22/05/2009 Caça às bruxas e poções mágicas tornam líder de Gâmbia mais
temido [image: The New York Times] <http://noticias.uol.com.br/ultnot/tnyt/>
Adam Nossiter
Em Jambur (Gâmbia)
Os cidadãos de Gâmbia, este pequeno país do oeste da África com 1,7 milhão
de habitantes, estão familiarizados com as ações imprevisíveis do seu líder
absoluto, que insiste em ser chamado de Sua Excelência Presidente Professor
Doutor Al-Haji Yahya Jammeh: a cura dele para a Aids, à base de ervas e
bananas, a sua ameaça de decapitar os gays, a lei baixada por ele próprio
determinando que só o presidente pode passar sob o enorme arco que comemora
o seu golpe de Estado na arruinada capital do país, Banjul, e o seu retrato
colocado ao longo das ruas e estradas. Isso para não mencionar o
desaparecimento de documentos, a tortura e a prisão de dezenas de
jornalistas e oponentes políticos.
[image: Jane Hahn/The New York Times] O imame Karamo Bojang (esq.) com
sua mulher Amimata Ndong, em sua casa em Jambur
Mas a seguir surgiu uma campanha tão desnorteante e estranha que os cidadãos
ainda estão atordoados e literalmente nauseados com ela, semanas após o seu
aparente término. Ao que parece, o presidente passou a se preocupar com a
existência de bruxas neste país de mangueiras, arbustos tropicais, estradas
de terra, inumeráveis barreiras policiais e uma costa atlântica frequentada
por turistas em busca de sol, que em sua maioria desconhecem o que se passa
na Prisão Estadual Central Mile 2, para onde muitos oponentes do regime são
levados.
Segundo relatos de moradores e da Anistia Internacional, dezenas, ou talvez
centenas de gambianos foram retirados de suas vilas ao som de tambores, e
guiados por homens usando túnicas vermelhas decoradas com espelhos e conchas
marinhas, levados de ônibus para locais secretos. Lá eles foram obrigados a
tomar uma infusão malcheirosa que fez com que tivessem alucinações e dores
fortes no estômago. Além disso, após tomarem a poção, alguns se sentiram
compelidos a tentar cavar um buraco no piso de cerâmica, enquanto outros
procuraram escalar uma parede. Alguns morreram.
As autoridades disseram aos moradores que o objetivo disso tudo era
erradicar as bruxas, feiticeiras malignas que estariam prejudicando o país.
Aterrorizados, dezenas de outros indivíduos fugiram para a selva ou para o
Senegal a fim de escapar da poção, o que deixou regiões inteiras desertas. A
Anistia Internacional calcula que pelo menos seis pessoas morreram após
terem sido obrigadas a beber a poção, cuja composição é desconhecida.
A operação durou do final de janeiro até março, segundo os moradores daqui.
Mas, mesmo nas últimas semanas, os mesmos caçadores de feiticeiras vestidos
de vermelho, acompanhados por outros indivíduos identificados como agentes
do governo, circularam pelo paupérrimo interior do país - com uma renda per
capita de US$ 270, Gâmbia ficou em 195º em uma lista de 209 países feita
pelo Banco Mundial -, exigindo que a população sacrificasse um bode e um
galo avermelhados, a fim de erradicar a bruxaria que supostamente estaria
entranhada nas vilas.
Autoridades do governo gambiano não responderam às mensagens de e-mail e
telefonemas, e o governo não comentou os artigos relatando a campanha
anti-bruxas que foram publicados no jornal oposicionista "Foroyaa" (que quer
dizer "Liberdade", na língua local mandinka), segundo o editor do jornal,
Sam Sarr. A Anistia Internacional relata que recebeu um comunicado de
imprensa do procurador-geral do país declarando que as atividades de caça a
bruxas são "inconcebíveis".
Mas os relatos são numerosos, e os especialistas nesta ex-colônia britânica
não duvidam de que as operações de caça a bruxas tenham de fato ocorrido em
tal escala.
Os moradores das vilas dizem que as operações foram conduzidas pelos "Green
Boys" ("Garotos Verdes") do presidente. Os Green Boys são os aliados mais
ativos de Jammeh, verdadeiros "vigilantes durões", segundo Abdoulaye Saine,
cientista político da Universidade Miami de Ohio. Eles vestem-se - e às
vezes pintam também o rosto - de verde, a cor do partido político de Jammeh,
a Aliança de Reorientação e Construção Patriótica. Segundo testemunhas e
jornalistas locais, as operações de caça a bruxas foram feitas na base da
força e com o uso de armas, e tiveram como alvo principalmente pessoas
idosas.
Até mesmo no contexto muitas vezes brutal dessa ditadura de 15 anos, estas
operações se destacaram, segundo os poucos críticos ostensivos do
presidente. Desde o golpe de 1994 que o colocou no poder, pelo menos 27
jornalistas fugiram do país. Um deles foi assassinado e outro não é visto
desde a sua prisão pela temida Agência Nacional de Inteligência. Outros
descreveram as prolongadas torturas com choques elétricos e o uso de facas e
cigarros acesos nas prisões de Jammeh.
Mas, desta vez, as vítimas não foram jornalistas nem oponentes políticos.
"Há a sensação de que, se isso aconteceu, qualquer coisa pode acontecer",
afirma o líder da oposição, Halifah Sallah, líder da minoria no Parlamento
de 2002 a 2007. Sallah foi preso quatro vezes. A sua última prisão ocorreu
por ele ter se manifestado contra a caça a bruxas.
"As pessoas não contam mais com a proteção das leis", diz Sallah. "Durante a
caça a bruxas, o povo de Gâmbia entrou em pânico", afirma Sallah.
Nas ruas movimentadas de Serrekunda, um subúrbio de Banjul, as pessoas estão
com medo. "Todos eles são oposição. Mas eles não estão falando, porque quem
fala vai parar na polícia", afirma Lalo Jaiteh, um empresário de construção,
apontando nervosamente para uma fileira de quiosques.
A ansiedade persiste. "A acusação de bruxaria gera vergonha em uma sociedade
na qual a crença em feitiçaria ainda é generalizada", afirma Lamin Sanneh,
um historiador gambiano que leciona na Universidade Yale. "Além disso existe
o trauma de ser preso e a doença que, segundo o povo, persiste devido à
poção amarga".
"O estigma nos acompanhará até a sepultura", lamenta Dembo Jariatou Bojan,
diretor do comitê de desenvolvimento de Jambur, uma cidade poeirenta que
fica a cerca de 25 quilômetros da capital. "Jamais nos esqueceremos disso".
Ele disse que foi preso, junto com 60 outras pessoas, após ter sido atraído
pelas batidas de tambores na praça da cidade. Levado de ônibus para um local
que não conhece, Jariatou Bojan foi obrigado a beber e a se banhar em um
líquido fedorento.
"Às vezes a minha cabeça ainda dói", afirma Jariatou Bojang.