O Jantar
 
Cláudia Magalhães
 
 
 
      Minha pequena lua, ele dirá sussurrando ao meu ouvido, sob o som sensual 
de Guess who, de B.B. King. Alguém, realmente, te ama... Quem será?, 
perguntarei e ele me responderá com um sorriso tão doce e tão suave quanto o 
vinho... Interrompendo e excitando o tempo, tão veloz quando encontra a paz, 
jantaremos a luz de velas... Com a confiança de um amor invisível aos olhos da 
morte, faremos amor com o céu ao alcance das mãos e comeremos estrelas...
      Pensava em como seria maravilhosa aquela noite, enquanto caminhava 
ansiosa para casa. Comemoraríamos seis anos de casados. Como eu o amo, pensei 
apertando a aliança entre os dedos. Senti uma forte pontada no peito ao lembrar 
das ofensas trocadas na noite anterior. Foram juras de ódio eterno em meio a 
garrafas vazias, copos quebrados e dor, muita dor... Juro pela minha alma que a 
partir desta noite a minha boca me será fiel.  Essa noite, com um delicioso 
jantar, arroz com frutos do mar, que ele adora, vou agradecê-lo pela dedicação, 
amor e carinho de todos os dias... Sempre que brigamos, eu faço um jantar 
especial e rapidamente fazemos as pazes... Sempre foi assim... Trocaremos 
inúmeras declarações de amor e caminharemos juntos, sem competição, na mesma 
velocidade, como quem segue a própria imagem num espelho..., pensava enquanto 
abria a porta do apartamento. Um vento forte e frio interrompeu os meus sonhos. 
Um cheiro insuportável, de algo ameaçador, me causou um forte calafrio na 
espinha. Corri a passos largos em direção ao nosso quarto. Abri o guarda-roupa 
do lado direito. Vazio. O meu corpo foi tomado por uma paralisia horrível. 
Imóvel, senti o meu coração agitar-se, violento, imenso em meu peito...
      Desde esse dia, existe uma eternidade entre os segundos. O tempo é muito 
lento ao lado do tormento. Sou mais uma vítima que o monstro do amor devorou. 
Não encontro saída. O meu sangue virou um mar de lágrimas. A minha alma, 
flutuando sobre ele, ferida, grita a todo instante: Mate-o! Mate esse maldito 
amor! Sinto uma vontade selvagem de matá-lo, mas quanto maior é a minha 
vontade, maior é a saudade que sinto do que se foi e do que não vivi...
      O que me resta dizer? O meu amor me fez comer estrelas. Hoje, tenho 
verrugas no coração.
 
 
  

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