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A NOIVA
Cláudia Magalhães
Saltou da cama, temendo chegar atrasada. Era o dia do seu casamento! Ah,
esse dia jamais será esquecido! A felicidade, assim como a tristeza, tem cheiro
de fruta doce, pensou inspirando o suave odor do ar. Correu até o velho baú e
retirou, com cuidado, seu velho vestido de noiva. Vestiu-se com dificuldade. O
seu corpo agitava-se num vai e vem frenético. Estava sempre num balanço,
tentando entrar em harmonia com o tempo. E nesse balanço, atingia vôos cada vez
mais distantes. A porta do quarto foi aberta por um rapaz de rosto duro e frio,
como todos naquele lugar. Não se importaria com ele, estava feliz demais para
isso. Poderia, finalmente, reencontrar seu grande amor!
Em busca do seu coração, seguiu em direção ao pátio. Por que quanto mais
queremos chegar a um determinado lugar, mais ele se torna longe?, pensou ao
atravessar o longo e frio corredor. As pessoas que circulavam no pátio não
notaram sua chegada. Nenhuma alma. Nem grande, nem pequena. De nada adiantava
expirar, com seu deslumbrante vestido branco, tanta felicidade. As pessoas não
gostam do sucesso alheio. A felicidade, sempre, incomoda, pensou sentindo toda
sua alegria pesar o ar.
Correu em direção ao que chamava de “pequeno jardim”. Nesse lugar, todos
os dias, na mesma hora, o esperava sentada num banco branco de ferro que ficava
sob uma enorme mangueira. A vida é uma enorme repetição, pensou observando uma
manga rosa, tão doce quanto seu coração, pendurada na frondosa árvore. Era a
fruta mais bela que já vira. Precisava pegá-la, ela seria seu buquê e quando
terminasse a cerimônia, a ofertaria ao homem amado. Ela representaria seu amor!
Teria presente mais doce? Não, definitivamente, não! Ah, como o amava! Esse
amor tomou conta do seu corpo e tornou-se seu universo. Não entendia o real
motivo de ter sido abandonada por ele naquele lugar frio e autoritário,
dependendo da bondade indiferente daquelas pessoas que entendiam, somente, de
bulas de remédio. É certo que estivera completamente no escuro por algum tempo
e que andara com as mãos no lugar dos pés, mas, agora, estava “recuperada”.
Lutaria pelo homem amado. Subiria na árvore, mesmo que se machucasse. Seus
arranhões seriam como uma carta de amor. Era necessário mutilar-se com algumas
farpas para provar a grandeza do seu sentimento. Toda carta de amor deveria ser
escrita na carne, com sangue, dessa forma, todas as promessas de amor virariam
cicatrizes, acompanhariam todos nossos passos e jamais seriam esquecidas com o
tempo, pensou ao subir na árvore. Alcançou a manga e colocou-a, com cuidado, no
banco. Limpou o vestido. Arrumou os cabelos, jogando-os para o alto e,
dando-lhes um nó, improvisou um rabo de cavalo. Estaria impecável quando ele
chegasse. Dar-lhe-ia um longo e caloroso beijo. Diria que o amava com loucura e
sairiam daquele inferno de mãos dadas. Escreveriam uma linda história de amor
no tempo e mostrariam as pessoas que o amor necessita de perdão. Pensou em como
seria bom tê-lo de volta. Preparar com carinho suas comidinhas preferidas,
fazer amor e adormecer em seus braços com a certeza da existência de coisas que
nunca se acabam e que nos voltam mais fortes quando a esperamos com paciência e
determinação. Limpou, novamente, o vestido. Desmanchou o rabo de cavalo e o
refez com agilidade. Nunca estava bom o suficiente. O amor, também, é assim.
Nunca é bom o suficiente. Por essa razão fora abandonada. Essa sua mania
imbecil de querer tudo no seu devido lugar, de arrumar incansavelmente a louça,
a casa, era uma prova do seu amor. Ao ter a certeza disso ele a abandonou. Ele
passou a odiá-la pelo simples fato dela o amar. Pegou a manga e observou-a com
atenção. Nunca vira uma manga tão bela! Cheirou-a e, novamente, colocou-a sobre
o banco. Tinha absoluta certeza de que, em algum momento, ela a faria sofrer.
Todas as coisas boas nos fazem sofrer. Elas moram na esquina do amor com o
ódio. Limpou o vestido, refez o rabo de cavalo, pegou a manga, cheirou-a e
pensou com uma estranha surpresa: Nunca vi uma manga tão bela! Por duas horas,
repetiu esse ritual, incansavelmente. Quando ele chegar, direi que ainda o amo
com loucura até a exaustão. Repetirei inúmeras vezes. A vida é uma grande
repetição e usarei isso a meu favor, repetindo, somente, as coisas boas,
concluiu com satisfação refazendo, pela última vez, naquele dia, o penteado.
Faltavam poucos minutos para o pôr-do-sol, quando escutou o som de passos
firmes. Eram eles. Malditos! Sanguessugas do inferno!, pensou sentindo um medo
quase insuportável. Nesse instante, o céu fechou as pernas arrastando nuvens
pesadas e cinzentas, e escondeu o seu azul mais profundo. Tudo ficou plano,
reto, uniforme. Não havia estrelas, nem firmamento. Sumiram as cores e do
arco-íris, somente o nada. Estava tudo acabado. Fechou os olhos e deixou-se
molhar pela água que derramava em seu peito. Sem o seu amor, tudo seria somente
chuva. Uma chuva que traria seu passado em relâmpagos, queimaria suas
lembranças, reduziria tudo a cinzas, fazendo seu futuro fugir pela boca feito
fumaça. Cantou em silêncio, vendo-o morrer arrastado pelo tempo. Olhou a manga
e constatou que, em breve, ela seria apenas uma fruta podre ou, então, seria
devorada por algum estranho. Soltou um terrível grito de dor. Não! Não deixaria
ninguém meter as mãos no que tinha de mais doce. Aquela fruta era seu amor. Se
alguém tinha que provar sua doçura, esse alguém seria ela! Devorou a manga e
sentiu sua felicidade escorrer pelos dedos. Os dois homens observaram com uma
estúpida frieza, por alguns segundos, aquela mulher de rosto inquieto, dando as
costas à razão em nome do amor. Não entendiam que não existe nenhuma arma
contra ele, somente uma defesa: a loucura. Essa fuga dos perigos da vida. É
nesse repouso dentro de nós, que ela nos desmonta e nos torna vítima e
criminoso.
Deixou-se agarrar por eles. Não se moveu, nem falou nada. Tudo poderia
ser usado contra ela. Atravessaram o longo e frio corredor. Deitaram-na na
cama, deram-lhe alguns comprimidos e saíram. Nenhum sorriso, nenhum carinho.
Não chorou, já estava acostumada com a frieza dos homens sem coração.
Enfrentaria a insignificância dos momentos em que teria que viver como se não
tivesse experimentado um grande amor. Não tinha escolha. Tomaria todos os
remédios, faria todas as refeições, como um animal domesticado. No início, logo
que chegou naquele maldito lugar, tentou se rebelar, mas, tal qual um amor
contrariado, todas as suas tentativas de se fazer ouvir foram usadas contra
ela. Esperaria a próxima oportunidade e fugiria dali. As pessoas enlouqueceram.
Elas não sabem mais amar, constatou com a loucura dos que amam demais.
Ele, seu amor, não apareceu. Teria mais uma chance? Não sabia.
Restava-lhe sonhar. Talvez, a forma mais humana, mais justa, de se viver. Em
algum sonho, o reencontraria num lugar chamado poesia. E, com uma flor na boca,
ele lhe diria, somente, palavras de amor. Ela escutou o barulho de risadas
debochadas, dos enfermeiros ou do seu próprio amor, vindas do corredor. O mundo
ignorava sua tristeza. Adormeceu chorando baixinho, sentindo o gosto, agora,
amargo, do que já lhe fora doce, extremamente doce.
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