Natal dos 
arranha-céus<http://www.sandrofortunato.com.br/salgo/2009/03/16/natal-dos-arranha-ceus/>Março
16, 2009 – 8:52 am

Os arranha-céus começaram por fixar-se definitivamente em Natal. Primeiro
vieram tímidos e em pouco número. Isto há trinta anos. E o que inaugurou a
série, na esquina da Rua Juvino Barreto com a Avenida Deodoro da Fonseca,
era um verdadeiro monstro de aço, para os natalenses daquela época. Os seus
dois prédios, que dominavam inteiramente a cidade, puseram em alvoroço os
habitantes assombrados que prediziam a queda violenta e inopinada desse
precursor das alturas.

Mas o receio aos poucos foi desaparecendo. Compreendeu-se afinal que o
espaço era estrito e grande a população que sempre aumentava.

Depois surgiu um colosso de mais de 15 andares. E tempo correu sem que outro
empreendimento notável viesse surpreender a cidade. Parecia que o
estacionamento era para sempre. E cada pessoa que transitava pela Avenida
Deodoro não deixava de elevar a vista até o píncaro do cimento armado.

Entretanto, nesse ínterim, Natal crescia de maneira fantástica.

Era a vida em toda sua pujança. O progresso que caminhava assustadoramente.
O dinheiro que vinhas às mãos cheias.

Deu-se então início aos arranha-céus propriamente ditos.

Algum proprietário mais ousado contava em vinte o número dos pisos
superiores do seu prédio. Um outro, entusiasmado e cheio de amor próprio,
erguia, sobranceiramente, as colunas de cimento armado até muito mais alto,
numa bacanal imensa de notas em profusão…

E o aço das construções principiou por querer beijar as nuvens mais altas.

E lá embaixo, nos precipícios escuros e quadrados, vertiginosamente, vêm
subindo os elevadores, numa carreira louca de cabos torcidos, como se
demandassem o infinito…

O texto acima não é meu. É de *Luis Lélio*. Falava de São Paulo e foi
publicado em *janeiro de 1929 *em uma edição da revista
*Cruzeiro*<http://www.memoriaviva.com.br/ocruzeiro>,
que não havia ainda completado dois meses de lançamento. Mudadas as
referências e atualizada a ortografia, o texto serve para a Natal de hoje.

Os prédios que cito realmente existem. São o Chácara 402 (assim, com número;
não se assustem os de fora) e o Riomar. Foram construídos na década de 1970,
mas quando meus pais se mudaram para Natal, em 1986, eram ainda os únicos
residenciais com mais de dez andares. E reinaram assim por muitos e muitos
anos. Fazia frente a eles somente o antigo Hotel Ducal (já Luxor em meados
dos 80), onde moramos antes de mudarmos para um “prédio” de quatro andares
(um pequeno subsolo onde fica a garagem, uma loja no térreo e dois andares
de apartamentos), o primeiro de uma construtora que estava nascendo naquela
época.

Hoje, 23 anos depois, a mesma construtora está terminando, também em Natal,
*o maior prédio residencial do país*. A *aberração*, como costumo chamá-lo
carinhosamente, pode ser visto de vários pontos da cidade. Um detalhe: ele
está encravado em “um buraco”, numa baixa, bem no início de uma ladeira
muito íngreme. Não fosse isso, pareceria ainda maior.

*São 43 andares*. Quatro somente de garagens, dois com áreas de lazer, 34
andares residenciais (apenas um apartamento por andar, claro!) e, coroando
tudo, um triplex com heliporto. Mas há outros detalhes bem mais
assustadores. Apesar das centenas de prédios que apareceram nas duas últimas
décadas, Natal ainda é uma cidade bem “aberta”. Os prédios guardam certa
distância um dos outros. Como esse monstrengo é bem maior que seus vizinhos
de 20 ou 30 andares e nem é tão largo quanto eles, se destaca ainda mais. De
longe, parece uma imensa torre de celular.

Lembro da primeira vez, há uns 10 ou 12 anos, quando entrei no apartamento
de um amigo, então novo rico, no bairro de Lagoa Nova. Tinha lá seus 30
andares e ele morava ali pelo vigésimo. A primeira coisa que percebi foram
as janelas fechadas. Todas. Perguntei o porquê e ele respondeu abrindo um
pouco uma delas. O barulho do vento era terrível e só os móveis não voavam.
Acostumado com aqueles corredores de prédios, construídos parede a parede,
em Copacabana, eu nem imaginava algo assim: um predião no meio do nada,
resistindo bravamente ao vento, de onde você pode apreciar toda a cidade,
desde que através do vidro. Agora imagine um de 43 andares nessa situação.

Foi-se o tempo em que, em tom de pilhéria, eu dizia que se podiam contar os
prédios de Natal nos dedos de uma das mãos e ainda sobrava. Hoje, tenho
saudades daquela época. Não vejo necessidade alguma de se construir algo
desse tamanho. Ainda mais para se morar! E se há algum motivo para isso,
certamente é o de elevar ainda mais os egos de seus moradores. No
diz-que-me-diz durante a construção, comenta-se que entre os compradores de
alguns apartamentos estão Pelé e Ronaldinho que, óbvio, jamais irão morar em
Natal. *Mas quantas pessoas podem comprar um apartamento desses? E para quê?
*

Natal tem o maior cajueiro do mundo (que não fica em Natal), a maior estátua
(inacabada e que também não fica em Natal), o maior carnaval fora de época
(o que não deveria ser motivo de orgulho), o maior *shopping *com área
coberta (com mais garagens que lojas), o maior prédio residencial e, sem
dúvida, *a maior necessidade de ser maior em alguma coisa*. Deve ter herdado
essa mania dos americanos, assim como o falso moralismo. Poderia ter herdado
o amor à própria cultura, mas se isso tivesse acontecido, provavelmente o
Rio Grande do Norte seria o 51º estado americano. E tentaria tomar todo o
Nordeste e mais o Tocantins para ser “o maior estado americano não
contíguo”.

O que me assusta nesse crescimento de Natal é que ele chegou tarde (se
comparado a outras cidades quatrocentonas), é exagerado, descontrolado, sem
sentido e parece não ter aprendido as lições dos municípios que incharam há
muito mais tempo.

Mas a mania de grandeza não é exclusividade da capital potiguar. Nisso de
ser o maior em alguma coisa, se inventa de tudo. Coloca-se uma antena de TV
em cima de um prédio menor e pronto: ele passa a ser o maior. Ou se diz que
ele é o maior de frente para o mar. Ou o maior com azulejos azuis. A
aberração de Natal é tida como o maior residencial do Brasil mas, neste
momento, *pelo menos outros dez prédios mais altos estão sendo construídos
no país*. Quase todos em São Paulo (que surpresa!). Quando todos estiverem
prontos e somados aos já existentes, residenciais e comerciais, o de Natal
não ficará entre os 30 maiores do país. E também será apenas mais um entre
mais de três dezenas com mais de 40 andares. E que ninguém invente de mudar
mais uma vez o plano diretor da cidade – que hoje não permite que se passe
de 30 andares – para se tentar, de novo, ser o maior em alguma coisa!

Isso não para. E hoje anda em velocidade muito maior. Quando o texto de Luis
Lélio foi escrito, 80 anos atrás, São Paulo se admirava com a construção de
seu primeiro arranha-céu, o *Martinelli*. Ele é somente 8 metros menor que o
prédio de Natal. E há 50 anos parece um anãozinho ao lado de seus vizinhos,
o Bando do Brasil e o Banespão. Isso não para!
Que tal mudar um pouco o foco e *tentar ser a cidade mais limpa do Brasil ou
do mundo?* A cidade mais silenciosa, a que mais respeita o meio ambiente,
aquela onde mais se anda a pé ou de bicicleta, a mais segura, a mais
cultural, a melhor para se viver? Juro que me mudo para cá de novo. Para
morar numa casinha com quintal.


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