Imagino que o pior vai ser - não para mim, que tenho Dacio em muito boa conta - gente morrer de saudades da gestão que findará...
Se 'omenos' vier Iapery, ainda vá lá, pelo menos é um homem das artes, mas um sub indicado de ....secundado por uma 'ruma' de artista de quarta ou quinta categoria, verdadeiros garachués das artes, afe! Ainda bem que moro longe! e mais longe vou 'pastar'! Oswaldo 2008/11/2 augustolula <[EMAIL PROTECTED]> > Dácio Galvão: "Cultura não é área de assistência social" > Presidente da Capitania das Artes faz balanço da gestão e analisa setor > cultural da cidade. > Por Alex de Souza e Zenaide Castro > > Nasemana - Qual a avaliação que você faz desses quatro anos de gestão? > Dácio Galvão - Nós conseguimos estabelecer uma parceria na cidade, com os > setores organizados na cultura, e isso foi, digamos assim, um divisor, um > marco na nossa gestão. Porque só compartilhando, só dividindo é que a gente > pôde pensar e fomentar a cultura local. > > Na medida em que esse descentramento do discurso passou a ser pragmatizado, > eu acho que em vários setores a gente pôde fluir, pôde desenvolver um > trabalho que tivesse a ver com o localismo cultural mesmo, né? Traduzindo, > eu quero dizer o seguinte: tudo que a gente pensou, nós pensamos nessa > relação, digamos, dialética, da cultura local num diálogo com a cultura > nacional. Vejo que esse resultado de mediação, de fomentação, que a > instituição fez, democratizou o acesso dos artistas, dos produtores, dos > intelectuais, à própria instituição. > > Então, nós conseguimos instaurar um tipo de relação com vários segmentos da > população - e isso também parte de uma cultura de um gestor maior que é > Carlos Eduardo. Ele nunca pegou um telefone para ligar mim para intervir > nisso ou naquilo, nunca houve isso. Isso naturalmente tem que ser dividido > com ele, porque ele traça o objetivo maior da ação política. Nesse ponto, > trabalhei muito à vontade. Não sofri pressão dessa ordem, o que eu diria que > não é comum, ou não era comum na cidade. > > Nessas parcerias com ONGs, com setores organizados, nós estabelecemos um > fortíssimo calendário cultural para a cidade. Paralelamente a isso, nos > preocupamos com o caráter formativo. Instituímos bases de formação na área > de cultura muito sólidas, de muito boa qualificação. A Zona Norte é um > exemplo típico. A gente conseguiu requalificar o Espaço Chico Miséria, que > era um espaço de lazer, num conceito mais linear do termo, e transformamos > num espaço cultural. Nisso hoje temos instalados uma média contínua de quase > 900 alunos na área de música, com bons professores. > > Ao mesmo tempo, conseguimos levar para lá a primeira escola de formação > teatral com reconhecimento técnico, pelo Ministério da Educação. As > informações que tenho é que essa é a segunda do país. Isso é um ganho > fundamental, importante para a cidade. Conseguimos levar para lá um Núcleo > de Formação em Artes Visuais. Na banda sinfônica, trouxemos grandes maestros > para dar cursos de capacitação. Fizemos aí, no mínimo, 60 concertos > educativos da banda sinfônica. Desafio qualquer administração a ter feito > isso. > > O Balé da Cidade ganhou um corpo, na área contemporânea, mais estimulante. > No Balé Escola, com quase 400 alunos em processo formativo, a cada ano, o > espetáculo se baseou numa lenda de Cascudo, para se fixar um interesse maior > na obra de um intelectual local. O próprio Auto de Natal é uma escola a cada > ano para os atores, atrizes e bailarinos que por lá passam. Você gera uma > possibilidade de utilizar, a cada edição, 600 novos artistas. > > Para você ter uma idéia, em todas as edições do Auto você tinha apenas um > grupo de bailarinos que participavam. Nós mantivemos na primeira edição, por > uma questão de respeito, para a partir daí promover essa mudança, com novos > atores, novos bailarinos e sem atração global. Você sabe que aqui em Natal e > no Rio Grande do Norte você tem várias companhias teatrais, mas tem oito que > monopolizam a estrutura do teatro e da dramaturgia. A gente ousou nesse > sentido em intervir. > > E tem o espaço Jesiel Figueiredo, que nós assumimos nos últimos meses, que > está com Grimário Dantas à frente, onde nós estamos trazendo a influência da > música e das danças urbanas. Estamos com a coleção Letras Natalenses com 16 > edições lançadas até o fim do ano. São conteúdos permanentes. Quero crer que > essa linha editorial que nós implantamos tem uma contribuição enorme a ser > dada para a boa literatura do estado. > > Nasemana - Dentre as realizações da Capitania, o maior investimento se deu > na consolidação do calendário cultural, principalmente do Natal em Natal. > Você acredita que esse evento realmente 'pegou' na cidade e que ele chega a > fazer diferença no turismo? > > Dácio Galvão - Eu não tenho dados estatísticos para isso. Não seria eu a > pessoa. O que posso dizer é que a própria imprensa noticiou o aporte de > pessoas que lá se fizeram presentes. Acho que não posso fazer um evento sem > gente. O que eu tomei conhecimento pela própria imprensa, das quantificações > do Corpo de Bombeiros, da Polícia Militar, é que a gente conseguiu manter a > média em 25 mil pessoas. Não conheço nenhum outro evento da cidade que tenha > esse fator agregador. E gratuito. > > Esse projeto Natal em Natal não fui eu, nem foi Carlos Eduardo, nem foi > essa prefeitura [quem criou]. Ele já havia. Agora havia teoricamente. A > gente apenas deu forma, que pode ser aperfeiçoada. Ninguém tem salto alto, > nem a última voz. Não. Acho que a cidade tem potencial altíssimo, ela > precisa avançar os mecanismos mais e mais. E acho que a gente deu uma boa > colaboração. > > Quais os museus existentes em quatrocentos e poucos anos da cidade? Nenhum. > Nós geramos dois. São museus definitivos? Não. Agora, foi uma grande idéia, > foi. Não tenha dúvida. Não quero fazer uma prestação de contas a você do que > a gente fez. O que eu quis passar é que me preocupa uma certa chapa-branca > na imprensa de querer dicotomizar e diminuir essas coisas. Acho isso > atrasadíssimo. > > Não tem uma cidade do país, da América Latina, do Caribe, do mundo hoje que > não tenha que trabalhar com evento. O capitalismo venceu no século 21, > existe uma cadeia produtiva, ela é incontestavelmente irrefreável. E é > necessário que a cidade possa intervir com isso. Agora, intervir de uma > forma que se preserve, dentro do processo de globalização, que tenha > consciência aguçada em seus valores, na sua identidade, sem xenofobismo. > Acho que esse calendário deve ser ampliado, deve ser mantido e esses setores > devem cada vez mais exigir, como exigem da gente. > > Nasemana - Dentre os eventos do calendário, Carnaval, São João, Natal, tem > algum que não ficou do jeito que você planejava, que poderia ser diferente? > Dácio Galvão - Acho que o São João é o que tem o maior ranço do > clientelismo. Nós fizemos um grande esforço e conseguimos avançar, mas diria > que não avançamos muito. Porque eu considero que a competitividade tem que > acabar. A gente sabe que os dois grandes sistemas de comunicação hoje, Globo > e SBT, ditam os concursos juninos. E estipulam fórmulas.Acho que o poder > público tem que detonar aquilo e apoiar as comunidades nos arraiás. E sem > competição. Porque senão vira mercado. Vira mesmo. É complicado isso. > > Agora, é preciso ousar, ter coragem para promover uma mudança nisso. Lembro > que entrei no Sandoval Wanderley no primeiro ano... Rapaz, tinha 500 pessoas > me vaiando, porque eu estava instalando o primeiro debate sobre festejos > juninos. Com o pessoal de antropologia da universidade e tal, sem > intelectualizar demais a questão, mas querendo levar um certo conteúdo, > porque estava degringolado. > > Não estou querendo que seja alavantu e anarriê para sempre porque nunca > foi. Mas esse processo reelaborativo nunca teve um peso do capital tão > grande como está tendo nos últimos tempos. Por isso são importantes esses > estudos que ensinam a ver isso e, de uma forma simples, se levar a quem faz, > esses brincantes, que muitas vezes são pessoas ingênuas, manipuladas pela > mídia. São esforçados, às vezes tiram do próprio bolso, ficam devendo grana. > > Mas isso é uma questão que as pessoas confundem. Área de cultura não é área > de assistência social. Isso é outro setor. O carnaval indicou que tem toda > condição de evoluir. Faltou músico pra gente contratar, as pessoas ficaram > felizes. > > Nasemana - A cultura tem sérias limitações de orçamento e isso não é um > privilégio apenas de Natal. A lei de incentivo funciona como um mecanismo > que ajuda a aportar mais recursos para o setor. Qual a dificuldade em se > implantar, na lei Djalma Maranhão, o fundo municipal de cultura para > facilitar mais o acesso a recursos, sem o artista precisar bater à porta dos > empresários? > > Dácio Galvão - Esse é outro equívoco. Se falou em criar um fundo municipal, > mas o fundo já é criado. Esses setores organizados, alguns deles, ainda não > aprenderam, por exemplo, a trabalhar com a lei de incentivo, o que acho um > atraso. A prefeitura todo ano dá R$ 2 milhões para vocês trabalharem e volta > R$ 1 milhão... Tem condições? R$ 1 milhão financia muita coisa. > > Não é possível. Às vezes as pessoas se atrapalham porque isso é uma > burocracia muito fácil. A prefeitura renuncia. Tem uma comissão em que eu, > como presidente, nunca precisei ir desempatar nada. Nunca prendi um processo > aqui por um minuto. Nunca fiz um lobby. A partir daí, tá aqui o seu > certificado. Aí é uma outra questão que o poder público não tem a ver: são > os empresários, uma classe dominante que não tem sensibilidade com a cultura > porque sabe que é um vírus, que pode mudar a vida das pessoas. > > É muito simples atribuir a responsabilidade ao poder público. Os setores > civis da sociedade têm que se organizar e lutar. E a gente tem que admitir > que alguns artistas estão em 1970. A Feira de Sebos é um grande evento. > Disse isso a Abimael [Silva], a Jácio [Torres, sebistas]. Pergunto: 'Vocês > não têm condições de se organizar?' Chegam aqui 10, 15 dias antes e querem > 'só R$ 20 mil'. Merecem R$ 50 mil. Mas isso aqui não é bodega, que você abre > a gaveta e tá aqui a grana. Você tem que tramitar um processo, tem o > orçamento participativo que é uma forma democrática de buscar recursos. > > Ninguém vai lá. São vários mecanismos que têm que evoluir. A lei de > incentivo é um mecanismo que precisa também melhorar. Tenho um projeto, o > Nação Potiguar, e nunca cobramos. E é um projeto de oito anos. Acho que > qualquer projeto incentivado não deve ser cobrado. Tem incentivo, então não > pode cobrar. Mas isso é outro papo... > > Nasemana - Mas o que falta para tirar o fundo municipal do papel? > > Dácio Galvão - Acho que não houve mais empenho da nossa parte. Faço essa > autocrítica, uma autocrítica que não está relacionada só à administração > pública e vou explicar por quê. Quem deveria estar co-gerenciando isso > comigo era o Conselho Municipal de Cultura. Acontece que quando assumi, o > conselho estava constituído de forma irregular. Fui tentar ajeitar a lei, > passei 11 meses lutando porque não tinha uma assessoria jurídica. > > Só consegui montar agora, há dois meses. Quando constituímos o conselho, > ele viu que a lei estava absolutamente capenga. E começamos a lutar para > aprimorar essa lei. Mas não conseguimos, porque a burocracia é muito grande. > O conselho deveria estar dividido essa responsabilidade e ele é constituído > paritariamente. Então volto a dizer: a responsabilidade não é só do poder > público. O que precisa haver é um aprofundamento na legislação do Conselho > Municipal de Cultura. Legislação essa que tem um certo hibridismo confuso > também na parte de patrimônio histórico, com a Semurb. > > Cansei de levantar isso na administração. Não conheço nenhuma cidade no > Brasil onde a secretaria de meio ambiente e urbanismo faça parte do > patrimônio histórico e artístico. Na hora que tivermos um empenho maior que > o que tivemos - e conseguimos alguns avanços - isso é fácil de equalizar. > Acho que o fundo precisa avançar e defendo que seja aplicado nesses valores > aos quais nos referimos o tempo todo. > > A cultura popular de Natal tende, como de resto nas outras cidades, a ser > tragada pelo mercado. Protecionismo, não. Mas proteção, sim. Há uma > diferença. O fundo de cultura tem que ter esse zelo, essa preocupação. A > gente tentou dar uma visibilidade a Raimundo Brasil que ele nunca tinha > tido. No entanto, a classe média é preconceituosa, os intelectuais são > preconceituosos, não vão para a Ribeira ver. > > Porque aquilo é uma merda, aquilo não existe, aquilo é uma grande caretice, > aquilo é postiço. Mas bota 10 mil, 15 mil pessoas para ver. E não tenho > nenhum problema em dizer que antes de estar aqui eu não ia ver. Então é um > problema de preconceitos históricos, de conservadorismo, de cultura > dominante. Para você vencer tudo isso e avançar dentro da questão pública, > aparentemente é uma axioma simples, mas pragmaticamente não é tão simples. > > Nasemana - Você é produtor cultural, mantém a Fundação Hélio Galvão e, > apesar de uma passagem pelo Centro de Documentação da Fundação José Augusto, > está tendo pela primeira vez a experiência de gestor público. Essa > experiência do outro lado da mesa mudou sua visão? > > Dácio Galvão - Muito. Aprendi muito. Não senti muita diferença em lidar com > a tribo, porque sempre fui índio. Essa galera toda me conhece do gueto, não > me conhece nem da Hélio Galvão, da José Augusto, nem da Capitania das Artes. > Isso facilitou nossa relação, porque eu tinha um crédito natural pelas lutas > que travamos conjuntamente. E aprendi muito porque não tinha essa noção > burocrática da administração. E é uma burocracia para você não vencer, é > para travar, sabe? Há até um fascismo nisso, porque preconiza uma legalidade > fantástica e na verdade é para você não andar. Mas faz parte do processo > democrático e da luta de todos os segmentos. > > Nasemana - E da sua produção como escritor, pretende retomar alguns > projetos após sair da Capitania? > > Dácio Galvão - Eu tenho um projeto na gaveta que não sei se faço no ano que > vem ou no próximo. Ao longo de 10 anos, fiz parcerias com vários músicos e > compositores. E pretendo lançar essa trabalho autoral, com 16 faixas, que > reúne mais de 80 músicos e tem gente como Zé Celso Martinez Correa, Zeca > Baleiro, Alceu Valença, Walter Franco, Arnaldo Antunes, Naná Vasconcelos, > Geraldo Azevedo e outros artistas, que são os intérpretes dos meus textos. > > Vou lançar esse disco, que irá se chamar Poemúsicas. Vou lançar junto com > um livro que estou chamando de Quasetexto. São textos jornalísticos que eu > publiquei em vários periódicos ao longo de 15 anos. E pretendo retomar a > pesquisa do doutorado, sobre o modernismo de 22, em que um dos focos são os > poemas de Cascudo e a relação dele com a música. > > URL :: > http://www.nominuto.com/cultura/dacio_galvao_cultura_nao_e_area_de_assistencia_social_/28912/ > > > -- ÿØÿà Ørf "Não mostre para os outros o endereço eletrônico de seus amigos. Use Cco ou Bcc (cópia oculta) Retire os endereços dos amigos antes de reenviar. Dificulte a disseminação de vírus, spams, hoaxes e banners."
