ESTRATÉGIA E ANÁLISE
 03 de Junho de 2009 - ISSN 00331983
Os anarquistas bolivarianos da Venezuela
Bruno Lima Rocha, 28 de Maio de 2009 

“!Oligarcas temblad, Viva La Libertad!” 

Em janeiro de 2009 pude conhecer Caracas e seu distrito metropolitano. Afirmo 
que viajei a trabalho e sem nenhum vínculo ou despesas pagas por governo algum. 
É importante reafirmar a condição da viagem porque, infelizmente, a capital do 
país de Simón Rodríguez e Ezequiel Zamora, está servindo de lugar de romaria 
para uma esquerda latino-americana carente de referenciais e recursos. Não é o 
caso dos anarquistas especifistas politicamente organizados, onde modestamente 
me incluo. 
Uma das razões de ir à Venezuela foi conhecer o pensamento e ação libertários 
dentro do movimento bolivariano. Os objetivos foram cumpridos. Fizemos contato 
com valorosos companheiros, isolados internacionalmente e caluniados por uma 
ala esquálida que se diz libertária. Existem militantes anarquistas, nucleados 
em um pequeno grupo que se alinha com o especifismo, mas ainda se portando como 
grupo de afinidade, chamado de Teseracto Bolivariano Anarquista Salom Mesa 
(Teseracto). Este grupo se relaciona com dois referentes, veteranos militantes 
que dedicaram suas vidas à causa ácrata, embora por vezes de forma muito 
heterodoxa. 

Falo especificamente de dois compas, Floreal Castilla e Maurício Torres. O 
primeiro começou no anarquismo ainda nos anos ’60, logo depois de se afastar do 
Movimento de Izquierda Revolucionaria (MIR-Venezuela), organização 
político-militar que pegou em armas nas montanhas do oeste. Já Maurício tem uma 
trajetória que inicia em 1983, sempre com muita dedicação. Torres foi expulso 
da escola de formação de professores e por quase vinte anos trabalhou de forma 
precarizada. Dentre várias atividades, tomou parte do levante cívico de 27 de 
novembro de 1992 (o de Hugo Chávez y Pancho Arias foi em 4 de fevereiro daquele 
ano), que tentou pela segunda vez depor o presidente corrupto Carlos Andrés 
Pérez. 

O vínculo dos militantes do Teseracto, além de companheiros soltos em 
movimentos bastante combativos, com estes dois referentes vivos, assegura a 
continuidade da ideologia no país. A partir do início dos anos ’80, o 
anarquismo venezuelano tenta pôr a cabeça para fora dos círculos de idéias e 
difusão, mas com intentos de inserção social e ação direta. Não faltaram erros, 
mas sobrou generosidade política. A falta de modelos organizativos pode ter 
levado a vários equívocos, mas nunca o pior erro que um libertário pode 
cometer: a omissão política. 
Após os dois levantes de 1992, a libertação dos insurretos em 1995 (incluindo o 
próprio Chávez, indultado pelo Congresso) e a eleição do tenente coronel 
pára-quedista, o país mudou.. A radicalização política veio num crescente, 
tendo como auge, a tentativa de golpe midiático de abril de 2002. O morro 
desceu e a barriada não deixou a direita retomar o poder político. Nas ruas, de 
forma individual ou em pequenos grupos, estavam militantes hoje reconhecidos 
como anarquistas bolivarianos, levantando a bandeira negra e vermelha dentro 
das bases sociais mobilizadas. De comum os une uma definição de estar junto ao 
processo de câmbio, mas sem se alinhar como chavistas e nem ingressar na 
legenda oficial, o Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV). 

O problema é expor essa posição sem consistir em uma alternativa política 
definida (como o especifismo) e com o ideal libertário contaminado pela 
desinformação. Construir esta alternativa política é a tarefa a qual todos 
temos de ajudar. 

O anarquismo de tipo de gorila se complica e confunde ao seu redor 

Em 1993, cai o presidente corrupto, e junto com ele, todo o sistema político 
instituído no Pacto de Punto Fijo (1958), onde Ação Democrática (AD, “adecos“), 
Copei (Democrata Cristão, “copeyanos”) e União Republicana Democrática (URD) se 
revezavam no poder. O acordão oligárquico e vende pátria fez com que a política 
na Venezuela fosse um jogo para poucos. Esse elitismo, também de corte 
intelectual, contaminou o comportamento de todas as esquerdas, incluindo suas 
alas extremas. O “anarquismo” não escapou desse mau. 

Seria leviano omitir a existência de uma ala libertária com maior visibilidade 
mundial, mas que no seu país, marcha ao lado da direita oligárquica, cumprindo 
muitas vezes um papel de tropa de choque dos políticos profissionais derrotados 
pelo populismo. Esta vergonha não é exclusividade de “anarquistas” 
desorientados ou manipulados por intelectuais com trajetória de “adecos”. 
Outros grupos, como Bandera Roja (marxista com tradição de luta, inserção e 
mártires), hoje joga na 5ª coluna e alinha com as legendas da direita. 
Infelizmente, nada disso é novidade na América Latina. 

A difícil tarefa de manter a independência política no contexto venezuelano 

O que hoje ocorre na Venezuela, de uma parte do anarquismo se equivocar e 
considerar que o corte autoritário da liderança política impossibilita todo um 
processo de avançada popular - ainda em aberto - já se deu em outras 
conjunturas. O correto seria manter uma posição crítica, à esquerda do governo 
populista, e não alinhando com os golpistas financiados pela CIA. A organização 
Resistência Libertária da Argentina dos anos ‘70 e a extrema-esquerda chilena 
durante o governo Allende (MIR e MAPU, por exemplo) abriram um caminho onde se 
pode atuar de forma contundente sem ter posturas nem adesistas e nem anti-povo. 

O pensamento libertário está presente numa parte das bases bolivarianas, 
especialmente nos movimentos de cunho autogestionários – a chamada esquerda 
social. Transformar este conjunto de idéias em pensamento e ação políticos é 
trabalhar num terreno fértil. Embora o processo venezuelano seja marcado por 
uma liderança carismática, a crítica da democracia representativa habilita a 
compreensão de que os líderes políticos devem estar sob comando das bases e a 
serviço das causas coletivas. 

Dentro dessa lógica, identifiquei movimentos de luta onde os anarquistas têm 
espaço amplo para se inserirem, tais como: Anmcla, Misión Boves, Movimiento 
Campesino Ezequiel Zamora, nas esquerdas estudantis, em centenas de comunidades 
de base e no reconstituído movimento sindical. Se os compas venezuelanos 
trabalharem socialmente e tiverem afinco na construção política orgânica, em 
breve, as classes oprimidas da terra de Bolívar terão uma ferramenta de luta 
pelo socialismo e pela liberdade. 


Observação: este artigo foi originalmente publicado na versão impressão do 
jornal Socialismo Libertário, órgão oficial de difusão do Fórum do Anarquismo 
Organizado (FAO), instância de coordenação nacional onde a FAG pertence.
Leia Mais:
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Estratégia & Análise: a política, a economia e a ideologia na ponta da adaga.
 
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