Walter, colegas, bons dias.

Vamos lá.
quantas meia dúzia de empresas com interesse no lucro havia na Firenze dos
Medici? Ou na Holanda dos Orange?
Não é um argumento, apenas constatação, q John Locke era investidor no
tráfico de escravizados, Galileo desenvolveu muitos projetos militares.
Ambos cristãos imbuídos da vontade de conhecer a verdade de Deus e
defensores do progresso do saber. Que lindo! (Também não é argumento,
apenas exclamação).

O desenvolvimento da IA é exclusivo para o lucro?

Não creio nessa exclusividade, acho q causa finais são complexas e
interagem com as eficientes. Mas toda tecnologia é uma resposta a impasses
sociais e o  movimento do capitalismo atual é regressivo, de volta à
preponderância da especulação financista q marcou sua juventude europeia. O
capital financeiro é o pior tipo de capital, segundo Adam Smith. Tendo a
concordar com ele, não tenho teoria melhor a oferecer.
Lá atrás, como hoje, a agenda de pesquisa respondia a problemas relativos à
manutenção da taxa de lucro e a crises de mão de obra e enfraquecimento de
certas instituições frente a outras. Não é tão diferente de hoje nesse
sentido. Claro, como a história não anda pra trás, evidentemente q esse
movimento de reversão neocolonial se dá segundo uma lógica
ultraespeculativa própria da nossa época, e não com os valores e crenças de
1500 ou 1600, quando o mesmo Locke podia defender q restrições morais à
acumulação representariam um freio à ganância destrutiva das empresas
colonialistas (a ressalva de q o estado de natureza deve ser preservado,
pois quem quiser pode voltar a ele, é formal: as bombas caem sobre todas as
cabeças, eleitores ou não). Hoje em dia, acho q pouca gente ainda acredita
em freios morais para a especulação, embora talvez reste o desejo de isso
seja possível. O atual movimento reacionário já levou alguns a descrever o
estado de coisas como um tecnofeudalismo. Não sei se endosso, mas é um
diagnóstico sintomático.

Minha ideia é jogar fora a peneira, nisso realmente concordo. Mas não tapar
o sol.

Mesmo assim, não quero parecer descrente. Se algum Deus há, do alto de sua
in-existência, ele há de hajar.

Abraços e bom domingo.




Cassiano Terra Rodrigues
Prof. Dr. de Filosofia - IEF-H-ITA
Presidente da Sociedade Brasileira de Lógica - SBL

Rua Tenente Brigadeiro do ar Paulo Victor da Silva, F0-206
Campus do DCTA
São José dos Campos
São Paulo, Brasil
CEP: 12228-463
Tel. (+55) 12 3305 8438

--
lealdade, humildade, procedimento

Em sáb., 23 de mai. de 2026 às 21:30, Walter Carnielli <[email protected]>
escreveu:

> Ola Cassiano,
>
> Não  se pretende negar que o desenvolvimento da ciência esteve ligado a
> empreitadas mercantis,  colonialistas ideológicas, religiosas, de
> dominação-  e nem parece necessário (re)ler O Capital para se convencer
> disso.
>
> O que eu disse é que nunca esse tipo de coisa esteve na mão de meia dúzia
> de empresas com ações na bolsa e interesse exclusivo  no lucro.
>
> Me parece que negar isso é tapar o sol sem a peneira :-)
>
> Abraços,
> Walter
>
>  ========================
>  Walter Carnielli
> CLE and Department of Philosophy
> University of Campinas –UNICAMP, Brazil
>
>  AI2- Advanced Institute for Artificial Intelligence
> Blog https://waltercarnielli.com/
>
>
>
>
>
>
> Em sáb., 23 de mai. de 2026 20:04, Cassiano Terra Rodrigues <
> [email protected]> escreveu:
>
>> Colegas, respondo apenas a um ponto aqui levantado pelo Walter.
>>
>> <<as grandes revoluções científicas foram predominantemente financiadas
>> por instituições públicas, eclesiásticas ou filantrópicas, e seus
>> resultados
>> geraram bens comuns da humanidade, por bem ou até por mal.
>>
>> A IA rompe com esse padrão >>
>>
>> Talvez eu tenha entendido mal, mas devo dizer q não posso concordar com a
>> afirmação a respeito das grandes revoluções Científicas.
>> Há bibliotecas sobre o tema da agenda burguesa capitalista sem a qual
>> sequer a física newtoniana existiria.
>> Basta pensar em Galileo.
>> Além disso, é impossível pensar o nascimento da ciência e da tecnologia
>> modernas separadamente da empresa colonialista. A não ser q a separação
>> entre teoria e prática seja de um positivismo peircista, devo reconhecer.
>> Copérnico podia estar preocupado com a verdade de Deus, mas jamais
>> haveria preocupação com o calendário da Páscoa se a necessidade mais
>> precisão na cronometragem não tivesse surgido com porque era necessário
>> navegar por mares nunca dantes navegados. A Igreja nunca foi ingênua e a
>> teologia se preocupa menos com o discurso divino do q com a maneira como os
>> homens o usam. Copérnico podia não achar, mas estava a serviço de
>> instituições econômica e socialmente interessadas no lucro. Sugiro a
>> leitura dos capítulos historicos do *Capital, *sobre a formação da
>> cooperação, da manufatura e da maquinaria, para entender o q era a Igreja
>> em decadência já no séc. XIII.
>>
>> Além disso, se avançarmos um pouco no tempo e pensarmos na consecução do
>> programa cartesiano por Newton, temos de reconhecer q Newton, na verdade,
>> "era o mais proeminente matemático de um grupo de praticantes da
>> matemática, professores, fabricantes de instrumentos, cartógrafos,
>> astrônomos e inventores que formavam a base de seu trabalho", nas palavras
>> de Ruy Gama. E eis aí a Sociedade mercantilista e o imperialismo inglês em
>> expansão (como queria Francis Bacon): o q seria da cosmologia de Newton se
>> não fosse o problema da longitude das marés? Problema aliás tb para Galileo
>> e Huygens. Sem falar na hélice e nos projéteis. E os relógios. Etc. A Royal
>> Society não era nem Cambridge nem Oxford, vivia às mínguas e buscava
>> financiamento com qualquer um q pagasse. E a Companhia das Índias
>> Ocidentais pagou bastante coisa.
>> Ou seja: há muito mais entre o céu e a terra do q supõe a vã filosofia,
>> ou a van da filosofia.
>>
>> Abraços.
>>
>>
>>
>>
>> Cassiano Terra Rodrigues
>> Prof. Dr. de Filosofia - IEF-H-ITA
>> Presidente da Sociedade Brasileira de Lógica - SBL
>>
>> Rua Tenente Brigadeiro do ar Paulo Victor da Silva, F0-206
>> Campus do DCTA
>> São José dos Campos
>> São Paulo, Brasil
>> CEP: 12228-463
>> Tel. (+55) 12 3305 8438
>>
>> --
>> lealdade, humildade, procedimento
>>
>> Em sáb., 23 de mai. de 2026, 13:39, Walter Carnielli <[email protected]>
>> escreveu:
>>
>>> Bon dias,
>>>
>>> acho muito bom que o debate continue!
>>>
>>> Existe um ponto central  filosoficamente muito importante e esquecido
>>> no caso das  IAS:
>>> as grandes revoluções científicas foram predominantemente financiadas
>>> por instituições públicas, eclesiásticas ou filantrópicas, e seus
>>> resultados
>>> geraram  bens comuns da humanidade,  por bem ou até por mal.
>>>
>>> A IA rompe com esse padrão — não nas ideias (que continuam sendo
>>> algoritmos, protocolos, etc), mas no controle, propriedade e
>>> direcionamento
>>> do desenvolvimento tecnológico. É uma questão que, penso eu, merece
>>> debate público sério. Ninguém está falando sobre isso.
>>>
>>> O negócio agora são aplicações imediatas, comerciais, divertidas- nada
>>> na direção da ciência básica. Isso está levando a um declínio no apoio
>>> à pesquisa
>>> fundamental, sem contar o declínio intelectual dos usuários em geral.
>>>
>>> A escala do financiamento privado é  sem precedentes históricos, com
>>> modelos, dados, e arquiteturas todos (ou na maioria) proprietários,
>>> ao contrário das revoluções anteriores onde o conhecimento circulava
>>> livremente.
>>>
>>> Vejamos:
>>>
>>> - Revolução Copernicana e mecânica clássica
>>>
>>> Copérnico, Galileu, Kepler e Newton foram financiados por
>>> universidades, igrejas e patronos nobres, nunca por empresas
>>> comerciais.
>>>
>>> – A eletricidade nasceu dos experimentos Michael Faraday e da teoria
>>> de James Maxwell, ambos ligados a instituições acadêmicas e sociedades
>>> científicas,
>>> sem financiamento empresarial direto.
>>>
>>> --O caso da mecanica quântica: Einstein, Bohr, Heisenberg, Schrödinger
>>> trabalhavam em universidades europeias financiadas pelo Estado. Havia
>>> bolsas de doutorado dr fundações como Rockefeller e Guggenheim . Mas
>>> não eram **encomendas**. Eram bolsas de estudo.
>>>
>>> – A internet foi desenvolvida com recursos do DARPA (Defense Advanced
>>> Research Projects Agency) do Departamento de Defesa dos EUA e da NSF,
>>> (Nat. Sc. Foundation) com base em pesquisa do MIT, UCLA, etc. É um
>>> produto essencialmente público (e militar). Mas não empresarial.
>>>
>>> Eu acho isso uma grande diferença, que formata todo o resto da
>>> discussão: o conhecimento escapando das.
>>> mãos  dos cientistas, acadêmicos, pensadores, para as mãos do capital.
>>>
>>> Abraços,
>>> Walter
>>>
>>>
>>>
>>>
>>> Em sáb., 23 de mai. de 2026 às 11:22, Cassiano Terra Rodrigues
>>> <[email protected]> escreveu:
>>> >
>>> > Bons dias, colegas.
>>> > Posso estar um pouco atrasado na conversa, não tenho frequentado tanto
>>> a lista, infelizmente.
>>> > Permitam-me divulgar uma mesa sobre IA e Ética de que participei,
>>> online, no final do ano passado.
>>> > Creio que há ressonâncias com o que aqui se discutiu, principalmente
>>> as últimas mensagens.
>>> > A minha apresentação é a primeira, mas não necessariamente a mais
>>> interessante, devo dizer.
>>> > Pretendo reelaborar a fala para a conferência da SBL na 78ª reunião da
>>> SBPC a acontecer em julho, em Niteroi. Assim, toda sugestão é bem vinda.
>>> > Eis o enlace:
>>> https://www.youtube.com/live/dM_c_M33bCs?si=EpwpWihC5eFYJdx7
>>> > Saudações,
>>> >
>>> >
>>> > On Friday, May 22, 2026 at 9:43:54 AM UTC-3 marciopalmares wrote:
>>> >>
>>> >> Lembrei de uma coisa...
>>> >>
>>> >> O Adolfo disse que não gosta de ficção científica, tudo bem. Gosto é
>>> gosto, não se discute.
>>> >>
>>> >> 'Solaris' foi um dos melhores livros que li na vida... Não vou dar
>>> spoiler, pois pode haver alguém jovem aqui, acompanhando as discussões.
>>> >>
>>> >> Outro que gostei muito quando li, acho que com uns 15 anos, foi o
>>> 'Esfera', do Michael Crichton. Este livro lembra o 'Solaris' em alguns
>>> aspectos...
>>> >>
>>> >> No 'Esfera' um matemático ocupa um papel central em uma equipe
>>> destinada a analisar uma nave alienígena encontrada no fundo do oceano.
>>> >>
>>> >> Um dos momentos mais aterrorizantes e perturbadores ocorre quando um
>>> computador usado pela equipe adquire 'consciência', parece ter sido
>>> invadido pela máquina alienígena.
>>> >>
>>> >> Nos dois casos é explorado o problema da exteriorização de nossas
>>> faculdades subjetivas: inteligência, razão, consciência, sentimentos.
>>> >>
>>> >> Este tema é recorrente na literatura porque é realmente o que sempre
>>> fizemos, desde o princípio: reunimos todas as nossas principais qualidades
>>> (solidariedade, generosidade, amor, compaixão, bondade...), exteriorizamos,
>>> objetivamos em um "outro" (deuses) e passamos a nos relacionar mentalmente
>>> com este "outro".
>>> >>
>>> >> Reunimos nossos piores atributos coletivos (violência, egoísmo...),
>>> os exteriorizamos, objetificamos em um "outro" (o mal, demônios, o que
>>> seja) e passamos a acreditar que estamos de algum modo subjugados por este
>>> "outro", que brotou de nossas próprias cabeças.
>>> >>
>>> >> Agora, conseguimos fabricar máquinas que fazem matemática sofisticada
>>> de alto nível, inédita. É uma exteriorização de nossa criatividade. Somos
>>> nós, porém exteriorizados, objetificados num "outro". Nos relacionamos com
>>> esse "outro".
>>> >>
>>> >> É um tema velho, por isso tão recorrente.
>>> >>
>>> >> Não vou fingir aqui que li Hegel. Comprei essa edição em português da
>>> Vozes, do "Ciência da Lógica" em dois volumes... Já comecei a ler e
>>> abandonei diversas vezes. Acho tremendamente difícil, praticamente
>>> ilegível. Mas alguns comentadores dizem que Hegel acreditava que o
>>> "espírito humano" se exterioriza na História, em instituições... e então se
>>> reconhece nelas. É uma boa ideia, eu acho (se for mesmo o que ele diz, não
>>> posso confirmar porque não li).
>>> >>
>>> >> É isso o que estamos fazendo com essas máquinas: estamos assombrados
>>> porque nos exteriorizamos num "outro".
>>> >>
>>> >>
>>> >>
>>> >> Em sexta-feira, 22 de maio de 2026, Eduardo Ochs <[email protected]>
>>> escreveu:
>>> >>>
>>> >>> Oi todos,
>>> >>>
>>> >>> > Que bom que ainda temos esses debates polêmicos aqui na lista.
>>> >>> > Muitos estudantes estão migrando dos fóruns de discussão entre
>>> >>> > pessoas e debatendo apenas com o ChatGPT, Claude, etc. Estão
>>> >>> > preferindo conversar com as máquinas do que a interlocução com
>>> >>> > humanos. (Acho que li no blog do Peter Smith, não tenho certeza,
>>> que
>>> >>> > houve uma diminuição no fluxo de perguntas e respostas no Math
>>> Stack
>>> >>> > Exchange...)
>>> >>>
>>> >>> Em 2025.2 eu tive uma turma em que uns 80% dos alunos eram estudantes
>>> >>> de Computação de 2o e 3o período que eram assombrações... eu passava
>>> >>> umas atividades de grupo em que eles tinham que calcular o resultado
>>> >>> de coisas como isso aqui na mão,
>>> >>>
>>> >>>   { (x,y) | x∈{-2,...,2}, y∈{-2,...,2}, y=sqrt(1-x^2) }
>>> >>>
>>> >>> e nos grupos de assombrações os alunos nem discutiam entre si e nem
>>> >>> tentavam "pensar no papel" - eles dividiam os 50 exercícios da
>>> >>> atividade entre as 5 pessoas de cada grupo, perguntavam algumas
>>> coisas
>>> >>> pro ChatGPT, e pronto: eles tinham feito o exercício "do melhor jeito
>>> >>> possível", e tinham chegado nos resultados bem rápido.
>>> >>>
>>> >>> Pra gente é bem claro que o "melhor jeito possível" de fazer o
>>> >>> exercício depende da métrica, e que tem várias métricas diferentes, e
>>> >>> que a métrica que esses alunos estavam usando era péssima, porque
>>> eles
>>> >>> não aprenderam quase nada e não treinaram quase nada. Só que pra
>>> >>> explicar pra eles quais são as métricas "melhores" a gente teria que
>>> >>> ter boas explicações do como funcionam coisas como "pensar no papel",
>>> >>> "aprender", "treinar até ficar fácil", "fazer boas perguntas", "fazer
>>> >>> perguntas que sejam úteis pros outros", etc, que fazem pouco sentido
>>> >>> pros xóvens...
>>> >>>
>>> >>> Alguém tem material sobre isso pra me recomendar? Eu acabei de
>>> >>> baixar e ler uns 10 artigos curtos da "AI & Society", que o João
>>> >>> Marcos recomendou e que eu não conhecia -
>>> >>> <https://link.springer.com/journal/146/volumes-and-issues/41-2>...
>>> >>> eu até tenho um monte de livros e artigos sobre isso que eu posso
>>> >>> mandar pra quem quiser, mas são todos bem mais antigos, e talvez
>>> >>> vocês tenham recomendações recentes...
>>> >>>
>>> >>>   [[]],
>>> >>>     Eduardo Ochs
>>> >>>     Psicopata do CEFET
>>> >>>     https://anggtwu.net/2026-alguns-motivos-bel.html
>>> >>>
>>> >>>
>>> >>> On Fri, 22 May 2026 at 08:29, Márcio Palmares <[email protected]>
>>> wrote:
>>> >>>>
>>> >>>> Que bom que ainda temos esses debates polêmicos aqui na lista.
>>> Muitos estudantes estão migrando dos fóruns de discussão entre pessoas e
>>> debatendo apenas com o ChatGPT, Claude, etc. Estão preferindo conversar com
>>> as máquinas do que a interlocução com humanos. (Acho que li no blog do
>>> Peter Smith, não tenho certeza, que houve uma diminuição no fluxo de
>>> perguntas e respostas no Math Stack Exchange...)
>>> >>>>
>>> >>>> Eu separo a dimensão sociológica, política, econômica, da dimensão
>>> puramente teórica, matemática e filosófica. Acho que misturar as coisas
>>> prejudica nossa compreensão. Sou comunista de carteirinha, desde os 17
>>> anos. Poderia discutir o aspecto sociológico também, mas não é tão
>>> significativo, pois não tem nada de novo. Todas as tecnologias são
>>> mercadorias. Na verdade, todo trabalho humano assume a forma mercadoria no
>>> capitalismo. Toda tecnologia é explorada por corporações grandes ou
>>> pequenas com o objetivo exclusivo de conseguir lucro, mais concentração de
>>> poder, mais concentração de capital.
>>> >>>>
>>> >>>> "Parece que o resultado em questão se deve mais ao desejo da OpenAI
>>> de concorrer com a Antrophic --publicidade, portanto-- do que de uma
>>> verdadeira preocupação com a pesquisa matemática".
>>> >>>>
>>> >>>> Este contraponto é como dizer: "Parece que o fato de a Coca-Cola
>>> estar vendendo água mineral se deve mais ao desejo de a empresa de obter
>>> lucros do que uma verdadeira preocupação com a hidratação das pessoas."
>>> >>>>
>>> >>>> É um ataque contra um espantalho. Toda empresa busca lucro, faz
>>> publicidade, vende sua mercadoria, concorre no mercado com outras empresas,
>>> assedia o governo dos países onde está instalada para ter vantagens,
>>> explora sua força de trabalho...
>>> >>>>
>>> >>>> Não há novidade alguma aqui. Talvez um aspecto meio novo:
>>> normalmente, áreas de ponta em tecnologia estão ligadas a complexos
>>> estatais-militares, como no caso da energia atômica. Aqui um setor privado
>>> é o propulsor da ferramenta, e vem adquirindo cada vez mais poder e
>>> influência sobre os governos (veja-se o 'artigo' recente da Anthropic sobre
>>> 'geopolítica', onde a empresa prevê um apocalipse caso o 'ocidente' perca a
>>> liderança em IA para a China. Realmente a Anthropic está preocupada com a
>>> opressão dos chineses? Ou está de olho no fluxo de investimentos que pode
>>> vir do governo dos EUA?).
>>> >>>>
>>> >>>> A IA na forma atual é um problema humano, ambiental? Claro que sim.
>>> Tanto quanto os agrotóxicos, os microplásticos, os desastres climáticos...
>>> Mas essa dimensão não é relevante filosoficamente. É relevante para a
>>> política diária. Mas a escala de tempo dos problemas filosóficos é outra.
>>> Sistemas econômicos mudam, a filosofia fica.
>>> >>>>
>>> >>>> A Profa. Tatiana Roque da UFRJ escreveu um artigo na Folha de São
>>> Paulo fazendo esse contraponto sugerido pela Gisele na postagem anterior,
>>> uma visão mais histórica, mais filosófica, menos 'entusiamo ingênuo' e mais
>>> 'senso crítico'. Foi publicado no momento em que o Marcelo Viana estava
>>> terminando a série de colunas dele sobre a IA na matemática. Claramente,
>>> são pontos de vista opostos. Reproduzo abaixo, na íntegra, o artigo da
>>> Tatiana Roque. É ilustrativo em vários aspectos. No entanto, em minha
>>> opinião, expressa uma reação conservadora diante da novidade filosófica,
>>> epistêmica.
>>> >>>>
>>> >>>> Peguei o termo "revolução científica" do ensaio do Bessis,
>>> divulgado pela Valéria, com o qual começamos a discussão. Acho que ele está
>>> correto.
>>> >>>>
>>> >>>> Acho que estamos atravessando essa revolução e ainda tentando
>>> entender o que será este mundo novo que emergirá dela, quando ela se
>>> completar. Minha aposta: surgirá uma era de 'transcognitivismo' (para
>>> confrontar com 'trans-humanismo'). Sem descartar a hipótese de ciborgues ou
>>> coisas do tipo, o que parece estar surgindo é uma cognição híbrida: uma
>>> colaboração cada vez maior do homem com a máquina. E o interessante é que,
>>> agora, a máquina pode nos surpreender, criar matemática nova. Não é apenas
>>> força bruta. É exteriorização de nossa criatividade. Essa colaboração
>>> provavelmente mudará o modo como pensamos em matemática, fazemos matemática.
>>> >>>>
>>> >>>> Vou ler agora o artigo que o João Marcos sugeriu, sobre
>>> comportamentalismo versus cognitivismo, para ver se entendo o ponto.
>>> >>>>
>>> >>>> Segue o artigo da Tatiana Roque:
>>> >>>>
>>> >>>> -x-x-x-
>>> >>>>
>>> >>>> 'Hype da IA' não pode rebaixar o pensamento humano e bloquear
>>> debate sobre a tecnologia
>>> >>>>
>>> >>>> Com avanço da IA, a capacidade de máquinas passa a definir o
>>> significado da inteligência humana
>>> >>>>
>>> >>>> Fase de superexcitação com a tecnologia está de volta, mas a
>>> história mostra que destino não é inexorável
>>> >>>>
>>> >>>> Tatiana Roque
>>> >>>>
>>> >>>> [RESUMO] Em reflexão sobre as raízes históricas da inteligência
>>> artificial, autora retoma a previsão do matemático Alan Turing, que propôs
>>> que o debate sobre o significado do pensamento humano seria esquecido no
>>> final do século 20 com o fim dos questionamentos sobre a inteligência das
>>> máquinas. Hoje, a falta de humildade epistêmica em um período de
>>> desenvolvimento acelerado da tecnologia pode causar grandes catástrofes.
>>> >>>>
>>> >>>> ×
>>> >>>>
>>> >>>> Paris inteira correu para ver o flautista. Pessoas de todas as
>>> idades tentavam achar um bom ângulo para assistir àquele espetáculo
>>> inusitado.
>>> >>>>
>>> >>>> Na grande estreia daquela noite, o músico era um autômato. A
>>> máquina havia sido construída pelo mecânico francês Jacques de Vaucanson e
>>> fazia movimentos contidos em cima de um pedestal. Mais do que um suporte,
>>> escondia-se ali o mecanismo engenhoso que dava vida ao flautista. O público
>>> saiu encantado com a precisão da performance, que foi destaque nos jornais
>>> daquele janeiro de 1738.
>>> >>>>
>>> >>>> Sempre fui fascinada por brinquedos de corda, feitos de metal, com
>>> pintura delicada e colorida. Na minha estante de livros, tenho um
>>> carrossel, um pintinho, um elefante, um pião e um humanoide, todos com
>>> aquela aura retrô.
>>> >>>>
>>> >>>> Quando chego cansada do trabalho, costumo dar corda no pintinho
>>> para vê-lo ciscar compulsivamente em cima da mesa, até o mecanismo se
>>> exaurir. Já o carrossel toca Edith Piaf enquanto gira cavalos e
>>> demoiselles. Em nenhum momento, esqueço que são engenhos mecânicos. Ao
>>> contrário, é isso que têm de encantador.
>>> >>>>
>>> >>>> Até que ponto as máquinas podem imitar seres humanos? Essa pergunta
>>> vem de longe. Ninguém achava, no século 18, que o flautista iria superar um
>>> músico de carne e osso. Para isso, seria preciso reproduzir a
>>> característica humana mais singular: a inteligência.
>>> >>>>
>>> >>>> Ao longo do século 19, foram muitas as tentativas de imitar essa
>>> faculdade, especialmente com a invenção das primeiras máquinas de calcular,
>>> propostas por Charles Babbage para substituir o trabalho mental. O avanço
>>> da computação, durante a Segunda Guerra Mundial, tornou a questão mais
>>> urgente ao fim do conflito.
>>> >>>>
>>> >>>> Em 1950, surgiu um teste para verificar se a inteligência dos
>>> computadores pode se equiparar à humana. A proposta foi feita pelo
>>> matemático Alan Turing, conhecido como um dos pais da computação, no artigo
>>> "Máquinas de computação e inteligência". Apesar de celebrado como inventor
>>> da "inteligência artificial", ele não usava esses termos.
>>> >>>>
>>> >>>> Sou historiadora da ciência e, nessa profissão, partimos da
>>> premissa de que investigar a obra de um cientista exige recuperar as noções
>>> como por ele empregadas, sem encaixá-las retrospectivamente nas
>>> denominações atuais. Olhar o passado com os olhos do presente é
>>> anacronismo, vício a ser evitado na prática da história. De fato, Turing
>>> queria saber se as máquinas podem pensar, mas formulou a pergunta em termos
>>> peculiares, que podem passar despercebidos aos olhares açodados de hoje.
>>> >>>>
>>> >>>> Antes de investigar se as máquinas podem pensar, seria preciso
>>> responder à pergunta: o que caracteriza o pensamento humano? Mas essa
>>> questão é difícil demais, e Turing faz um desvio:
>>> >>>>
>>> >>>> "Acredito que a pergunta original, 'as máquinas podem pensar?', é
>>> insignificante demais para merecer discussão. No entanto, acredito que, no
>>> final do século, o uso das palavras e a opinião geral das pessoas
>>> instruídas terão mudado tanto que será possível falar de máquinas pensando
>>> sem esperar ser contrariado."
>>> >>>>
>>> >>>> A previsão é espantosa, além de profética: a busca pelo significado
>>> do que é pensar será esquecida até o final do século 20 e, só assim, será
>>> possível falar de máquinas pensando sem ser contrariado. É exatamente o que
>>> está acontecendo hoje. Não parece mais importar o que há de especial na
>>> inteligência ou no pensamento ou até onde o ser humano pode levar o
>>> exercício dessas faculdades. Basta saber como são percebidas em seu uso
>>> mais comum. Chamamos esse fenômeno de demônio de Turing.
>>> >>>>
>>> >>>> A percepção é uma faculdade traiçoeira, contaminada por interesses.
>>> E se estivermos enganados a cada vez que nossos sentidos nos fizerem crer
>>> que observamos algo real? Esse é um dilema da filosofia desde a caverna de
>>> Platão.
>>> >>>>
>>> >>>> A dificuldade se agrava com a pergunta de Descartes: e se
>>> estivermos equivocados a cada vez que tivermos uma certeza? Um gênio
>>> maligno poderia estar nos enganando, diz o filósofo francês. Mesmo verdades
>>> básicas e aparentemente inquestionáveis, como as verdades matemáticas (2 +
>>> 3 = 5), poderiam ser falsas e a certeza que experimentamos sobre elas
>>> talvez seja obra do demônio.
>>> >>>>
>>> >>>> A hipótese do gênio maligno, o demônio de Descartes, é uma forma de
>>> nos convencer sobre a necessidade de um método rigoroso para obter certezas.
>>> >>>>
>>> >>>> Turing não era filósofo. Preocupado com critérios práticos para
>>> avaliar a performance dos computadores, propôs substituir a pergunta "as
>>> máquinas podem pensar?" por um teste, chamado de jogo da imitação. Uma
>>> máquina e uma pessoa humana devem responder a perguntas, posicionados de
>>> forma que um júri, encarregado de avaliar as respostas, não consiga ver de
>>> onde elas vieram. Se o júri errar, ou seja, se avaliar como humanas as
>>> respostas fornecidas pela máquina, ela pode ser dita inteligente.
>>> >>>>
>>> >>>> Vejam a ironia: Turing não estava tentando desvendar os mistérios
>>> do pensamento humano, apenas provar que isso não é necessário para dizer se
>>> uma máquina se equipara a um ser humano na tarefa de responder a perguntas.
>>> Diferente do flautista, que escondia seu maquinário dentro do pedestal, o
>>> jogo da imitação requer um ser humano escondido. Rebatizado mais tarde de
>>> teste de Turing, o desafio sugere que a máquina pode ser equiparada à
>>> inteligência humana se conseguir iludir pessoas de carne e osso.
>>> >>>>
>>> >>>> A ideia de inteligência artificial surgiu um pouco depois, em 1956,
>>> quando um professor do Dartmouth College, John McCarthy, convocou
>>> pesquisadores de peso das áreas de computação, neurociências e cibernética
>>> para uma conferência. Como estratégia para tornar o convite sedutor,
>>> incluiu um termo chamativo na proposta: inteligência artificial.
>>> >>>>
>>> >>>> Tratava-se de um nome novo para os estudos sobre autômatos, mas não
>>> só. O objetivo era avançar na conjectura de que qualquer característica da
>>> inteligência pode ser descrita com tanta precisão que é possível treinar
>>> uma máquina para simulá-la. Nessa época, o tipo predominante de
>>> inteligência artificial era bem diferente da atual, mais influenciada pela
>>> lógica do que pela estatística.
>>> >>>>
>>> >>>> Essa IA clássica costuma ser chamada de Gofai, um acrônimo para
>>> "good old-fashioned AI" (digamos, a boa e velha IA). Dito de modo resumido,
>>> a IA simbólica aprendia a partir de regras explícitas, ao contrário das
>>> técnicas atuais, que se apoiam na enorme quantidade de dados disponíveis na
>>> internet.
>>> >>>>
>>> >>>> Naquela época, já se falava em redes neurais, ideia que está na
>>> base da IA de hoje. Mas apenas nos anos 1990, com o avanço do poder
>>> computacional, ela passou a exibir resultados satisfatórios. As diferenças
>>> entre a Gofai e as redes neurais são difíceis de explicar, mas o
>>> contraponto ajuda a lembrar que não existe apenas um caminho.
>>> >>>>
>>> >>>> A história da IA é marcada por surtos periódicos de superexcitação
>>> intercalados com os chamados invernos da IA, nos quais os limites se tornam
>>> aparentes, o entusiasmo se esvai e o financiamento é cortado.
>>> >>>>
>>> >>>> Durante a década de 1960, abordagens simbólicas obtiveram sucesso
>>> na simulação de comportamentos inteligentes em jogos, matemática simbólica
>>> ou demonstração de teoremas. Depois, o investimento declinou. O ano de 1973
>>> foi um marco, com publicações jogando um balde de água fria nos métodos
>>> usados até ali e mudando o foco da pesquisa. O entusiasmo retornou, até que
>>> as promessas não cumpridas culminaram em outra reação negativa na década de
>>> 1980.
>>> >>>>
>>> >>>> Estaríamos retornando à fase de superexcitação? Será que ela vai
>>> demorar? Parece que sim, mas o senso histórico ajuda a lembrar que não se
>>> trata de um destino inexorável.
>>> >>>>
>>> >>>> Nossa definição de inteligência está mudando com o avanço da IA. É
>>> normal que os conceitos mudem de sentido, mas precisamos estar atentos para
>>> que essa mudança não acabe diminuindo o potencial da inteligência humana e
>>> bloqueando um debate franco sobre os rumos da tecnologia.
>>> >>>>
>>> >>>> Na matemática, existe uma grande diferença entre resolver problemas
>>> e formulá-los. Em geral, não se percebe isso, pois o ensino básico é
>>> excessivamente focado em resolver problemas, como usar a fórmula de
>>> resolução de equações do segundo grau, encontrar a soma dos termos de uma
>>> progressão aritmética ou multiplicar matrizes. Um matemático profissional
>>> não faz nada disso. Ele propõe novos problemas. Se forem bons, esses
>>> problemas podem virar teoremas, motivar boas teses de doutorado ou ser
>>> aplicados a outras áreas. Costumo dizer que os problemas são o motor da
>>> matemática.
>>> >>>>
>>> >>>> Neste momento, grandes cientistas e empresários comemoram o sucesso
>>> de uma ferramenta de IA na Olimpíada Internacional de Matemática. Os
>>> entusiastas correm para dizer que estamos diante de uma inteligência
>>> artificial comparável à dos humanos, já que a matemática é símbolo de
>>> inteligência.
>>> >>>>
>>> >>>> De fato, a IA é uma ótima resolvedora de problemas, mas estamos
>>> longe de vê-la inventar problemas consistentes, ofício de todo bom
>>> cientista. À frente da empresa ligada ao Google que criou a ferramenta
>>> vitoriosa nas olimpíadas, Demis Hassabis reconhece essa diferença entre
>>> resolver e inventar problemas. Os grandes avanços da ciência dependem da
>>> formulação de boas perguntas, não só das respostas certas.
>>> >>>>
>>> >>>> Luciano Floridi é um filósofo que tem refletido sobre as
>>> implicações éticas da IA. Para ele, a inteligência artificial de hoje é uma
>>> dissociação entre a resolução bem-sucedida de problemas e o comportamento
>>> inteligente. Dissociação é uma palavra forte. Ela sugere que o
>>> comportamento inteligente não está sendo mobilizado, em toda a sua
>>> amplitude, quando a IA executa as tarefas necessárias para resolver
>>> problemas, pois estão ausentes a consciência, a perspicácia, a
>>> sensibilidade, os insights, a experiência e a sabedoria.
>>> >>>>
>>> >>>> Mesmo sem nenhuma dessas capacidades humanas, a IA fornece soluções
>>> convincentes, mas graças às técnicas avançadas para processar enormes
>>> quantidades de dados produzidos pelos seres humanos.
>>> >>>>
>>> >>>> O sucesso da IA depende de uma construção pouco explícita: foi
>>> criado um ambiente favorável, no qual as tecnologias inteligentes se sentem
>>> em casa. Vivemos agarrados a nossos celulares, os objetos da casa se tornam
>>> smart, a TV e o fogão vêm com um assistente de bordo inteligente, os
>>> veículos possuem chips e um GPS nos acompanha. Tudo isso deixa rastros em
>>> dados e mais dados.
>>> >>>>
>>> >>>> Talvez o mundo esteja se adaptando à IA, e não o contrário, do
>>> mesmo modo como nossas mãos adquirem a forma de um celular, nossas relações
>>> reais refletem traços de nosso comportamento nas redes sociais e nosso
>>> cérebro apodrece com o tempo gasto na internet, como descrito no chamado
>>> "brain rot".
>>> >>>>
>>> >>>> O demônio de Turing é o gênio maligno que nos leva a avaliar nossa
>>> própria inteligência a partir do que a máquina é capaz de fazer. Esse é um
>>> risco invisível nas discussões sobre o futuro e o poder da IA. Uma
>>> redefinição vai se firmando, sem que os termos estejam explícitos. Só então
>>> "será possível falar de máquinas pensando sem esperar ser contrariado",
>>> exatamente como Turing previu.
>>> >>>>
>>> >>>> As ideias vão se adequando aos ares do tempo de tal maneira que nem
>>> sequer estranhamos quando um caminhão autônomo é considerado uma façanha da
>>> inteligência artificial, mesmo que até há pouco tempo não achássemos que
>>> dirigir fosse uma atividade inteligente.
>>> >>>>
>>> >>>> Os avanços dos próximos anos serão velozes e precisaremos de
>>> critérios para avaliar se estamos realmente perto de uma inteligência
>>> artificial equiparável à dos humanos. Pode ser útil examinar se ela sabe
>>> inventar problemas tão bem quanto um bom matemático —e o mesmo vale para a
>>> arte e outras áreas criativas, que dependem mais de perguntas consistentes
>>> do que de respostas eficazes.
>>> >>>>
>>> >>>> Os debates sobre inteligência artificial são envolvidos por muito
>>> hype. Isso atrapalha uma conversa franca sobre suas consequências, desde os
>>> impactos no mundo do trabalho até o uso dos recursos naturais. Encantamento
>>> e ocultamento são dois lados do mesmo demônio, distrações que terminam por
>>> esvaziar nossa agência e desmobilizar a ação política necessária para
>>> incidir nos rumos da IA. Não é uma tarefa fácil, mas a história nos lembra
>>> que há técnicas diversas e algumas podem ser mais úteis do que outras se
>>> fixarmos o bem comum como objetivo.
>>> >>>>
>>> >>>> "Não acredite no hype da IA" é o título de um artigo de Daron
>>> Acemoglu, prêmio Nobel de Economia. Ele mostra, com riqueza de dados, que
>>> os ganhos de produtividade, por enquanto, são modestos e a "automação pelo
>>> prazer de automatizar" amplia as desigualdades sociais. Acemoglu é um dos
>>> defensores mais eloquentes da ideia de que devemos direcionar o curso da
>>> mudança tecnológica e não aceitar o caminho atual como inevitável.
>>> >>>>
>>> >>>> Húbris é um conceito de origem grega, comumente associado à
>>> soberba. Os mitos antigos advertiam para o perigo de se superestimar a
>>> contribuição humana diante de grandes conquistas. Quando obtêm sucesso
>>> importante em algum feito, como vencer guerras ou inventar ferramentas
>>> poderosas, os humanos correm o risco de subestimar o papel da fortuna e
>>> achar que tudo é fruto de sua própria genialidade.
>>> >>>>
>>> >>>> Mais uma vez, o demônio está à espreita, só que o excesso de
>>> confiança irrita os deuses. A sensação de invulnerabilidade e a falta de
>>> humildade epistêmica que a húbris enseja podem despertar a ira dos deuses e
>>> ocasionar grandes catástrofes. Precisamos evitá-las, e redirecionar o uso e
>>> as prioridades no desenvolvimento da IA é parte dessa missão.
>>> >>>>
>>> >>>> ***
>>> >>>>
>>> >>>> Este texto é uma versão adaptada da introdução de "A Máquina e Nós:
>>> Promessas e Armadilhas da Inteligência Artificial", que será publicado pela
>>> Todavia em junho.
>>> >>>>
>>> >>>>
>>> >>>>
>>> >>>>
>>> >>>>
>>> >>>>
>>> >>>>
>>> >>>> Em quinta-feira, 21 de maio de 2026, Joao Marcos <[email protected]>
>>> escreveu:
>>> >>>>>
>>> >>>>> Márcio Palmares escreveu:
>>> >>>>> >
>>> >>>>> > Seres humanos exteriorizam sua imaginação criando ferramentas,
>>> máquinas, tecnologia.
>>> >>>>> >
>>> >>>>> > Agora, exteriorizamos nosso pensamento matemático, ou certas
>>> porções dele. De um machado de pedra para uma máquina capaz de fazer
>>> matemática... Podemos delegar à máquina a resolução de alguns problemas. E
>>> ela pode se sair melhor do que nós em certos casos (do mesmo modo que uma
>>> escavadeira se sai melhor do que um indivíduo com uma pá). Mas não se trata
>>> de força bruta. Este caso mostra criatividade, engenhosidade:
>>> exteriorização de faculdades humanas.
>>> >>>>> >
>>> >>>>> > Para um materialista no sentido filosófico, isso tudo é
>>> surpreendente em um único sentido: somos matéria estelar que adquiriu vida
>>> e consciência (Carl Sagan). Somos máquinas biológicas. Se fosse impossível
>>> construir máquinas capazes de imitar certas faculdades humanas
>>> (inteligência matemática), então nós não existiríamos.
>>> >>>>>
>>> >>>>> No que diz respeito ao advento das LLMs e a nossa reflexão acerca
>>> das
>>> >>>>> suas capacidades, lembrei-me deste artigo:
>>> >>>>>
>>> >>>>> Cognitivism prevents us from understanding artificial intelligence
>>> >>>>> https://link.springer.com/article/10.1007/s00146-025-02583-5
>>> >>>>>
>>> >>>>> Será que é mesmo o caso de reavivarmos a chama do
>>> comportamentalismo,
>>> >>>>> em detrimento do cognitivismo?
>>> >>>>>
>>> >>>>>
>>> >>>>> Gisele Dalva escreveu:
>>> >>>>> > Nem tudo o que reluz é ouro, já diz a cantiga de capoeira, e dar
>>> uns passos atrás antes de preconizar grandes e radicais mudanças em alguma
>>> prática científica pode ser uma boa atitude.
>>> >>>>>
>>> >>>>> Eu não hesitaria em afirmar que as mudanças trazidas pelas LLMs à
>>> >>>>> prática matemática são, com efeito, grandes e radicais.
>>> >>>>>
>>> >>>>> Querendo ou não, nunca mais voltaremos a fazer buscas da forma como
>>> >>>>> fazíamos outrora.  E isso me faz recordar o clássico artigo
>>> >>>>> "Intelligent machinery", escrito pelo patrono da "Filosofia da
>>> >>>>> Inteligência", Alan Turing, no qual ele discute, entre outras
>>> tantas
>>> >>>>> questões, "the idea that intellectual activity consists mainly of
>>> >>>>> various kinds of search".  Pois a coisa está funcionando, e está,
>>> sim,
>>> >>>>> desmistificando um bom bocado a ideia romantizada acerca das
>>> >>>>> capacidades que nos tornariam singularmente humanos --- capacidades
>>> >>>>> estas, aliás, que muitos humanos parecem usar com bastante
>>> parcimônia.
>>> >>>>>
>>> >>>>> []s, João Marcos
>>> >>>>>
>>> >>>>> --
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>>> de Lógica <[email protected]>
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>>>
>>> --
>>>  ========================
>>>  Walter Carnielli
>>> CLE and Department of Philosophy
>>> University of Campinas –UNICAMP, Brazil
>>>
>>>  AI2- Advanced Institute for Artificial Intelligence
>>> Blog https://waltercarnielli.com/
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LOGICA-L
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