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* **ISSN 00331983*

Abordando o conceito de dominação –
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24 de junho de 2009, do Rio Grande outrora altaneiro, Bruno Lima Rocha

Com este texto, inicio uma série de três artigos breves abordando uma
questão urgente para o pensamento crítico latino-americano e mundial.
Trata-se do debate a respeito das formas de controle social e sua
aplicabilidade. As palavras que seguem se ancoram politicamente na tradição
libertária e cientificamente na escola
histórico-estrutural.<http://www.estrategiaeanalise.com.br/ler02.php?idsecao=e8f5052b88f4fae04d7907bf58ac7778&&idtitulo=081870665a963fd7f2c85655fd75c472>

As relações sociais são o mais importante

Se há uma característica que pode ser criticada na ciência política
hegemônica na América Latina (neoinstitucionalista, e conforme já disse
antes, braço político do neoliberalismo) é o fato de que esta corrente
abandonou a dimensão social da democracia. Ao mesmo tempo, entendemos que a
dimensão social não substitui e nem condiciona necessariamente um regime
político ou uma modelagem de partilha de poder. Ainda assim, na ausência da
sociedade, qualquer análise se torna excessivamente normativa,
impossibilitando inclusive a adaptação realista de um modelo poliárquico ou
democrático.

Este artigo e o conjunto daquilo que esforçadamente produzo e me filio, se
localiza dentro do campo normativo da radicalização democrática e da defesa
dos interesses coletivos. Justo por isso que compreendo a existências de
conflitos – latentes e declarados – nas sociedades de classes
latino-americanas. E, por entender que a categoria exploração não é absoluta
e nem pode ser universal como variável explicativa, vejo como urgente uma
categoria de análise que englobe a exploração e abarque outras formas de
domínio dentro da estrutura de classes. Por isso apontamos a categoria de
dominação.

Ao apontar este conceito de dominação como ferramenta de análise para as
maiorias da América Latina, aponta-se o papel da exploração, do imperialismo
e a coordenação entre os campos de saber e atuação. Estes fatores permitem e
proporcionam a dominação ser predominante em relação à resistência (dos
dominados) e a mudança do modo de produção, por aqueles que têm sua força de
trabalho explorada.

A dominação começa sendo definida a partir da idéia de legitimidade.
Entendemos que deve haver vontade de obediência, uma norma que permita aos
dominados obedecer e aos dominantes exercer sua autoridade partindo de algo
legítimo. Por vezes esta legitimidade não tem base jurídica formal, mas é
uma norma social prévia mesma do direito.

A dominação tampouco se dá necessariamente através do convencimento, mas
pode ser também através da coerção, ou da combinação das mesmas. A
"naturalização" da existência entre dominantes e dominados, concederia
legitimidade para esta situação de fato. Se a prática ao longo do tempo se
torna ideologia e ganha legitimidade, 500 anos é um período largo o bastante
para "naturalizar" as formas de dominação na América Latina.

A dominação se realiza sob forma de relação, sempre bilateral, onde há um
mínimo de vontade (costume, hábito incorporado, naturalizado) entre as
partes e os setores. Numa relação normativa, constituindo uma probabilidade
composta pelas mútuas expectativas de: mandar e obedecer; explorar e ser
explorado; dominar e ser dominado; excluir e se enxergar à margem; reprimir
e sentir o peso da repressão; deter a hegemonia e enfrentar as formas de
resistência.

Todas estas variáveis (e muitas outras) se materializam e conformam em
conteúdos possíveis de fazer parte dos mandatos de dominação. É como se
mesmo a mais cruel e sádica forma de dominar o homem sobre o homem tenha
limites de eficácia, dentro das expectativas causadas pelas normas (impostas
ou subliminares) desta mesma dominação.

A legitimidade é o requisito imprescindível para gerar o consenso
necessário, tanto para dar a continuidade como para institucionalizar as
formas várias de dominação. O consentimento que gera o consenso, como nos
explica Noam Chomsky, é aquele que desenvolve, o consentimento sobre uma
base de idéias permitidas pelos opressores. Esta é a base necessária para a
estabilidade das normas de dominação.

E como romper com essa normativa de dominação? A quebra dos mecanismos de
consenso possibilitaria a resistência e a ruptura dos dominados, sejam
estes, mecanismos de idéias, pura força bruta, contrato social da
desigualdade, ou a mais comum, a combinação complexa entre ambas as formas
de dominação. O consenso dominante é a base da autoridade opressora, o
fundamento que se faz notar em distintos níveis, a todos os setores de uma
sociedade cuja força criadora e produtiva é dominada por uma minoria
hegemônica.

Três formas iniciais de dominação

O sociólogo uruguaio Alfredo Errandonea nos apresenta em seu livro
“Sociologia da Dominação” (1986, Nordan Editorial, Montevidéu, pp. 94 e 95)
de forma exemplar e genérica, a tipos de sistemas de dominação mais
encontrados no capitalismo. Seriam estes:

1) Exploração - esta forma prevalece nas sociedades com economia de mercado
e tem um papel de determinante quase exclusivo no capitalismo do tipo gerado
na Europa a partir do século XIX. Não se deve omitir a existência de outras
formas de dominação econômica, menos freqüentes é verdade.

2) Coação física - é seguramente o mais antigo da história, e está presente
como última medida de qualquer sistema de dominação de fato. Sua maior
limitação consiste em que seu uso efetivo é muito desgastante. Os aparelhos
policiais-repressivos e as organizações militares modernas são a
manifestação atual desta forma de dominação.

3) Política-burocrática - é a capacidade de acionar as decisões que afetam a
toda uma sociedade, é geralmente constituída pelo conjunto de mecanismos que
conformam os organismos de governo e o sistema político-legal, somados com a
instrumentalização que implica o aparelho de Estado como um todo, assim se
caracterizaria o tipo de dominação político-burocrático.

A estrutura de classes

A forma mais generalizada de dominação na atual etapa do capitalismo é a
estrutura de classes. Esta forma se manifesta quando a probabilidade estável
(o consenso através do consentimento) de obter obediência contínua se
institucionaliza e opera sobre rotinas produtivas. Estas rotinas se baseiam
na exploração da força e potencial de trabalho das maiorias pelas minorias
proprietárias dos meios.

Não nos referimos somente aos meios de produção, mas também os de violência
(coação física) distribuição, circulação de bens (materiais e simbólicos) e
capacidades decisórias (organismos internacionais e estatais, instrumentos
de normatização da vida social). Assim se dá a relação de dominação.

Já esta instituição contínua de dominação atua e se constitui sobre a
maioria dominada as classes sociais. O sistema onde estas ocorrem configura
uma estrutura de classes. É fundamental compreender que o conceito de classe
é relativo à existência de outras classes. A estrutura de classes sociais se
manifesta sobre a distribuição daquilo que é desigual nesta mesma sociedade.
Esta desigualdade não se manifesta somente na distribuição dos bens,
mercadorias e recursos materiais. Óbvio que a desigualdade de distribuição
material tanto é quantitativa (montante, total bruto) como qualitativa
(total líquido, valor agregado e simbólico) de meios, bens, mercadorias e
divisas de várias formas.

Mas, a estrutura de classes se manifesta de forma mais ampla, conforme
veremos nos artigos seqüentes.
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