O PASSEIO SOCRÁTICO... S.O.S VIDA
Por Frei Beto
Realmente, esse artigo é imperdível. Grande figura esse Carlos Alberto Libânio
Christo (Frei Beto) é da mesam estirpe do Leonardo Boff e do Pedro Casaldáliga.
Boa leitura,
FE
Frei Beto
Ao visitar em agosto a admirável obra social de Carlinhos Brown, no Candeal, em
Salvador, ouvi-o contar que na infância, vivida ali na pobreza, ele não
conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha, feijão, frutas e hortaliças.
"Quem trouxe a fome foi a geladeira", disse.
O eletrodoméstico impôs à família a necessidade do supérfluo: refrigerantes,
sorvetes etc. A economia de mercado, centrada no lucro e não nos direitos da
população, nos submete ao consumo de símbolos. O valor simbólico da mercadoria
figura acima de sua utilidade. Assim, a fome a que se refere Carlinhos Brown é
inelutavelmente insaciável.
É próprio do humano - e nisso também nos diferenciamos dos animais - manipular
o alimento que ingere. A refeição exige preparo, criatividade, e a cozinha é
laboratório culinário, como a mesa é missa, no sentido litúrgico.
A ingestão de alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo desprovido de
arte. Entre humanos, comer exige um mínimo de cerimônia: sentar à mesa coberta
pela toalha, usar talheres, apresentar os pratos com esmero e, sobretudo,
desfrutar da companhia de outros comensais.
Trata-se de um ritual que possui rubricas indeléveis. Parece-me desumano comer
de pé ou sozinho, retirando o alimento diretamente da panela.
Marx já havia se dado conta do peso da geladeira. Nos "Manuscritos econômicos e
filosóficos" (1844), ele constata que, "o valor que cada um possui aos olhos do
outro é o valor de seus respectivos bens.
Portanto, em si o homem não tem valor para nós. "O capitalismo de tal modo
desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também consumidos. As
mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam
meu valor social.
Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da
pobreza e à cultura da exclusão.
Para o povo maori da Nova Zelândia cada coisa, e não apenas as
pessoas, têm alma. Em comunidades tradicionais de África também se encontra
essa interação matéria-espírito. Ora, se dizem a nós que um aborígene cultua
uma árvore ou pedra, um totem ou ave, com certeza faremos um olhar de desdém.
Mas quantos de nós não cultuam o próprio carro, um determinado vinho guardado
na adega, uma jóia?
Assim como um objeto se associa a seu dono nas comunidades tribais, na
sociedade de consumo o mesmo ocorre sob a sofisticada égide da grife.
Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se adquire um carro, e sim
uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um Château Margaux. A roupa pode ser a
mais horrorosa possível, porém se traz a assinatura de um famoso estilista a
gata borralheira transforma-se em cinderela...
Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura neoliberal nos
faz acreditar que delas emana uma energia que nos cobre como uma bendita unção,
a de que pertencemos ao mundo dos eleitos, dos ricos, do poder. Pois a
avassaladora indústria do consumismo imprime aos objetos uma aura, um espírito,
que nos transfigura quando neles tocamos. E se somos privados desse privilégio,
o sentimento de exclusão causa frustração, depressão, infelicidade.
Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos cobiçados, é alçada
ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela se torna também objeto,
confundida com seus apetrechos e tudo mais que carrega nela, mas, não é ela:
bens, cifrões, cargos etc.
Comércio deriva de "com mercê",com troca. Hoje as relações de consumo são
desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas pelas pessoas.
Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia, criavam vínculos entre o vendedor e
o comprador, e também constituíam o espaço das relações de vizinhança, como
ainda ocorre na feira.
Agora o supermercado suprime a presença humana. Lá está a gôndola abarrotada de
produtos sedutoramente embalados. Ali, a frustração da falta de convívio é
compensada pelo consumo supérfluo. "Nada poderia ser maior que a sedução" - diz
Jean Baudrillard - "nem mesmo a ordem que a destrói."
E a sedução ganha seu supremo canal na compra pela internet. Sem sair da
cadeira o consumidor faz chegar à sua casa todos os produtos que deseja.
Vou com freqüência a livrarias de shoppings.. Ao passar diante das
lojas e contemplar os veneráveis objetos de consumo, vendedores se acercam
indagando se necessito algo. "Não, obrigado.
Estou apenas fazendo um passeio socrático", respondo. Olham-me
intrigados. Então explico: Sócrates era um filósofo grego que viveu
séculos antes de Cristo. Também gostava de passear pelas ruas
comerciais de Atenas. E, assediado por vendedores como vocês,
respondia:
"Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz".
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