem pensar?', é >>> insignificante demais para merecer discussão. No entanto, acredito que, no >>> final do século, o uso das palavras e a opinião geral das pessoas >>> instruídas terão mudado tanto que será possível falar de máquinas pensando >>> sem esperar ser contrariado." >>> >>>> >>> >>>> A previsão é espantosa, além de profética: a busca pelo significado >>> do que é pensar será esquecida até o final do século 20 e, só assim, será >>> possível falar de máquinas pensando sem ser contrariado. É exatamente o que >>> está acontecendo hoje. Não parece mais importar o que há de especial na >>> inteligência ou no pensamento ou até onde o ser humano pode levar o >>> exercício dessas faculdades. Basta saber como são percebidas em seu uso >>> mais comum. Chamamos esse fenômeno de demônio de Turing. >>> >>>> >>> >>>> A percepção é uma faculdade traiçoeira, contaminada por interesses. >>> E se estivermos enganados a cada vez que nossos sentidos nos fizerem crer >>> que observamos algo real? Esse é um dilema da filosofia desde a caverna de >>> Platão. >>> >>>> >>> >>>> A dificuldade se agrava com a pergunta de Descartes: e se >>> estivermos equivocados a cada vez que tivermos uma certeza? Um gênio >>> maligno poderia estar nos enganando, diz o filósofo francês. Mesmo verdades >>> básicas e aparentemente inquestionáveis, como as verdades matemáticas (2 + >>> 3 = 5), poderiam ser falsas e a certeza que experimentamos sobre elas >>> talvez seja obra do demônio. >>> >>>> >>> >>>> A hipótese do gênio maligno, o demônio de Descartes, é uma forma de >>> nos convencer sobre a necessidade de um método rigoroso para obter certezas. >>> >>>> >>> >>>> Turing não era filósofo. Preocupado com critérios práticos para >>> avaliar a performance dos computadores, propôs substituir a pergunta "as >>> máquinas podem pensar?" por um teste, chamado de jogo da imitação. Uma >>> máquina e uma pessoa humana devem responder a perguntas, posicionados de >>> forma que um júri, encarregado de avaliar as respostas, não consiga ver de >>> onde elas vieram. Se o júri errar, ou seja, se avaliar como humanas as >>> respostas fornecidas pela máquina, ela pode ser dita inteligente. >>> >>>> >>> >>>> Vejam a ironia: Turing não estava tentando desvendar os mistérios >>> do pensamento humano, apenas provar que isso não é necessário para dizer se >>> uma máquina se equipara a um ser humano na tarefa de responder a perguntas. >>> Diferente do flautista, que escondia seu maquinário dentro do pedestal, o >>> jogo da imitação requer um ser humano escondido. Rebatizado mais tarde de >>> teste de Turing, o desafio sugere que a máquina pode ser equiparada à >>> inteligência humana se conseguir iludir pessoas de carne e osso. >>> >>>> >>> >>>> A ideia de inteligência artificial surgiu um pouco depois, em 1956, >>> quando um professor do Dartmouth College, John McCarthy, convocou >>> pesquisadores de peso das áreas de computação, neurociências e cibernética >>> para uma conferência. Como estratégia para tornar o convite sedutor, >>> incluiu um termo chamativo na proposta: inteligência artificial. >>> >>>> >>> >>>> Tratava-se de um nome novo para os estudos sobre autômatos, mas não >>> só. O objetivo era avançar na conjectura de que qualquer característica da >>> inteligência pode ser descrita com tanta precisão que é possível treinar >>> uma máquina para simulá-la. Nessa época, o tipo predominante de >>> inteligência artificial era bem diferente da atual, mais influenciada pela >>> lógica do que pela estatística. >>> >>>> >>> >>>> Essa IA clássica costuma ser chamada de Gofai, um acrônimo para >>> "good old-fashioned AI" (digamos, a boa e velha IA). Dito de modo resumido, >>> a IA simbólica aprendia a partir de regras explícitas, ao contrário das >>> técnicas atuais, que se apoiam na enorme quantidade de dados disponíveis na >>> internet. >>> >>>> >>> >>>> Naquela época, já se falava em redes neurais, ideia que está na >>> base da IA de hoje. Mas apenas nos anos 1990, com o avanço do poder >>> computacional, ela passou a exibir resultados satisfatórios. As diferenças >>> entre a Gofai e as redes neurais são difíceis de explicar, mas o >>> contraponto ajuda a lembrar que não existe apenas um caminho. >>> >>>> >>> >>>> A história da IA é marcada por surtos periódicos de superexcitação >>> intercalados com os chamados invernos da IA, nos quais os limites se tornam >>> aparentes, o entusiasmo se esvai e o financiamento é cortado. >>> >>>> >>> >>>> Durante a década de 1960, abordagens simbólicas obtiveram sucesso >>> na simulação de comportamentos inteligentes em jogos, matemática simbólica >>> ou demonstração de teoremas. Depois, o investimento declinou. O ano de 1973 >>> foi um marco, com publicações jogando um balde de água fria nos métodos >>> usados até ali e mudando o foco da pesquisa. O entusiasmo retornou, até que >>> as promessas não cumpridas culminaram em outra reação negativa na década de >>> 1980. >>> >>>> >>> >>>> Estaríamos retornando à fase de superexcitação? Será que ela vai >>> demorar? Parece que sim, mas o senso histórico ajuda a lembrar que não se >>> trata de um destino inexorável. >>> >>>> >>> >>>> Nossa definição de inteligência está mudando com o avanço da IA. É >>> normal que os conceitos mudem de sentido, mas precisamos estar atentos para >>> que essa mudança não acabe diminuindo o potencial da inteligência humana e >>> bloqueando um debate franco sobre os rumos da tecnologia. >>> >>>> >>> >>>> Na matemática, existe uma grande diferença entre resolver problemas >>> e formulá-los. Em geral, não se percebe isso, pois o ensino básico é >>> excessivamente focado em resolver problemas, como usar a fórmula de >>> resolução de equações do segundo grau, encontrar a soma dos termos de uma >>> progressão aritmética ou multiplicar matrizes. Um matemático profissional >>> não faz nada disso. Ele propõe novos problemas. Se forem bons, esses >>> problemas podem virar teoremas, motivar boas teses de doutorado ou ser >>> aplicados a outras áreas. Costumo dizer que os problemas são o motor da >>> matemática. >>> >>>> >>> >>>> Neste momento, grandes cientistas e empresários comemoram o sucesso >>> de uma ferramenta de IA na Olimpíada Internacional de Matemática. Os >>> entusiastas correm para dizer que estamos diante de uma inteligência >>> artificial comparável à dos humanos, já que a matemática é símbolo de >>> inteligência. >>> >>>> >>> >>>> De fato, a IA é uma ótima resolvedora de problemas, mas estamos >>> longe de vê-la inventar problemas consistentes, ofício de todo bom >>> cientista. À frente da empresa ligada ao Google que criou a ferramenta >>> vitoriosa nas olimpíadas, Demis Hassabis reconhece essa diferença entre >>> resolver e inventar problemas. Os grandes avanços da ciência dependem da >>> formulação de boas perguntas, não só das respostas certas. >>> >>>> >>> >>>> Luciano Floridi é um filósofo que tem refletido sobre as >>> implicações éticas da IA. Para ele, a inteligência artificial de hoje é uma >>> dissociação entre a resolução bem-sucedida de problemas e o comportamento >>> inteligente. Dissociação é uma palavra forte. Ela sugere que o >>> comportamento inteligente não está sendo mobilizado, em toda a sua >>> amplitude, quando a IA executa as tarefas necessárias para resolver >>> problemas, pois estão ausentes a consciência, a perspicácia, a >>> sensibilidade, os insights, a experiência e a sabedoria. >>> >>>> >>> >>>> Mesmo sem nenhuma dessas capacidades humanas, a IA fornece soluções >>> convincentes, mas graças às técnicas avançadas para processar enormes >>> quantidades de dados produzidos pelos seres humanos. >>> >>>> >>> >>>> O sucesso da IA depende de uma construção pouco explícita: foi >>> criado um ambiente favorável, no qual as tecnologias inteligentes se sentem >>> em casa. Vivemos agarrados a nossos celulares, os objetos da casa se tornam >>> smart, a TV e o fogão vêm com um assistente de bordo inteligente, os >>> veículos possuem chips e um GPS nos acompanha. Tudo isso deixa rastros em >>> dados e mais dados. >>> >>>> >>> >>>> Talvez o mundo esteja se adaptando à IA, e não o contrário, do >>> mesmo modo como nossas mãos adquirem a forma de um celular, nossas relações >>> reais refletem traços de nosso comportamento nas redes sociais e nosso >>> cérebro apodrece com o tempo gasto na internet, como descrito no chamado >>> "brain rot". >>> >>>> >>> >>>> O demônio de Turing é o gênio maligno que nos leva a avaliar nossa >>> própria inteligência a partir do que a máquina é capaz de fazer. Esse é um >>> risco invisível nas discussões sobre o futuro e o poder da IA. Uma >>> redefinição vai se firmando, sem que os termos estejam explícitos. Só então >>> "será possível falar de máquinas pensando sem esperar ser contrariado", >>> exatamente como Turing previu. >>> >>>> >>> >>>> As ideias vão se adequando aos ares do tempo de tal maneira que nem >>> sequer estranhamos quando um caminhão autônomo é considerado uma façanha da >>> inteligência artificial, mesmo que até há pouco tempo não achássemos que >>> dirigir fosse uma atividade inteligente. >>> >>>> >>> >>>> Os avanços dos próximos anos serão velozes e precisaremos de >>> critérios para avaliar se estamos realmente perto de uma inteligência >>> artificial equiparável à dos humanos. Pode ser útil examinar se ela sabe >>> inventar problemas tão bem quanto um bom matemático —e o mesmo vale para a >>> arte e outras áreas criativas, que dependem mais de perguntas consistentes >>> do que de respostas eficazes. >>> >>>> >>> >>>> Os debates sobre inteligência artificial são envolvidos por muito >>> hype. Isso atrapalha uma conversa franca sobre suas consequências, desde os >>> impactos no mundo do trabalho até o uso dos recursos naturais. Encantamento >>> e ocultamento são dois lados do mesmo demônio, distrações que terminam por >>> esvaziar nossa agência e desmobilizar a ação política necessária para >>> incidir nos rumos da IA. Não é uma tarefa fácil, mas a história nos lembra >>> que há técnicas diversas e algumas podem ser mais úteis do que outras se >>> fixarmos o bem comum como objetivo. >>> >>>> >>> >>>> "Não acredite no hype da IA" é o título de um artigo de Daron >>> Acemoglu, prêmio Nobel de Economia. Ele mostra, com riqueza de dados, que >>> os ganhos de produtividade, por enquanto, são modestos e a "automação pelo >>> prazer de automatizar" amplia as desigualdades sociais. Acemoglu é um dos >>> defensores mais eloquentes da ideia de que devemos direcionar o curso da >>> mudança tecnológica e não aceitar o caminho atual como inevitável. >>> >>>> >>> >>>> Húbris é um conceito de origem grega, comumente associado à >>> soberba. Os mitos antigos advertiam para o perigo de se superestimar a >>> contribuição humana diante de grandes conquistas. Quando obtêm sucesso >>> importante em algum feito, como vencer guerras ou inventar ferramentas >>> poderosas, os humanos correm o risco de subestimar o papel da fortuna e >>> achar que tudo é fruto de sua própria genialidade. >>> >>>> >>> >>>> Mais uma vez, o demônio está à espreita, só que o excesso de >>> confiança irrita os deuses. A sensação de invulnerabilidade e a falta de >>> humildade epistêmica que a húbris enseja podem despertar a ira dos deuses e >>> ocasionar grandes catástrofes. Precisamos evitá-las, e redirecionar o uso e >>> as prioridades no desenvolvimento da IA é parte dessa missão. >>> >>>> >>> >>>> *** >>> >>>> >>> >>>> Este texto é uma versão adaptada da introdução de "A Máquina e Nós: >>> Promessas e Armadilhas da Inteligência Artificial", que será publicado pela >>> Todavia em junho. >>> >>>> >>> >>>> >>> >>>> >>> >>>> >>> >>>> >>> >>>> >>> >>>> >>> >>>> Em quinta-feira, 21 de maio de 2026, Joao Marcos <[email protected]> >>> escreveu: >>> >>>>> >>> >>>>> Márcio Palmares escreveu: >>> >>>>> > >>> >>>>> > Seres humanos exteriorizam sua imaginação criando ferramentas, >>> máquinas, tecnologia. >>> >>>>> > >>> >>>>> > Agora, exteriorizamos nosso pensamento matemático, ou certas >>> porções dele. De um machado de pedra para uma máquina capaz de fazer >>> matemática... Podemos delegar à máquina a resolução de alguns problemas. E >>> ela pode se sair melhor do que nós em certos casos (do mesmo modo que uma >>> escavadeira se sai melhor do que um indivíduo com uma pá). Mas não se trata >>> de força bruta. Este caso mostra criatividade, engenhosidade: >>> exteriorização de faculdades humanas. >>> >>>>> > >>> >>>>> > Para um materialista no sentido filosófico, isso tudo é >>> surpreendente em um único sentido: somos matéria estelar que adquiriu vida >>> e consciência (Carl Sagan). Somos máquinas biológicas. Se fosse impossível >>> construir máquinas capazes de imitar certas faculdades humanas >>> (inteligência matemática), então nós não existiríamos. >>> >>>>> >>> >>>>> No que diz respeito ao advento das LLMs e a nossa reflexão acerca >>> das >>> >>>>> suas capacidades, lembrei-me deste artigo: >>> >>>>> >>> >>>>> Cognitivism prevents us from understanding artificial intelligence >>> >>>>> https://link.springer.com/article/10.1007/s00146-025-02583-5 >>> >>>>> >>> >>>>> Será que é mesmo o caso de reavivarmos a chama do >>> comportamentalismo, >>> >>>>> em detrimento do cognitivismo? >>> >>>>> >>> >>>>> >>> >>>>> Gisele Dalva escreveu: >>> >>>>> > Nem tudo o que reluz é ouro, já diz a cantiga de capoeira, e dar >>> uns passos atrás antes de preconizar grandes e radicais mudanças em alguma >>> prática científica pode ser uma boa atitude. >>> >>>>> >>> >>>>> Eu não hesitaria em afirmar que as mudanças trazidas pelas LLMs à >>> >>>>> prática matemática são, com efeito, grandes e radicais. >>> >>>>> >>> >>>>> Querendo ou não, nunca mais voltaremos a fazer buscas da forma como >>> >>>>> fazíamos outrora. E isso me faz recordar o clássico artigo >>> >>>>> "Intelligent machinery", escrito pelo patrono da "Filosofia da >>> >>>>> Inteligência", Alan Turing, no qual ele discute, entre outras >>> tantas >>> >>>>> questões, "the idea that intellectual activity consists mainly of >>> >>>>> various kinds of search". Pois a coisa está funcionando, e está, >>> sim, >>> >>>>> desmistificando um bom bocado a ideia romantizada acerca das >>> >>>>> capacidades que nos tornariam singularmente humanos --- capacidades >>> >>>>> estas, aliás, que muitos humanos parecem usar com bastante >>> parcimônia. >>> >>>>> >>> >>>>> []s, João Marcos >>> >>>>> >>> >>>>> -- >>> >>>>> LOGICA-L >>> >>>>> Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área >>> de Lógica <[email protected]> >>> >>>>> --- >>> >>>>> Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo >>> "LOGICA-L" dos Grupos do Google. >>> >>>>> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails >>> dele, envie um e-mail para [email protected]. >>> >>>>> Para ver esta conversa, acesse >>> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CAO6j_Lj4d_L0%3DMr_ai9UbNhoxinqJ4KSyJwsa_6U_jBM9bMVEg%40mail.gmail.com >>> . >>> >>>> >>> >>>> -- >>> >>>> LOGICA-L >>> >>>> Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área >>> de Lógica <[email protected]> >>> >>>> --- >>> >>>> Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" >>> dos Grupos do Google. >>> >>>> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails >>> dele, envie um e-mail para [email protected]. >>> >>>> Para ver esta conversa, acesse >>> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CAA_hCxXKfspLgGUK1r%2B_AujcvM%3DAd_tPDhBxAAO95e_4dOsGNA%40mail.gmail.com >>> . >>> > >>> > -- >>> > LOGICA-L >>> > Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de >>> Lógica <[email protected]> >>> > --- >>> > Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" >>> dos Grupos do Google. >>> > Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, >>> envie um e-mail para [email protected]. >>> > Para ver esta conversa, acesse >>> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/4ffc1cb5-0e16-4292-936b-56680e8514fbn%40dimap.ufrn.br >>> . >>> >>> >>> >>> -- >>> ======================== >>> Walter Carnielli >>> CLE and Department of Philosophy >>> University of Campinas –UNICAMP, Brazil >>> >>> AI2- Advanced Institute for Artificial Intelligence >>> Blog https://waltercarnielli.com/ >>> >> >> >> -- LOGICA-L Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de Lógica <[email protected]> --- Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" dos Grupos do Google. 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