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Senhor dos destinos
 
Cláudia Magalhães
 
 
 
                                                                                
           Quarta-feira, 18 de março de 2009
 
Caro Sr. Fulano,
 
      Possuo uma crueldade excepcional que, quando adormecida, cede lugar a uma 
ternura intrigante, curiosa, que me entorpece, me alivia. Sou escravo dessas 
duas realidades. Elas me fazem nascer e renascer, todos os dias, e me tornam 
humano. Sempre que atravesso a delicada e invisível fronteira que as separam, 
sou tomado por uma espécie de estupidez execrável que, com o passar dos anos, 
me fez perceber que o espaço que separa a vida da morte é feito de silêncio, do 
simples quebrar de um salto, de uma brevidade não medida pelo tempo. Somos 
movidos por uma bomba-relógio chamada coração, cujo controle não nos pertence. 
Deixei de sentir revolta, aprendi a não brigar com o que desconheço, perdi o 
sentido do pecado.
 
       Acredito basicamente em três coisas: na inexistência de Deus, na 
existência da maldade e na magia da Literatura. Ah... A Literatura! Ela coloca 
fantasia na sola dos meus pés, arranca minha língua, educa meus ouvidos e 
quando dou por mim, sou mais um personagem dos Deuses de minha vida. 
Identifico-me bastante com Édipo, todos os dias, quando acordo, furo meus olhos 
para não enxergar a podridão do mundo. 
 
      O que falar da Literatura que provoca? Que destrói o belo e se masturba 
quando apresenta as baixezas do homem? Engana-se quem acredita que ela não 
espera por resposta. Todo bom livro delira de gratidão quando nos arranca uma 
lágrima, de alegria ou de dor, que usa, sabiamente, para afogar suas traças. 
 
      Nada há de extraordinário em minha vida. Rejeitado pelos meus pais, ainda 
adolescente, eu roubava para sobreviver. Amante da solidão, usava o dinheiro 
para pagar o quartinho fétido da pensão, comprar comida e livros nos sebos da 
cidade. Antes de dormir, sentava com alguma bebida barata e escrevia sobre o 
meu dia, hábito que mantenho até hoje. Escrever é minha única forma de perder a 
sanidade quando não estou vendo um bom filme ou lendo um bom livro. Não 
conseguindo viver na “normalidade”, escondo-me em qualquer lugar dentro das 
infinitas possibilidades das palavras, em seus altares devassos, em seus 
inferninhos divinos, onde o ponteiro do relógio move-se na velocidade e na 
direção dos meus pensamentos, onde a única lei é a de perder o juízo. Sem 
escrever, enxergaria minha existência da mesma forma que meus olhos, 
desprovidos de um espelho, enxergariam minhas costas. 
 
      Aos vinte e dois anos cometi o meu primeiro crime. A boa quantia em 
dinheiro apagou, rapidamente, qualquer possibilidade de remorso, afinal, aquele 
pobre homem poderia, ao atravessar uma avenida, tropeçar em alguma pedra solta 
e ser fatalmente atropelado. Quem pode prever o futuro nessa bola que gira 
manipulada pelo desconhecido? Desde então, passei a viver, sempre, de malas 
prontas. Não permaneço mais que uma semana na mesma cidade. Motivo pelo qual 
dou de presente meus livros assim que os termino de ler, mas sempre com a 
dedicatória: Cuide bem deste livro, ele salvará sua vida!  
 
     Hoje, o senhor me fez viver um fato curioso, mágico. Quero que atire nas 
duas partes podres do corpo daquela filha da puta: na buceta e no coração! 
Foram suas últimas palavras no início da noite. Depois de anotar o endereço, 
seu rosto, antes nervoso, estampou uma sensação de solidão absurda. Seria essa 
a face do amor contrariado? Por que sofrer por um simples abandono? Desgraça 
maior é morar num apartamento luxuoso sem estantes, sem livros! Bem, isso, 
agora, não importa. Saí da sua cobertura elegante, parei num boteco de esquina, 
em frente ao fatídico hotel e pedi um conhaque. Quanto mais aproximava a hora 
marcada, mais aumentava minha excitação. Uma espécie de gozo contido queimava 
meu juízo e me fazia beber compulsivamente. Não tardou para que ela aparecesse 
na rua deserta, com um vestido solto, preto, que lhe ia até a altura dos 
joelhos. Aproximei dela com a fúria de um animal selvagem desprovido de 
alimento. Assustada com o barulho dos meus passos, ela virou abruptamente e 
protegeu o peito segurando com as duas mãos um livro: Diário de um Ladrão, de 
Jean Genet! Gelei até os ossos. Em minha mente, somente, as palavras daquele 
Deus, cujo túmulo não poderia depositar flores: Conservei-me atento para 
agarrar esses instantes que, errantes, me pareciam estar a procura, como de um 
corpo, uma alma penada, de uma consciência que os anote e os experimente. 
Quando a encontram, param: o poeta esgota o mundo. Essa lembrança eletrizou 
meus cabelos, escorreu pelas minhas costas, preencheu minha coluna e virei 
verso. A minha alma farta de poesia assumiu proporções indescritíveis. Vestindo 
de letras as minhas fraquezas e a minha maldade, tornei-me a mais bela das 
criaturas. Observando a minha cara assassina coberta de vergonha, ela correu 
assustada, em direção ao hotel. Se prosseguisse com meu plano, desmoronaria. 
Não poderia matar alguém com um livro que me fez encontrar o vazio, a 
existência do mundo e a certeza de saber que não o possuo.  
 
      Coloco, agora, sob o seu cadáver essa carta para que outros a leiam 
quando o encontrarem em sua luxuosa cobertura "sem livros". Peço-lhe perdão, 
embora não sinta o menor arrependimento, afinal, você poderia tentar, 
novamente, matar o que temos de mais belo e raro: bons leitores! Quanto ao 
senhor, quem se importa? O senhor poderia atravessar uma avenida, tropeçar em 
alguma pedra solta e ser fatalmente atropelado. O que me resta dizer? Desgraça 
maior é ser Lady Macbeth e ser coroada com a loucura, é ser Othelo e não poder 
viver em paz seu grande amor, é viver numa mansão sem livros, é saltar para o 
nada sem ter conhecido o lirismo de Genet!
 
                                                                                
              
 
                                                                                
                                   Ass.:Um amigo.
 


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