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2ª feira, 1º de junho de 2009 – ISSN *0033-1983*

*O dilema da esquerda social gaúcha***

Vila Setembrina, Bruno Lima Rocha

Inicio minha contribuição neste espaço abordando um tema delicado. Não se
trata necessariamente dos supostos esquemas de corrupção que estaria
envolvendo o Executivo estadual tendo a economista neoclássica Yeda Crusius
à frente. A intenção das modestas linhas que seguem é fazer um diálogo a
respeito das possíveis travas ao impedimento e conseqüente derrubada do
governo tucano no pago. Vejo esta abordagem como até agora pouco ou nada
explorada, e reconheço que o assunto é no mínimo delicado.

Faço uma ressalva antes de seguir. Quero discutir uma hipótese. A de que os
que hoje são oposição no parlamento gaúcho não têm a vontade política
necessária para derrubar um governo cambaleante. Isto não representa manobra
diversionista e tampouco uma cortina de fumaça tentando escamotear a crise
política sem precedentes que se encontram as elites decisórias e as
respectivas instituições estatais na província. Entendo que estamos num
ambiente de desconfiança coletiva e como tal é essencial para qualquer
operador, analista, participante e leitor atento acompanhar o desenrolar dos
fatos e suas derivações. Esta abordagem é mais do que válida, e o tema já
vem sendo coberto pela mídia comercial e alternativa do Rio Grande. Para os
leitores mais interessados, tomo a ousadia de propor a leitura cotidiana da
página de jornalismo digital, a excelente Nova
Corja.<http://www.novacorja.org/>Mas, repito, não é disso que trata o
presente e breve artigo.

Retomo aqui algo que foi debatido durante e após a jornada repressiva de
junho de 2008 tendo à frente o então comandante-geral da Brigada Militar,
coronel de polícia Paulo Roberto Mendes. Naquele gélido final de outono, o
coronel Mendes foi um dos artífices que segurou Yeda Crusius no Piratini. Os
custos democráticos dessa “governabilidade” incluem nesta fatura algumas
dezenas de cabeças e braços quebrados. Mas, naquele momento, o ápice da
crise implicava uma avançada do protesto popular disposto a pagar os preços
necessários para cumprir uma vontade política. Não foi o que se viu.

A maior parte dos operadores políticos centrou seus esforços no relatório
final da CPI do DETRAN-RS, projetando sua figura individual. Os
parlamentares daquela Comissão alimentaram, através de sua performance
política e midiática, suas possibilidades eleitorais em dois momentos. Um,
no imediato, na eleição municipal cuja campanha começaria no segundo
semestre de 2008. No segundo momento, na projeção de seus nomes para as
eleições gerais de 2010. Ou seja, estaríamos neste momento vivendo o início
do segundo tempo da partida cuja meta é desgastar o governo de Yeda, e não
retirá-la.

Reafirmo o que disse em outras situações e espaços. Relatório final de CPI é
uma peça de julgamento político, quase sempre sem conseqüências legais
diretas. Vejamos o relatório final das duas CPIs que analisaram o chamado
mensalão. O procurador-geral Antonio Fernando de Souza formalizou a denúncia
contra 40 acusados do esquema de compra de votos na Câmara Federal e ninguém
teve o julgamento concluído até o presente momento. O mesmo se deu em escala
estadual, com os acusados da Operação Rodin. Em tese, a juíza Simone
Barbisan Fortes, da 3ª Vara Federal de Santa Maria deveria concluir todo o
processo no correr de um ano. Já estamos nos aproximando da data prevista e
o caso está longe de terminar. Mais uma vez eu pergunto qual o sentido de
protelar uma luta social urgente substituindo-a por uma agenda
institucional?

A polêmica não é de pouca monta e traz em si a própria concepção de
militância popular e independência das entidades sociais para com os
partidos eleitorais. Pode-se perguntar, porque o conjunto de entidades do
movimento sindical, estudantil e popular aceitou fazer uma luta pela metade
(a de maio e junho de 2008), subordinando suas urgências de embate contra o
eucalipto e o gerencialismo no serviço público para a pauta eleitoral? A
única certeza conceitual que tenho é dura de ser admitida. A subordinação de
uma agenda sobre outra opera como freio da reivindicação direta, impedindo a
ação estratégica em nome de um projeto geral de governo. Como estamos em
regime de democracia representativa, sob a lógica do partido de
intermediação, a acumulação de forças deve ser traduzida em voto eletrônico
na urna e não em setores de classe mobilizados através de auto-organização.

Agora se repete a mesma história. Ouvi de mais de uma dezena de militantes,
todos com níveis de responsabilidade em suas entidades, a dúvida se deveriam
ir a fundo ou não no processo que pode vir a derrubar o governo Yeda
Crusius. O raciocínio toma por base o casuísmo. Argumentam que se Yeda cair,
Paulo Afonso Feijó (o ex-presidente da Federasul que é vice pelo DEM) pode
tentar acelerar processos de privatização do que restou do Estado gaúcho.
Afirmo que o argumento é falso. Se a economista da UFRGS sair o vice que é
empresário não governa. Isto porque não terá condição alguma de exercer o
final de mandato que lhe resta. Viveria uma situação parecida com a que
padecera a petista Benedita da Silva quando assumiu o governo fluminense em
2002, completando os meses que restavam para Antônio Matheus (o radialista
Anthony Garotinho). Assim, não há o que temer de um hipotético e pouco
provável governo Feijó.

Um tema recorrente entre militantes da oposição política no Rio Grande é
cogitar “se não seria melhor manter Yeda no cargo e não forçar um
impedimento, facilitando assim uma vitória eleitoral”. Repito este argumento
também como falso. Diante desse raciocínio, não haveria luta política para
derrubar o hoje senador pelo PTB/AL e base de apoio do governo Lula,
Fernando Collor de Mello, no dia 2 de outubro de 1992. Qualquer analista irá
discernir com precisão de que a queda de Collor foi uma soma de fatores,
incluindo a desconfiança do empresariado nacional e do capital estrangeiro
para com a sua conduta.

Mas, independente do cenário complexo onde por seis meses, de maio a outubro
de ‘92, se desenvolveu a seqüência de escândalos e defecções na interna da
Casa da Dinda, a experiência foi válida. O povo brasileiro experimentou a
sensação de uma vitória pontual, articulada nos bastidores, mas ganha nas
ruas. Não há luta popular sem conflito interno e nem “processo social puro”.
No longo prazo, os efeitos são positivos no sentido de mudar o eixo da
democracia realmente existente no Brasil, de representativa e oligárquica,
para participativa e popular.

No momento em que o descrédito e a desconfiança para com as instituições de
governo e de representação política abundam na Província, é necessário girar
o eixo político dos gaúchos. Não podemos delegar a decisão da permanência ou
não de um governo a um inquérito policial. Assim, duas medidas deveriam ser
emergentes. Uma medida é Exceção da Verdade e a divulgação do que existe de
prova material contra o governo gaúcho e sua base de apoio. As acusações se
centram nas operações da Polícia Federal, a Rodin e a Solidária, e envolvem
quase toda a elite política do pago.

A segunda medida é uma decisão política. Embora a CPI da Corrupção seja algo
importante, as forças da esquerda social gaúcha não devem apostar todas as
suas energias nesta Comissão. Mais uma vez remonto a Era Collor. Seria muito
mais confortável para o descalabro da época ter de enfrentar uma ou mais
CPIs simultâneas do que o movimento Fora Collor nas ruas. O oposto se deu
durante a crise política de 2005. Com a ausência da base popular mobilizada,
não houve como traduzir a indignação popular com o Mensalão em protesto
direto contra o governo que se aliara com os herdeiros da ARENA. Nunca se
pode esquecer que a composição da aliança do governo Yeda no Rio Grande é
muito parecida com a de Lula no Planalto.

O cenário político profissional não é promissor. Para decidir a batalha da
crise política gaúcha, onde a desconfiança coletiva atira no limbo a suposta
reputação das legendas estaduais, não se pode contar com quem também é
responsável por tudo o que ocorre no país. Um povo adquire confiança quando
se move e percebe suas vitórias, mesmo que pontuais. É apostando na
capacidade de reação popular que se acumula força para outro projeto de
democracia. É neste caminho, o da independência das entidades, onde se pode
trilhar e fortalecer a democracia participativa.

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