Obrigado Presidente, Irá engordar minha caixa de informações sobre o meu querido Gargalheira (sem "s"). valeu
2009/5/11 augustolula <[email protected]> > > > > > > <http://tribunadonorte.com.br/coluna.php?id=2010>Por Woden > Madruga<[email protected]>| Esta coluna é atualizada diariamente > 10/05/2009 > Jornal de WM > > > O Gargalheira de Manoel Dantas > > William Pinheiro Galvão, graduado em História pela UFRN e pesquisador, me > manda uma preciosidade. Tirou de seu baú um artigo de Manoel Dantas, > publicado em A República, edição do dia 24 de julho de 1908. Temos aí quase > 101 anos. Fala sobre os primeiros estudos da construção do Açude Gargalheira > feitos por engenheiros ingleses que andaram pelo Seridó em 1880. Os gringos > chegaram ali não com o açude em suas cabeças, mas com o projeto - e essa > revelação para mim é inédita - do prolongamento da Estrada de Ferro Nova > Cruz a Natal (a Central do Rio Grande do Norte) até Caicó. > > Antes de transcrever o artigo faz-se necessário refrescar a cabeça do > pessoal mais jovem: Manoel Dantas foi um dos maiores jornalistas do Rio > Grande do Norte, um dos nossos intelectuais mais importantes. Diretor muitos > anos de A República. Era um estudioso dos problemas de sua terra: > historiador, geógrafo, economista. Foi fotógrafo, escritor, educador, > magistrado, polà tico (deputado estadual) e prefeito de Natal. > > O seu artigo é perfeito como texto jornalístico. E revela, além dos > aspectos sociais, econômicos e políticos do Rio Grande do Norte no começo > do século passado (e muita coisa não mudou), a visão de um sertanejo lúcido > e culto antenado com a realidade é os problemas de sua terra e de sua gente, > a partir, inclusive, do flagelo de uma seca. Um destaque especial para o > estilo e linguagem do autor. É rica essa história do Gargalheira, sempre > cheia de surpresas. como esta agora revelada pelo mestre Manoel Dantas: > > *O açude Gargalheira > * > O governo municipal do Acary representou ao governo do Estado sobre as > condições aflitivas em que se acham os habitantes daquela zona sertaneja, > presentemente a mais assolada pela seca. Numa terra de mais de vinte léguas > de extensão, por dez a quinze de largura, compreendendo parte dos municípios > de Acary, Curraes Novos, Jardim e Fl ores, somente em fevereiro caíram > chuvas finas e parciais que não chegaram a fazer recurso para a criação. > > Poucos foram os açudes que tomaram água; e os moradores à margem dos > riachos estão se mudando para a beira do Rio Acauhã, por falta d'água para > beber. Os criadores, já muito onerados de prejuízos com a seca do ano > passado, retiraram seus gados para o Trahiry e o Potengy. Nos campos não se > vê mais uma folha verde; no chão não existe um pé de capim. Os recursos de > mais de 30.000 habitantes cifram-se na pequena safra de algodão e borracha - > o que está quase a concluir-se - e nas "vasantes" da areia do rio. > > Para cúmulo de infortúnio, ao começar agora nas "vasantes" a colheita de > batata e feijões, caiu na Serra da Borborema uma chuva perdida que fez o rio > correr, destruindo grande parte das plantações. No Rio Carnaúba, que deixou > uma pequena enxurrada em fevereiro, a população retirou as areias secas até > dar no molhado, faze ndo depois plantações de batata e feijão. Dentro em > breve, a pobreza daquela zona só contará para a sua alimentação com recursos > do mato, isto é, o xique-xique, a raiz da maniçoba e do umbuzeiro, comidas > nocivas que irão pouco a pouco envenenando e dizimando aquela laboriosa e > forte população digna de melhor sorte. > > A Intendência Municipal do Acary, no cumprimento do seu dever cívico, expôs > tudo isso aos poderes públicos; e achando incompatível com a dignidade do > cidadão pedir uma esmola para os que vão se ver a braços com a miséria, > pediu trabalho que conservando a população em seus hábitos e nos seus > lugares, servirá ao mesmo tempo de meio preventivo contra futuras secas. > Para isto, indicou as obras do açude da "Gargalheira" que, independente de > muitos e demorados estudos, em poderiam ser logo iniciadas. > > Este açude, no pensar de todos os engenheiros que lhe têm visitado o local, > será um dos mais proveitosos do Estado, pela facilidade da construção e a > excelência das terras que serão irrigadas. Todos que o têm examinado, mesmo > superficialmente, ficam deslumbrados pela grandeza incomparável dessa obra > gigantesca. Em 1880, quando andou pelo Seridó uma comissão de engenheiros > ingleses explorando o prolongamento da "E.F. Natal a Nova Cruz", ficou tão > impressionado com o "Gargalheira", que mandou estudar a obra. > > Quando removeu-se daqui para Londres o arquivo da "Natal a Nova Cruz" > estive com estes estudos em mão e muito me arrependo de não ter tirado cópia > deles. O engenheiro inglês classificou o açude da "Gargalheira" de obra > maravilhosa, igual as que o governo britânico tem mandado executar na Índia; > calculou que o volume d'agua represada era tal que formaria um lago > artificial de cerca de 450 quilômetros quadrados de superfície. > > A "Gargalheira" é uma garganta da serra, como poucos metros de largura, > apertada entre duas moles de granito de grande altura. A pedra para a > construção fica no pé da obra. O engenheiro inglês em seu relatório, chamou > a atenção para essa facilidade e barateza da construção. Os terrenos a > juzante da barragem são excelentes, porem estreitos. Mas, a montante, formam > o belíssimo vale do Acauhã, até Curras Novos, numa extensão de quatro lagoas > com, em alguns lugares, três lagoas de largura, devido aos riachos que > descem das serras laterais. A capacidade da bacia hidrographica do > "Gargaheira" pode-se avaliar pelos seguintes dados: o Rio Acauhã nasce perto > de Campina Grande, na Parahyba, fazendo até a Gargalheira um percurso de > cerca de 150 quilômetros, com outros tantos de largura entre os pontos > extremos dos diversos afluentes. > > Há mais de duzentos anos que aqueles são povoados e nunca o rio Acauhã > deixou de passar com água pelo Gargalheira. Uma obra dessa natureza, > colocada como se acha entre os municípios de Acary, Jardim, Curraes Novos e > Flores (as distâncias ás sede s desses municípios são: Acary 4 kilom, > Curraes Novos, 20, Jardim, 30, Flores 40) reúne todas as condições que se > requerem na açudagem: bacia hidrographica bem desenvolvida, bons terrenos > aproveitáveis, facilidade e barateza da construção. > > Uma outra consideração, para terminar: quando se fizer a construção da > E.F.C. do Rio Grande do Norte até Caicó, o ramal do Acary impõe-se pela > situação geográfica daquela cidade, colocada no centro de uma grande zona > produtora, destinada a ser empório de importantes centros vizinhos que já > gozam de certo desenvolvimento, como Curraes Novos, Picuhy, na Parayba, > Parelhas, Jardim, etc. Mas o Acary tem excassez d'agua potável, porque o > rio, nas imediações da cidade é todo tomado de pedras. O açude Gargalheira > viria ainda resolver o problema do abastecimento d'agua a uma das futurosas > cidades do sertão. > > > -- Hugo Macedo www.fotohugo.blogspot.com
