*Repassando um artigo do meu tio,irmão de Rubão.* ** Transcorre hoje mais um aniversário da nossa República, cuja proclamação, em 1889, veio a reboque da abolição da escravatura ocorrida no ano anterior. Constatamos que ao longo desses cento e dezenove anos a Velha Senhora não conseguiu livrar-se de alguns antigos achaques e ainda conserva certos vícios adquiridos na mocidade. É certo que este sistema de governo ensejou o processo de desenvolvimento do país, transformando-o em pouco mais de um século na mais importante nação da América Latina e numa das grandes economias do mundo. Entretanto, convém salientar que essa transformação só teve início 41 anos depois de adotado o novo sistema. Isso porque faltava ao mesmo o essencial: o chamado espírito republicano. O Estado continuou incorporando o fantasma do Império. Mudou em parte a forma estrutural mas manteve o conteúdo filosófico e a praxis política imperiais.
Nada de mudanças drásticas e radicais. Tal qual o processo da Abolição da escravatura, que se deu a passos lentos e com medidas paliativas, a adoção do sistema republicano ocorreu de maneira a não provocar melindres nem atingir privilégios, a não abolir certos costumes e leis que interessavam aos novos beneficiários do poder. A República só veio desempenhar seu papel de vetor do nosso progresso com o advento da Revolução de 30, quando passamos a utilizar os instrumentos democráticos, ainda que condicionando seu uso à não execução de mudanças profundas no "status quo" reinante. Apesar dos avanços no campo institucional, muitos vícios e imperfeições da chamada República Velha permaneceram entranhados no aparelho estatal e até hoje impedem e retardam o pleno exercício da democracia. Continuam as desigualdades sociais decorrentes da concentração das riquezas nas mãos de poucos, da mais perversa distribuição de rendas que leva uma minoria de privilegiados a possuir o mais que suficiente para gastar com o supérfluo e submete a imensa maioria à humilhação de não dispor do mínimo possível para adquirir o estritamente necessário. A corrupção campeia livremente e a impunidade incentiva a prática desenfreada da ilicitude, não permitindo que a ética e a moral fortaleçam o nosso tecido político-social. Nesta República mais que centenária convivem dois Brasis em permanente contraste: o Brasil rico, do Sul/ Sudeste, e o Brasil pobre, do Norte/Nordeste. Falaram muito e pouco fizeram. Norte e Nordeste continuam pobres. Ambos ainda têm regiões que vivem na miséria absoluta. Sul e Sudeste já não são tão ricos e poderosos. Houve um nivelamento por baixo e a pobreza quase miséria generalizou-se. Tanto nas metrópoles como nas pequenas cidades interioranas, as favelas proliferam. Uma cubata africana surge a cada dia que passa. E enquanto nosso sistema bancário aufere lucros bilionários, milhões de brasileiros passam fome e morrem sem assistência médica neste Brasil de quinhentos anos de descoberta e cento e dezenove de República. Daí, minha quase nenhuma vibração cívica no aniversário da Velha Senhora – nossa República – proclamada de forma meio burlesca de cima do lombo de um cavalo, por um velho marechal enfermo que mal se sustentava no dorso do pangaré. Aliás, é curiosa a participação do cavalo em alguns dos nossos mais importantes fatos históricos. Como a República, nossa Independência também foi proclamada do alto de um cavalo. E, coincidentemente, por um Imperador também adoentado, pois acometido – segundo se comenta nos bastidores da História – por um súbito e vexatório desarranjo intestinal. Pelo visto, neste Brasil macunaímico de tantas mazelas, a República parece com aquela do velho Platão, que embora de filósofos, não deu certo… (*) Wilson Lemos é advogado, jornalista e poeta em Rondonópolis
