Cavaleiro andante
Cefas Carvalho
Sou um cavaleiro andante. Por Deus que, com minha arma e meu escudo, honrarei o
brasão de minha família e não perecerei nas mãos destes malditos que me
perseguem! Se me escondo neste aposento escuro deste castelo amaldiçoado é
porque os infiéis são em grande número e preciso permanecer vivo para defender
meu rei e meu castelo. Os malditos querem me capturar e me submeter a
incontáveis torturas. Ouço ruídos e percebo que os vilões estão atrás de mim.
Preciso fugir deste calabouço e partir para minhas nobres epopéias, matando
dragões e salvando donzelas. Sou um cavaleiro andante, repito, e com minha
armadura e minhas armas, levo a justiça até os confins do Reino, com a benção
do meu rei, imperador destas terras, e de Deus Nosso Senhor. Empunho minha
espada sagrada e aguardo os ímpios adentrarem o aposento. Gritos de guerra e
urros quase bestiais. Percebo que a legião de feiticeiros, todos de branco,
começa a me cercar. Dois dos mandriões carregam consigo um pano mágico, com o
qual querem me aprisionar. Outro feiticeiro tem entre os dedos a agulha do
demônio... Não se aproximem de mim, seres infernais, afastem-se de um cavaleiro
ungido pelo rei, larguem-me cães do inferno...
*
- João, onde coloco essa vassoura?
- Lá no almoxarifado. Rapaz, hoje o homem estava brabo. Ele segurava a vassoura
como se fosse uma espada...
- Esse aí está cada vez mais doido. Trabalhar em hospício é assim mesmo, meu
caro...
- Mas com a injeção que tomou, vai dormir até amanhã. Ei, hoje tem jogo lá no
caminho do bairro?
- Rapaz, acho que sim. Bater uma bola é bom depois de um dia desses. E o cara
gritando que ia salvar princesas, hein?...