É "Nós do Beco" na fita!  
     
      O Beco da Lama é rua sem vontade de avenida. E talvez pela simplicidade 
de essência se dispa do estigma de galinha e voe as alturas da águia. Consegue 
o barulho necessário aos ouvidos da província. A eleição para a nova diretoria 
da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências (Samba), na última 
sexta-feira, trouxe até parlamentar de Brasília para votação na Cidade Alta. 
São Pedro segurou a chuva. E Deus esperou mais um dia para levar um dos 
personagens mais enigmáticos daqueles chãos, o filósofo das ruas José Helmut 
Cândido, 76. Tudo para que a contagem dos votos transcorresse nas mais 
civilizada guerra comumente presenciada naquele território boêmio.

      Não fossem poucos os espaços na mídia nas últimas semanas, os 
becodalamenses elegem Lula presidente (não o Luís Inácio, da República 
proclamada após uma quartelada, mas o Augusto Luís, da Samba). Foram 93 votos 
para a chapa Nós do Beco contra os 63 conquistados pela chapa Acorda Samba, 
encabeçada pelo produtor cultural e poeta Eduardo Alexandre, o Dunga. Dos 158 
votantes, dois chapados anularam os votos (leia-se chapados como admiradores 
das duas chapas, ambas formadas por poetas, professores, artista plástico, 
produtores culturais, jornalistas, médicos, e outros profissionais liberais, 
libertários).

      Já no dia anterior começa a boca de urna; o beco diuturno entre em ação. 
Ligações sequenciais aos becodalamenses inscritos no chamado Livro Preto - de 
coloração cinza desbotado - ocorrem durante todo o dia. À noite, no Bardallos, 
os ânimos esquentam entre representantes das duas chapas. E o Beco volta ao 
status de galinha de voos baixos. A temperatura indicava dia quente para o dia 
seguinte. Mas a sexta-feira, Dia do Trabalho, foi mais ameno. O único ensaio de 
pugilato foi travado na adjacência mais tradicional do Beco, no Bar de Nazaré. 
Os dois candidatos à presidência da entidade, cerca de uma hora e meia antes da 
contagem, trocaram farpas. Nada muito além de acusações de rejeição.

      Mais à frente, onde o Beco é mais beco, próximo ao Bar de Nazi, a 
concentração maior de boêmios. Era local da urna, ou de um quase alforje 
lacrado com cadeado. Quem aparecesse na hora era cercado pela tentativa de 
convencimento. Tudo na santa democracia e a espera de um chorinho que nunca 
começava. Os ânimos subiram mesmo quando a ''urna'' seguiu para o Bardallos às 
17h, seguida por uma procissão, cortejo ou coisa parecida. Era o fim da 
votação. No bar de Lula (não os barbudos da República ou da Samba, mas o 
Belmont, do Bardallos), o tumulto foi formado. A comissão eleitoral formada 
pelo produtor Júlio César Pimenta, o poeta Cefas Carvalho e o professor Hélio 
Marques fugiram para a cozinha do restaurante/bar para, primeiro, jantarem após 
um dia sem comida nem arte.

      Na bancada de entrada da cozinha, muita gritaria. Dois representantes de 
cada chapa (apesar de a comissão eleitoral ser mista) acompanharam o jantar da 
comissão como provas comprobatórias da lisura do pleito. Pontualmente às 18h - 
hora marcada para início da contagem - a comissão, já no salão do bar e cercado 
de becodalamenses ávidos, iniciam a apuração dos votos. Os dois primeiros votos 
para a Acorda Samba acenderam esperanças vis. Aos poucos a chapa comandada pelo 
antigo presidente da entidade, Dunga, adormecia para um sono de mais três anos. 
Quando se contavam cerca de 80 votos e a diferença entre os dois era de apenas 
15, já se comemorava timidamente a vitória. E nem precisava da ciência de 
Francis Bacon estampada na camisa de Augusto Lula para decifrar: a chapa Nós do 
Beco era a dona da Samba.

      No dia seguinte, o folclore do Beco da Lama reaparece pomposo nas 
comemorações da vitória. O Presidente (da Samba) informa que recebeu telefonema 
da ministra Dilma Rousseff que, mesmo combalida pelo câncer, parabenizou a 
vitória e prometeu incluir os projetos culturais da Samba no PAC. Os buxixos 
contam que Lula (o tomador de run, não o de cachaça) se vendeu ao PT para, em 
alguma data destes próximos três anos, trazer o companheiro homônimo e menos 
importante aos chãos enlameados do Beco. A meladinha de Nazaré foi o principal 
argumento para o presidente (sim, o da República) aceitar o convite. O segundo 
foi a de que o PSTU e o PCdoB estão tomando conta do Beco. A terceira, última e 
mais evidente, é para estreitar os laços da Samba e a Fundação José Augusto, do 
petista Crispiniano Neto. Enquanto isso, Lula, o sambista, comemora os louros 
da vitória junto ao fiel Sancho Pança, Abimael Silva. 

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