Colunista: Vicente Serejo

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coluna]<http://www.jornaldehoje.com.br/novo/navegacao/colunas.php?id_coluna=23>
07.02.2009 O conde ítalo-Austríaco da "Algimar" *O Conde da Algimar era
realmente como Lenine Pinto descreveu: alto, avermelhado, de sotaque
afrancesado, sempre vestido com roupas leves para uma cidade de clima
tropical e derramada diante do mar. Nas suas entrevistas, desenhava um mundo
de progresso a partir das algas marinhas e assim conseguiu que muitos
pescadores abandonassem as redes e os anzóis, e também suas mulheres e
filhos, e se transformassem, ao longo do litoral, em catadores de algas. Ele
prometia que o Rio Grande seria conhecido como o maior produtor de
'agá-agá', uma substância milagrosa indispensável à fabricação de cosméticos
de alta qualidade e requinte, para o rejuvenescimento das francesas, suíças
e americanas. Instalou postos e, na estrada da Redinha, chegou a montar uma
fábrica de beneficiamento. Era tudo de faz de conta. Quando foi um dia,
desapareceu.*

*O conde ítalo-Austríaco da "Algimar"*
Lenine Pinto

Os favorecimentos da Sudene atraíram aventureiros de várias classes e
latitudes: Bruno, Cristóvão Rego, e até um ítalo-austríaco, figura fugidia
dos batalhões de Carabinieri ou do Reichswehr: alto, corado, óculos com
armação de ouro, o Conde Steinberg (título certamente fajuto) desses tipos
mafiosi de carteirinha. Numa cidade onde a "aristocracia" não atende
telefone, onde pequenos comerciantes - o vendedor de bijouterias, o
fornecedor de suprimentos para navios, o vendedor de discos, o de vestuário
masculino, o exportador de algodão e até um alfaiate a quem eram deferidos
títulos honoríficos de "agente consular" - meros atendentes de imigrantes -
sem o privilégio sequer de carimbar passaportes com "vistos" de entrada nos
países que representavam, exibiam em seus carros placas verdes com o vistoso
"C.D." privativo dos serviços diplomáticos oficiais, e as últimas dondocas a
ver um autêntico nobre de sangue azul foram as vovós das dondocas de agora,
ao aplaudirem, à distância dos palanques do governador Juvenal Lamartine, ao
aviador Marquês de Pinedo, em 1927. Está bem que pelo menos duas das moças
da Natal dos anos 30, casaram com engenheiros italianos: Anita Brandão com
Aldo Catella, e Juracy Lamartine com Aldo Cariello.
O aparecimento desse conde que chegou "oferecendo papéis" para um projeto de
beneficiamento das algas marinhas que tanto irritam os frequentadores de
nossas praias, foi um sucesso estrondoso. De repente, o velho e abundante
sargaço que se enrosca nas pernas e esconde peixes agressivos ganhou status
de matéria prima miraculosa. Todos se embasbacaram com o discurso do Conde –
retransmitido por Ewaldo Maia e Luciano Toscano - sobre a transformação do
sargaço em produto "rejuvenescedor" aplicável às indústrias farmacêutica, de
cosméticos, conservação de alimentos e até no preparo de sorvetes. Que tal
trocarmos o nosso Ster Bom por um cremoso Haagen-Dazs?
Os arautos do progresso e da implantação da novel indústria divulgavam fotos
e traços biográficos do Conde nas colunas sociais da imprensa local,
enquanto empurravam ações da Algimar. Luís Maria Alves, diretor do Diário de
Natal e entusiasta de modernidades, destacou Vicente Serejo, então repórter
do jornal, para entrevistar o Conde duas vezes, ambas à sombra dos coqueiros
no então Hotel Reis Magos. Sua Alteza era disputado em festas, apadrinhava
casamentos e batizados. Estimulava nosso ufanismo o fato dele ser casado com
uma brasileira, como o cineasta Henri-Georges Clouzot ou o Rei da Suécia.
Esperto, o Conde chegou a implantar alguns postos de coleta ao longo do
litoral, iludindo a boa fé de mulheres e crianças que se esfalfavam
recolhendo algas nas marés vazantes. E construiu imponente galpão
pré-moldado no outro lado do Potengi, para estocar as toneladas daquele
foliáceo que nunca pensou em comprar. Mas habilitou-se, com essa
providência, ao recebimento das primeiras parcelas de subvenções oficiais,
enquanto enchia os olhos de quem pensava em investir parcas economias num
fabuloso parque manufatureiro, e os próprios bolsos. Havia até quem
imaginasse, patrioticamente, em desbancar com as moedinhas de seu mealheiro,
as poderosas Nestlé e Kibon, rendidas pelo nosso Haagen-Dazs dos sargaços da
Redinha...

BRUNO, O VIVALDINO E A SAPATARIA DE LAGRECA
No nº 2 dessa "Pequena Galeria," publicado na edição de 17/18 de janeiro,
escrevi que: "De duas outras figuras, uma nem cheguei a conhecer," porquanto
aparecera por aqui durante os 35 anos (1955-1990) em que morei fora de
Natal, variando entre o Rio, Recife, de volta ao Rio, Porto Alegre, de novo
de volta ao Rio e, finalmente, Brasília, onde deixei raiz de filhos e netos.
Mas soubera que o espertalhão marcou época, inclusive por ter se aproveitado
de uma então jovem empresária da noite e jornalista no ramo do colunismo
social, raspando "à sangue frio todos os recursos" por ela amealhados na
dura labuta, e, soube-o agora, no decorrer de atribulado affaire...
A repercussão do artigo foi grande, maior a grita daqueles que, por recados,
em encontros pessoais, ou telefone, reclamavam por mais informações, ou a
complementação da notícia. Felizmente, meia dúzia de amigos acorreram em meu
favor com versões do fato. Resumindo: o vivaldino chamava-se (ou dizia
chamar-se) Bruno e apareceu por aqui nos anos 1960, trazido por Lagreca,
pequeno industrial do ramo calçadista e descendente do renomado comerciante
Joaquim José Freire Lagreca. Anteriormente, em associação com Olavo João
Galvão, esse Lagreca tentara emplacar uma fábrica de tecidos através da
venda de ações, mas se contentara com a fábrica de sapatos que agora tentava
"empurrar" ao tal Bruno. Este, se proclamava herdeiro de uma grande fortuna
paulista, e de fato chegou por aqui com alguns trocados, fruto de
picaretagens no Rio de Janeiro. Mas, fez happening consagrador,
instalando-se como hóspede oficial na antiga residência de Sylvio Pedroza,
adquirida e transformada por Aluízio Alves em "Casa de Hóspedes" – hóspedes
VIPs, naturalmente - e logo "importou" do Recife um Chevrolet Impala
hidramático, tinindo, duas tonalidades de azul. Um colosso de botar água na
boca de Milton Ribeiro Dantas, Felizardo Moura, Tonho Farache, Ferreiras de
Souza. Pela silhueta, mais que pela potência (pois esta pertencia à
limousine Lincoln, doze cilindros, de Oswaldo Medeiros) aquela jóia mecânica
lhe abriu os portões para as grandes festas do América e do Aéro Clube, onde
Bruno fazia sucesso de nababo: um novo "Magnata" (de quem já falamos.)
O Impala de Bruno era visto com frequência à calçada das lojas de Kalil Abi
Faraj, Alcides Araújo, Nevaldo Rocha, Heider Mesquita, ou estacionado à
porta dos promotores de animadas rodas de poker. Comenta-se que era
gastador, virando fácil as folhas do talonário de cheques da deslumbrada
jornalista. Quando alguém alertava Lagreca sobre esse caradurismo e o risco
de "estouro da bolha," o empresário pedia reserva, porquanto o ilustre
hóspede do Estado estava prestes a adquirir seu negócio de sapatos. Mosenhor
Walfredo, governador na ocasião, e que herdara a gana desenvolvimentista de
Aluízio, no dizer de Lagreca não cabia em si de contentamento por estar
agilizando a industrialização do Estado, amparado em boas alvíssaras.
Segundo ele segredava, Bruno já tinha até apalavrado com Dr. Aldo Fernandes,
do Bancaldo, e Octávio Dantas, do Banco do Brasil, a concessão de
empréstimos privilegiados através da SUDENE. Isto é: estava engabelando todo
mundo, mas algum certamente havia recebido, porquanto não poderia ir aos
panos verdes nas casas de Geraldo Santos e Roberto Varela, sem "respaldo
pecuniário," como afiançavam os economistas de plantão.
Tal qual ocorrera em outros casos, Bruno tomou gosto pela mordomia e foi
ficando, demorando além da conta, até que, belo dia, chegou à Cidade sua
verdadeira esposa, bela e fogosa suburbana carioca: "de Madureira – dizem –
boíssima, mas pobre." Abandonou-a, fugindo à sorrelfa para o Rio de Janeiro,
em companhia da namorada, que bancou as despesas até alisar...
Entrementes, a abandonada suburbana pegou um carro-de-praça de manhã cedo,
indo bater na casa do Monsenhor, já de saída para Palácio, mas agarrou-o
pela manga do clergyman e, mesmo no sufoco, "entregou" o bandido, relatando
os fatos e suas agruras, sem dinheiro sequer para pagar ao motorista que
estava esperando do lado de fora. Monsenhor chamou o ordenança Queiroz,
mandando-o pagar a despesa, e prometeu drásticas medidas corretivas através
do coronel Ulisses, chefe de polícia.
Sabe-se que Bruno foi preso no Rio e levado para o depósito da rua Frei
Caneca. Bem que poderia ter feito como aqueloutro espertalhão, que se
dizendo filho do ministro Jarbas Passarinho, bebeu todos os uísques de
Cortez Pereira, sempre siceroneado por Mozart Romano e Ney Marinho. Deve ter
comido alguém antes de sair de cena sem deixar rastro nem história...
Lagreca foi consolado por Luiz G. M. Bezerra, que inaugurou, solenemente,
seu retrato na galeria da Associação Comercial.

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