<http://4.bp.blogspot.com/_uZn8PKopKtE/SUXBvalzrcI/AAAAAAAAADE/YO0Emf1Al0c/s1600-h/DSC04587.JPG>SAMBA PRA ALEMÃ BOTAR DEFEITO Por:Rafael Duarte Quando eu digo que o Centro Histórico absorve personagens que não existem em lugar nenhum do mundo parece, mas não é exagero. Faz um tempo que eu corro atrás de uma reportagem que fiz ainda no VIVER, da TN, sobre a última eleição da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências (SAMBA). O pleito ocorreu dia 1º de maio, vejam vocês, no Dia do Trabalho. E que trabalho! Mas a minha sanha em resgatar aquele texto era para relembrar um diálogo incrível que ocorreu entre um dos candidatos a presidente, Alex Gurgel, com uma senhora com pinta de alemã que se identificou como Josineide Varela, de 63 anos.
A distinta senhora vinha subindo o Beco completamente bêbada e parou onde eu entrevistava o Alex. Os dois começaram a conversar e quando vi que a prosa teria um rumo inimaginável, me afastei e comecei a anotar o embate. Infelizmente, fui fazer a reportagem sem fotógrafo (os jornais daqui tem essas coisas) e não tenho a imagem da Josineide, que ainda revelou ser artista plástica. Mas de qualquer forma, esse diálogo vale mais que qualquer imagem. Tudo no meio da rua, onde a vida realmente acontece: Josineide Varela: Eu gosto de chutar (faz o movimento rápido como se levasse o copo à boca) por aqui. Mas onde é que a gente vota? Alex Gurgel: O nome da senhora está na lista? JV: Que lista, meu amigo! Venho aqui todos os dias. Só quero votar... AG: Mas a senhora só pode votar se tiver o nome na lista. Se não tem, não vota. JV: Como é que é? Você vai me dizer agora como eu devo fazer, é? Minha mãe morou por aqui a vida toda! Todo mundo me conhece aqui. Vou votar sim. AG: Minha senhora, entenda: é uma regra. Imagine se todo mundo que quisesse votar viesse para cá? Não ia ter condições. Se o prefeito de Natal quisesse votar hoje ele não podia porque o nome dele não está na lista. Me diga porque a senhora votaria? JV: O que é isso, meu amigo!? O prefeito é uma autoridade! Você não pode fazer isso. Vou votar e ainda trouxe dois amigos que vieram da Alemanha para votar também. AG: Minha senhora, não pode! A senhora conhece pelo menos os candidatos que estão participando da eleição? JV: E eu lá quero saber de candidato, meu amigo! Vou votar no melhor. Me diga uma coisa: vocês tem sede? AG: Não. JV: Meu amigo, vocês não têm nem sede e ainda querem me impedir de votar? Como é que pode? AG: Mas se a senhora não sabe nem quem são os candidatos... JV: E você lá conhece algum candidato! AG: EU SOU CANDIDATO! Ta vendo? Como é que a senhora quer participar se não sabe de nada? JV: Olha aqui, quero uma cerveja. Não dá para conversar com você sem tomar cerveja. AG: Tem vários bares aqui...(ele aponta para a região) JV: (depois de entrar e sair do bar em frente onde a discussão se dava, ela volta provocando) Aqui não tem cerveja. Quero votar. AG: Eu já lhe disse que a senhora não vai votar. JV: Que absurdo! Você sabe porque isso está acontecendo? AG: Porque a senhora não tem o nome na lista... JV: Não! Porque não tem organização! Isso é coisa de brasileiro! O Congresso Nacional só tem safado. Isso o que está acontecendo aqui é uma sacanagem... AG: A senhora está misturando as coisas. Não tem nada a ver uma coisa com outra. Aqui é a eleição da Samba. JV: De quem? Está vendo? Até o nome é uma porcaria (diz o nome Samba com desdém e dança na frente do repórter e do candidato numa cena que lembrava as chanchadas da década de 70). AG: Mas Samba é Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências. Olhe, a senhora não sabe nem o que significa o nome da entidade. Quanto mais votar... JV: Olhe aqui, meu amigo: eu vou me candidatar à vereadora nas próximas eleições e ainda vou ter mais votos que você! Agora eu vou tomar uma cerveja e depois vou votar, você não vai me impedir! Depois de se despedir, ao seu estilo, Josineide foi até à urna e falou alguma coisa para o mesário, que balançou a cabeça negativamente. Em seguida, resmungou, olhou para o lado e entrou no bar do Chico, atrás da famigerada cerveja.
