ESTRATÉGIA & ANÁLISE
 ISSN 00331983
Construindo um conceito de Radicalização Democrática 
15 de junho de 2009, da terra de Sepé e Languiru, por Bruno Lima Rocha 


Com o texto abaixo, além dos artigos de conjuntura, focados na análise 
política, farei minha contribuição naquilo que dá base analítica. Assim, aos 
poucos vou expondo a base conceitual da teoria política que fundamenta minhas 
análises das realidades. 

Neste artigo abordo a proposta e o debate de uma concepção de democracia como 
forma social de ampliação de direitos. O tema passa necessariamente por 
discutir como se dá a criação de um conceito de processo para a radicalização 
democrática aplicável na acumulação de forças onde atua uma ou mais 
organizações políticas como um motor de atuação do movimento popular. Isto é, 
peleando de dentro da democracia liberal para avançar na democracia social. 
Deixo exposto aqui que esse é o modo de se organizar politicamente que defendo, 
teorizo e modestamente também pratico como militante.
Entendo que, para radicalizar a democracia, é necessário escolher onde se quer 
estar e atuar. Sem elencar as arenas corretas e prioritárias, é impossível 
acumular forças para o empoderamento dos sujeitos sociais. Entendo que sujeitos 
sociais são os setores de classe a ser organizados pelos agentes sociais. Essa 
função de minoria ativa – os agentes - também é apontada como necessária. Os 
sujeitos sociais têm de ser alvo de trabalho e relação, visando organizar-se 
cotidianamente. Vale ressaltar também que isso se faz de dentro, como parte de 
um povo em movimento, e não de fora como uma suposta elite esclarecida. Já o 
ordenamento de tempos e ações é urgente. Isto porque, na ausência de um 
planejamento próprio, o poder de agenda é imposto pelas arenas institucionais 
consagradas e midiatizadas. Ou seja, a agenda de luta é pautada por reagir às 
ações impostas e não de avançar em projetos de interesse coletivo. 

Voltando ao conceito de democracia, o problema é de ordem teórica. Com a falta 
de uma teoria democrática que contemple o processo político de empoderamento 
dos sujeitos sociais organizados coletivamente na forma de movimentos 
populares, os passos destes movimentos sempre serão reativos e não proativos. 
Assim sendo, perde o sentido uma Organização Política que supere o papel de 
intermediação-representação e se proponha a servir de motor e força estratégica 
deste mesmo processo. A proposta deste texto é expor, a partir de uma leitura 
rápida de uma idéia sintética, do porque a teoria política praticada na América 
Latina, em geral, permanece submissa aos parâmetros das idéias impostas pela 
ciência política praticada sob as bases do neoinstitucionalismo, corrente de 
pensamento que é o braço político do neoliberalismo. 

Reconheço e vejo como urgente o estabelecimento de um debate no interior das 
esquerdas sociais, de definir um projeto político que contemple a democracia em 
sua radicalidade, a diversidade de idéias no campo da esquerda, do poder 
popular como forma de organização social não-estatista e da garantia e avanço 
dos direitos fundamentais da maioria dos latino-americanos. Para isso é preciso 
debater como seria um processo de acumulação de forças visando à construção 
deste projeto político por fora e muitas vezes em contra a jogatina eleitoral 
da democracia de mercado (liberal, representativa, delegativa, ritualística sem 
conteúdo). 

Na defesa e busca de um novo paradigma; de um novo ponto de vista e 
interpretação 

Neste texto afirmo que a idéia de política vive uma crise, e que 
especificamente, falta teoria para a democracia radical. Como se sabe, sem 
teoria de câmbio, não há a menor possibilidade de transformar a nada. Entendo a 
teoria como um conjunto de idéias-guia, de conceitos operacionais e de um 
discurso articulado e coerente. Mas, que este conceito precisa ser testado e 
praticado. Esta é a diferença fundamental de teoria para fantasia. 

Infelizmente, as teorias democráticas referenciadas na América Latina têm de 
exercer uma constante luta intelectual para ser reconhecidas por seus pares. 
Isto não é novidade, nem no universo das ciências humanas do Continente, e 
tampouco no intestino de uma parte da esquerda que é tão eurocêntrica e 
colonizada em sua essência como as transnacionais as quais combatemos. Vou 
além, ouso afirmar que a luta de idéias e de conceitos-chave é algo tão 
agressivo como uma batalha campal. Rodolfo Walsh, jornalista e mártir da 
Argentina, dizia praticar o “violento ofício de escrever”; Michel Foucault 
afirma que a “ciência é algo dolorido e o estudo é também sofrimento”. Vejo a 
batalha teórica-epistemológica como parte de nossa longa marcha de mais de 500 
anos para nos constituirmos. 

No caso de uma Organização Política, a opção por variáveis macro-explicativas 
em detrimento de outras, é da natureza da ação. Preferir algo é ferir, é dizer 
“isto vai” “aquilo não vai”. Parto do princípio que o fazer político está 
submetido à dimensão ideológica e que isto é constitutivo, passando longe de 
qualquer bobagem de “falsa consciência” ou “espelho invertido da realidade”. A 
dimensão ontológica está para a ciência como a ideológica está para a teoria 
empírica do fazer política. Esta se apresenta na motivação da teoria e da ação, 
e ao analisar as realidades aparentes (porque são várias ao invés de uma), 
implica necessariamente nas escolhas feitas, nas ferramentas de análise 
elencadas como válidas e no uso de um corpo conceitual que seja coerente com os 
pressupostos teóricos, os métodos de trabalho e o suporte ideológico dos 
próprios ativistas e militantes. 

Estas características, da relação entre ideologia, idéias-guia (doutrina) e 
teoria não contêm nenhuma contradição ou conflito inerente. Sou contra toda e 
qualquer idéia de cientificismo, e considero absurda uma noção de que exista 
uma consciência própria de cada classe ou sujeito social. Isso simplesmente não 
existe. A consciência se forja de acordo com as identidades, as opções, as 
lutas vividas, e pelo tipo de aprendizado político-pedagógico que um setor ou 
conjunto de setores oprimidos tenham passado e sofrido. Os valores essenciais 
da liberdade, da diversidade, da igualdade de direitos e condições básicas de 
vida, necessitam de uma teoria política que jogue para acumular forças no rumo 
de uma democracia política de base libertária. Este regime político, o do 
federalismo de base popular e democrática, deve ser sustentado por um modelo de 
desenvolvimento e conseqüente modo de produção sustentável, auto-gestionário e
 voltado para atender as maiorias. 

Internalizar o projeto social é vetar o fetiche do consumo como realização 

Tudo o exposto acima também implica que os militantes produzam uma cultura para 
seu desenvolvimento na mudança social proposta. Ou seja, que estas minorias 
sejam permeáveis ao que passa ao seu redor, mas ao mesmo tempo, consigam 
agregar uma série de valores solidários, remando contra a maré das sociedades 
de consumo desenfreado e das relações superficiais. Passa também por 
determinadas mudanças de comportamento cotidiano, internalização do projeto de 
longo prazo e a convicção no estilo de trabalho (processo e comportamento 
militante, calcados na modéstia e na tenacidade). Um processo de democracia 
radical deve apontar para outras formas de poder, tendo como condição de 
existência que sua direção seja de baixo para cima e não o inverso. Desse 
abaixo e esse acima, não significa hierarquia, mas sim instâncias organizativas 
sociais, construídas pelos que estão na base da pirâmide social. 
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