A vez e a hora de Volonté


                                                        
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15/03/2009 - Tribuna do Norte 

Nelson Patriota - Jornalista

Com o tempo, todo revolucionário se torna um pacifista, diz a moral 
conservadora. A história e os fuxicos das esquinas ensinam que há alguma 
verdade aí, mas não haveria também alguma forma de proselitismo moralista 
disfarçado sob o diáfano véu do consenso?

A propósito, é melhor um revolucionário convertido ao credo kantiano da paz 
perpétua, ou um impávido transgressor? A pergunta se justifica quando a 
Fundação Capitania das Artes elege para centro das homenagens do Dia da Poesia 
(transcorrido ontem) ungindo-o com os óleos bentos do reconhecimento oficial o 
rebelde poeta Volonté (né Manoel Fernandes da Silva Júnior). O outro 
homenageado é o poeta Nei Leandro, sob muitos aspectos, a antítese de Volonté 
e, sabidamente, a voz mais audível da poesia norte-rio-grandense, com audiência 
nacional e incursões bem-sucedidas mais além dos domínios poéticos, chegando 
até a aonde a prosa se metamorfoseia em romance. 

Não é ocioso lembrar que Volonté é aquele mesmo que assinou, num passado já 
distante, seus “Antecedentes criminais”, volume de poesias. Outro título seu se 
lê “Cara a cara”, e não menos “provocador”. Sua pena peregrina já o levou a 
frequentar páginas efêmeras de jornais culturais como “O Galo”, diários 
diversos e a revista “Preá”. Recentemente, organizou uma antologia prosopoética.

Seus antecedentes poéticos, porém, o credenciavam, até ontem, ao destino frio 
dos inconformados, que François Truffaut (uma admiração de Volonté), retratou 
num filme marcante intitulado “Os Incompreendidos”.

Com a visibilidade que o reconhecimento público acaba de lhe conceder, 
ressurgirá do rebelde o pacifista empedernido, qual um novo Guilherme Meister, 
falando, para um auditório embevecido, do seu passado nas barricadas culturais 
mais avançadas como um tempo heroico que hoje é se resume a história?  Agora 
que ele é um poeta oficial, mudará o comportamento peripatético do poeta, entre 
os sebos de Jácio Torres, o de Ari Ramalho e às livrarias da cidade, numa das 
quais é habitué de uma seleta mesa matinal?

É louvável, todavia, que uma instituição pública de cultura homenageie um poeta 
de extração popular, sem formação acadêmica mas que, independentemente disso, 
conseguiu se fazer conhecer justamente entre intelectuais, artistas e 
jornalistas como um leitor igual, além de violonista amador, cinéfilo etc. A 
homenagem que ele recebeu ontem da Funcarte traduz e arremata esse processo que 
se tecia de longa data em seu entorno. 

A ascensão de Volonté à condição de poeta laureado (porque é disto que se 
trata), a partir do evento oficial de ontem, dá visibilidade à sua pessoa 
enquanto cidadão frequentador dos sebos, bares e livrarias da cidade, 
interlocutor de discussões candentes sobre música, poesia e cinema, enfim, um 
intelectual. De certo modo, isso é também a culminância de uma trajetória que 
começou no rescaldo dos movimentos de vanguarda capitaneados por um J. 
Medeiros, um Anchieta Fernandes, um Falves Silva e outros vanguardistas (quando 
esta era uma palavra que fazia sentido), mas dos quais Volonté se afastou 
paulatinamente a fim de encontrar seu próprio caminho. 

Poeta idiossincrático, de natureza solitária, avesso às badalações grupais, 
Volonté é, como na canção de Zeca Baleiro, a sua própria tribo. Nesse sentido, 
repete um pouco do comportamento dos românticos: individualista, egocêntrico e 
incompreendido, queixas que, agora, com o reconhecimento que acaba de auferir 
de uma insuspeita fundação municipal, perdem sua razão de ser.

Parabéns, portanto, ao poeta rebelde Volonté, que, sem abdicar da verdade 
visceral que alimenta sua poesia, segue na sua caminhada peripatética diária, 
ostentando agora a aura de poeta laureado sem culpa. 



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