Que me desculpem Neil Gaiman e Frank Miller; mas o melhor roteirista de histórias em quadrinhos de todos os tempos – tanto em quantidade como em qualidade e diversidade[1] – é mesmo Alan Moore, o mago de Northampton. Na verdade, ele é o grande responsável pela reinvenção do gênero, que passou a se chamar Grafic Novels. A partir de Moore, a importância de quem escreve as histórias passou a ser maior do que a de quem faz os desenhos. Profissionalmente, não é um exagero dizer que Moore inventou sua própria história, trabalhando nas duas grandes editoras - DC Comics e Marvel Comics - e brigando com ambas por um sistema mais justo de reconhecimento e de remuneração de direitos autorais. Moore escreveu estórias sofisticadas tanto para heróis tradicionais e criados por outros autores (Batman[2], Superman[3], Monstro do Pântano[4], entre outros[5]) como também criando narrativas completamente novas com seus próprios personagens. Aliás, como também criando suas próprias estórias com personagens de outras narrativas, oriundos da literatura, como é o caso da Liga de Cavaleiros Extraordinários. No final do século XIX a rainha Vitória nomeia, para combater um perigoso inimigo, um gênio do crime que deseja conquistar o planeta uma legião de grandes nomes da época: Allan Quatermain[6], Mina Harker[7], Henry Jekyll e Edward Hyde[8], Rodney Skinner[9], Capitão Nemo[10], Dorian Gray[11], Tom Sawyer[12] e professor James Moriarty[13]. Mas, a adaptação da estória para o cinema (direção: Stephen Norrington e roteiro: James Robinson) foi um fracasso de crítica e de público. Motivo: os detalhes de época, as citações de outras narrativas, a disposição gráfico-visual da narrativa como um todo se perderam no tempo contínuo e linear da sétima arte. O próprio Moore detesta, declaradamente, a idéia de adaptarem suas obras para o cinema e nunca se envolveu nenhuma das produções. O mesmo aconteceu com a adaptação de From Hell (Do Inferno, 2005a) para o cinema pelos Irmãos Hughes, em 2001, com participações de Johnny Depp, Heather Graham e Ian Holm. From Hell é um romance gráfico escrito por Alan Moore e ilustrado por Eddie Campbell que especula sobre a identidade e as motivações de Jack o Estripador. Apesar de ser confessadamente um trabalho ficcional, Moore faz uma rigorosa investigação sobre todas as fontes do caso, não só para garantir plausibilidade e verossimilhança da narrativa, mas como uma forma de pesquisa e revisão das interpretações anteriores. >From Hell apresenta mais de 40 páginas de informações e referências, indicando quais partes são baseadas na imaginação de Moore e quais são tiradas de fontes específicas. As opiniões de Moore sobre as informações referenciais também são listadas. Além disso, a verdadeira aula sobre a história e a arquitetura de Londres – bem como sobre a época e os costumes em que o Estripador fez suas vítimas. A obra é densa, cheia de camadas e imensamente detalhada; a edição em coletânea tem aproximadamente 572 páginas - que foram severamente amputadas pela versão cinematográfica. E, mesmo assim, o filme ficou monótono e complexo, sendo elogiado pela crítica, ignorado pelo público e detestado por Moore. Em 2005, foi a vez de Constantine. Constantine é uma adaptação do personagem das histórias em quadrinhos John Constantine[14], protagonista da revista Hellblazer, para o cinema, dirigido por Francis Lawrence. Embora possa ser considerado um sucesso de bilheteria, é muito criticado pelos fãs dos quadrinhos pela falta de fidelidade ao original. No filme, John Constantine (Keanu Reeves) é um ocultista e exorcista, que ajuda Angela Dodson (Rachel Weisz), uma policial cética, a investigar o misterioso suicídio de sua irmã gêmea, Isabel. O filme é inspirado numa história antiga de Hellblazer, Hábitos perigosos, em que Constantine descobre que têm câncer de pulmão e já em estado terminal. O mago então tenta bolar um plano para escapar da morte, lidando com demônios legais e anjos malvados. E para desespero de Moore (e dos que compreende a especialidade das narrativas gráfico-visuais), também houve adaptações para cinema de dois dos principais trabalhos: V de Vingança (2006a)[15] e Watchmen (2005)[16]. V de Vingança (versão em português para V for Vendetta) é uma série desenhada por David Lloyd em preto e branco em 1983 e relançada em cores em 1988. A história, que se passa em um distópico futuro de 1997 no Reino Unido, conta a história de Ivi, salva da morte por um vigilante mascarado, conhecido apenas por ‘V’. À medida que Ivi descobre a verdade sobre o misterioso V, ela descobre também algumas verdades sobre si própria e assim emerge uma inesperada aliada no plano para trazer liberdade e justiça a uma sociedade marcada pela crueldade e corrupção. Lançada em 1985, Watchmen tornou-se um extraordinário sucesso e é considerada um marco importante na evolução dos quadrinhos, introduzindo abordagens e linguagens antes utilizadas apenas por quadrinhos alternativos. O sucesso crítico e de público que a série teve ajudou a popularizar o formato conhecido como graphic novel, até então pouco explorado pelo mercado. A trama de Watchmen é situada nos EUA de 1985, um país no qual aventureiros fantasiados seriam realidade. O país estaria vivendo um momendo delicado no contexto da Guerra Fria e em vias de declarar uma guerra nuclear contra a União Soviética. A mesma trama envolve os episódios vividos por um grupo de super-heróis do passado e do presente e os eventos que circundam o misterioso assassinato de um deles. Watchmen retrata os super-heróis como indivíduos verossímeis, que enfrentam problemas éticos e psicológicos, lutando contra neuroses e defeitos, e procurando evitar os arquétipos e super-poderes tipicamente encontrados nas figuras tradicionais do gênero. Isto, combinado com sua adaptação inovadora de técnicas cinematográficas, o uso frequente de simbolismo, diálogos em camadas e metaficção, influenciaram tanto o mundo do cinema quanto dos quadrinhos. Nos últimos anos, Moore está trabalhando em várias séries, retomando alguns projetos inacabados e começando outros: As Aventuras de Tom Strong, A Liga de Cavalheiros Extraordinários II e III, Supremo: O Retorno, Promethea e Lost Girls.
(continua) REFERÊNCIAS MOORE, Alan. Grandes clássicos DC n. 09 - Alan Moore. (coletânea de estórias, diversos desenhistas). São Paulo: Panini Comics, Outubro de 2006. __________V de Vingança. Desenhos de David Lloyd. São Paulo: Panini Comics, 2006a. __________ A saga do monstro do Pântano (The saga of the swamp thing, 1984). Desenhos de Steve Bissete e John Totleben, tradução Heitor Pitombo. Rio de Janeiro: Pixel Media, 2007. __________ Watchmen. (Watchmen,1995) Desenho de Dave Gibbons. Tradução de Jotapê Martins. 4 volumes. São Paulo: Via Lettera Editora, 2005. __________ Do inferno (From Hell, 1989/1999). Desenho de Eddie Campbell. Tradução de Jotapê Martins. 4 volumes. 3ª edição. São Paulo: Via Lettera Editora, 2005a. [1] Para conhecer toda produção de Alan Moore, acesse o site de fã clube no exterior: <http://www.alanmoorefansite.com/bibliography.html> [2] Batman foi criado por Bob Kane. Moore escreveu duas estórias do homem morcego importantes: Barro mortal, desenho John Byrne, originalmente publicado na Batman Annual 11, julho de 1987 (2006, 232); e a importantíssima A piada mortal, desenho de Brian Bolland, originalmente publicado como Batman: the killing Joke, julho de 1998 (2006, 256). [3] Superman foi criado por Jerry Siegel e Joe Shuster. Moore escreveu: Para o homem que tem tudo, desenhos de Dave Gibbons, originalmente publicado na Superman annual 11, janeiro de 1985 (2006, 9); A Linha da Selva, com desenhos de Rick Veitch, originalmente publicado na DC Comics Presents, n. 85 Setembro de 1985 (2006, 128); e O que aconteceu com o homem de aço? desenhos Curt Swan & Murphy Anderson, originalmente publicado na Superman 423 e 583, em setembro de 1986 (2006, 164). [4] Monstro do Pântano foi criado por Len Wein e Berni Wrightson. Moore assumiu a série em 1984, na edição #20 e, em oito números, transformou um estrondoso fracasso em um retumbante sucesso (MOORE, 2007). [5] Para o personagem do Arqueiro Verde, Moore escreveu uma estória dupla: Olimpíadas Noturnas, desenhos de Klaus Janson, originalmente publicado na Detctive Comics, # 549/550, abril e maio de 1985 (2006, 51). Para o Lanterna Verde, as mais importantes são: Mogo não comparece às reuniões, desenhos de Dave Gibbons, originalmente publicado na Green Lantern #188, maio de 1985 (2006, 66); Tigres, desenhos Kevin O’Neill, originalmente publicado na Tales of the green Lantern corps, Annual 2, dezembro de 1986 (2006, 152); Na noite mais densa, desenhos Billy Willinghan, originalmente publicado na Tales of the green Lantern corps, Annual 3, maio de 1987 (2006, 226). Moore também escreveu várias histórias para o personagem Spawn de Todd McFarlane. [6] As Minas do Rei Salomão, de H. Rider Haggard. [7] Drácula, de Brain Stoker. [8] Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson. [9] O Homem Invisível, de H.G. Wells. [10] 20.000 Léguas Submarinas, de Julio Verne. [11] O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. [12] As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain. [13] The Final Problem, de Arthur Conan Doyle. [14] John Constantine foi criado por Alan Moore, como um mero figurante da revista Monstro do Pântano, mas se popularizou rapidamente. Arrogante, negligente e enganador, o personagem foi inventado por Moore para satisfazer o pedido dos então desenhistas da revista, Steve Bissette e John Totleben de ter um personagem parecido com o cantor Sting nas histórias. [15] Em 2006, com Natalie Portman e Hugo Weaving, V for Vendetta foi adaptado para cinema pelos Irmãos Wachowski (roteiristas da trilogia Matrix). [16] E em 2009, dirigida por Zack Snyder, Watchmen foi adaptado. Veja quais são os assuntos do momento no Yahoo! +Buscados http://br.maisbuscados.yahoo.com
