matéria que publiquei no correio da tarde sobre a última eleição do beco, em
2006:

E tudo terminou em SambaPublicado no Dia 02/05/2006
*Alex de Souza*


“Aqui vale tudo, vale declarar voto - se quiser pode até anunciar no
megafone, vale propaganda, vale boca de urna, boca de fumo, vale tudo!"
Calma, não precisa chamar a Justiça Eleitoral nem a Polícia Militar. É só o
poeta Plínio Sanderson, presidente da comissão eleitoral, explicando como
funciona a democracia na Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências
(Samba). A eleição para a diretoria da associação de boêmios mais pitoresca
da cidade movimentou a tarde de sábado no Cento de Natal.

A urna foi liberada às 11h, sob um sol de rachar, na esquina das ruas
Coronel Cascudo e Doutor José Ivo, em frente ao bar Quatro Cantos. Inscritos
no "livro marrom" do Beco, 322 figuras estavam aptas a exercer o direito
etílico de escolher a nova diretoria.

Mas, convenhamos, ninguém acreditava que o Beco tivesse tanto freqüentador
assim. O "livro marrom", com a lista dos votantes, era uma esculhambação -
mas de respeito. Cada página vinha com o nome do votante, ou o número da
carteira de identidade, ou um apelido, ou só o número telefônico. Para
evitar a presença de fantasmas, cada chapa tinha um fiscal, com uma cópia
dos votantes, e cada voto era marcado nas duas cópias. Daí, não era de se
estranhar se demorasse um pouco para localizar o nome de alguém.

Quem chegava, fazia sua fezinha num dos candidatos, o jornalista Alex Gurgel
e o professor Ubiratan Lemos, o "Professor Bira", e ia engrossar a boca de
urna no Bar de Nazaré, na expectativa da apuração dos votos, programada para
as 17h30, no Bardallos.

Nas pesquisas de mesa em mesa, uma coisa era certa: mais do que 100 votantes
e o resultado seria uma incógnita. Menos que isso, dava Professor Bira. O
candidato Alex Gurgel, já pressentindo o pior, reclamava da 'politização' do
pleito. "O 'PCdoBeco' e o PT vieram votar em peso, o que vai pesar na hora
do resultado", declarou.

E foi dito e feito. Às 17h, a urna foi fechada, para tristeza do professor
Giancarlo Vieira e do sebista Harrison Gurgel, que chegaram com dois minutos
de atraso. A comissão eleitoral conferiu o número de eleitores que
compareceram e pediu a conta, ao som de Lapada na Rachada. Deu R$ 29: seis
cervejas, um prato de macaxeira com carne-de-sol ("e dois camarões de
brinde", acrescentou o fiscal Robério 'o Coisa'), um refrigerante e um
burrinho de cana. "Assim queria ver faltar mesário. Fica a sugestão para o
TRE", declarou Plínio Sanderson.

A festa se transferiu para o Bardallos, para tristeza de Dona Nazaré. Lá, o
primeiro aviso foi proferido pelo megafone: "Faltam cinco minutos para a
abertura da urna, favor trazer uma cerveja para a mesa de apuração." Quando
a apuração chegou à metade, todo mundo já sabia que o Professor Bira tinha
levado.

O que ficou difícil foi saber o número exato de votantes. A primeira
contagem de 100; a segunda, 99; teve uma até que findou em 98; e, por fim,
confirmaram 100 votos. Eleição de boêmio...

No final, o agradecimento dos candidatos, o discurso do eleito e a despedida
de Eduardo Alexandre, o Dunga, da presidência da Samba. Ainda teve um gaiato
que gritou: "Ele tá bêbado." Mas o professor Eugênio Soares rebateu de
pronto: "Quem não tá bêbado tá com inveja!" Ah, ia esquecendo: o resultado
oficial. Professor Bira levou 72 votos, Alex Gurgel teve 26 votos e dois
malucos conseguiram a façanha de anular o voto.

Dando vida ao Centro

A Samba vem desenvolvendo um trabalho de resgate do Centro Histórico de
Natal desde que foi fundada. De uma pequena agremiação de boêmios criada
meio que na galhofa, a Sociedade ganhou destaque nos últimos dois anos, sob
a presidência do poeta Eduardo Alexandre, com o desenvolvimento de
atividades como a Lavagem do Beco, que mobilizou artistas e intelectuais
para a importância do local, o Carna-beco, uma aposta na folia tradicional,
e o Prato-do-mundo, o festival gastronômico com iguarias dos botecos da
região.

O presidente eleito, Professor Bira, pretende dar continuidade a esses
projetos. E quer também aumentar a mobilização dos artistas que freqüentam o
espaço. "Queremos reforçar o compromisso com o resgate e conservação do
Centro Histórico e abrir espaço para movimentos culturais alternativos e
demais movimentos sociais", declarou. Um proposta de Bira é o "Dê uma hora
ao Beco", projeto que visa ajudar as crianças de rua que freqüentam o Centro
da Cidade. "É muito bom a gente se divertir, mas não custa nada tirar só uma
hora do dia para ajudar", explica.

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