Na rua existe um cachorro
latindo as broncas da noite.

Esse latido se cala
durante a hora do dia.

É que o cachorro sabe
pertencer o dia ao homem.

Quando é dia, brigue o homem;
se é noite, o cão tome conta.

Escuta: guarda os olhos
pra depois,
não será preciso, porém,
fechá-los.

É tempo de ver
a mão: o tato
entendendo o escuro.

É tempo de ter
o fato: o muro
escondendo o rosto.

Os olhos são
apenas necessários:
para acertar no muro,
descobrir o rosto,
provocar o claro.

É tempo: de assumir
a hora
correndo
sem muita pressa.

Rubens Lemos

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