ESTRATÉGIA & ANÁLISE
 ISSN 00331983
Honduras: golpe, resistência e possibilidades
30 de junho de 2009, Bruno Lima Rocha 

O governo golpista, encabeçado por Roberto Micheletti - presidente do Congresso 
unicameral - além de decretar toque de recolher (não obedecido), já pediu a 
prisão de conhecidos sindicalistas e militantes. Ao ameaçar dirigentes do Bloco 
Popular, Via Campesina, Movimento pelos Direitos Humanos e do poderoso Conselho 
Cívico de Organizações Populares e Indígenas de Honduras, a oligarquia 
hondurenha alimentada oficiosamente pela CIA, desafia a disputa territorial nas 
ruas da capital Tegucigalpa e nas estradas e cidades dos 18 departamentos. Por 
incrível que pareça, o ato gorila pode implica no aumento da unidade dos 
setores populares e de esquerda organizados. Nunca é demais lembrar que Manuel 
Zelaya é um convertido, mais um, às propostas da ALBA e do enfoque 
latinoamericanista gravitado por Hugo Chávez.
Desse modo, a esquerda hondurenha atua em duas arenas simultâneas. Uma, 
imediata, é a defesa popular contra o golpe cívico-militar. A outra, se dará no 
caso de retorno e vitória de Manuel Zelaya, de modo que o presidente não 
retroceda na convocatória da consulta popular e na mudança do marco jurídico 
através da reforma constitucional. Neste caso, em havendo triunfo de Zelaya e 
do recalcitrante Partido Liberal, a luta política poderá se encaminhar no 
sentido de construção de espaços decisórios à margem do Estado de Direito, 
buscando algo próximo do pluralismo e experimentalismo jurídico que se dá em 
Bolívia, com menos intensidade no Equador e que deveria dar-se na Venezuela. 

Mas, antes de fazer a luta contra a direita endógena do entorno presidencial, o 
povo hondurenho tem de vencer o desafio do golpe gorila. 

O golpe hondurenho, antecedentes e seus tentáculos externos 

Quase todo conflito de legitimidade passa por momentos de comoção popular. A 
resistência ao golpe de Estado, grosseira manobra de tipo gorila, imitando em 
parte o intento frustrado que teve Pedro Carmona e a entidade empresarial 
venezuelana (Fedecameras) à frente do putsch de abril de 2002, sempre tem de 
ser imediata e irrepreensível. Houvesse algo semelhante no Brasil em 1º de 
abril de 1964 e não sofreríamos com 21 anos de ditadura. Pode-se perder ou 
ganhar um contra golpe, como foi na derrota briosa do povo uruguaio na greve 
geral de resposta ao golpe de 1973. Mas, se um povo deixa de pelear por não ter 
convocatória, as entidades de base e os movimentos populares desse país caem em 
um descrédito igual ou maior do que a “esquerda” de base parlamentar se 
encontra na América Latina. Não se iludam, as vitórias eleitorais são, em sua 
maioria, “de uma centro-esquerda não classista” como sabiamente afirmam 
colunistas da direita
 portenha como James Neilsen (Revista Noticias, Grupo Perfil). Mesmo sendo 
bastante gorila muitas vezes, Neilsen acerta no conceito e na crítica. Que 
sirva de lição. 

Voltando ao golpe hondurenho, de imediato recordei de Oliver North e John 
Negroponte. Também veio à mente o Batalhão 316 e os esquadrões da morte da 
contra centro-americana, quando a Teoria do Dominó dava suporte conceitual às 
triangulações de traficantes de cocaína, generais sem machete (como o panamenho 
Manuel Noriega de triste memória e nenhuma hombridade) e as agências 
estadunidenses (CIA e DEA à frente). Não por acaso o Império se mantêm na 
cínica posição de dualismo. Obama declara em alto e bom som que não reconhece 
outro governo que não o de Zelaya. Já a advogada Hillary Rodham “Whitewater” 
Clinton, secretária de Estado (equivalente a ministra de relações exteriores) 
se recusa a chamar de golpe militar o putsch encabeçado por Roberto Michelleti 
(presidente do congresso unicameral), o general Romeo Vázquez, os membros da 
Suprema Corte, da Procuradoria Geral, empresários de comunicação e alta 
hierarquia
 eclesiástica. Se os EUA classificam como golpe de Estado a tomada à força do 
poder, seriam obrigados a retirar milhões de dólares em ajuda anual ao país que 
nos anos ’80 teve para a América Central papel semelhante ao da Colômbia nos 
anos ’90 e primeira década do século XXI. 

A batalha política só será ganha nas ruas 

Nesse momento, a peleia se dá de forma direta, na dureza dos embates de rua. A 
greve geral se mantém e a tendência é o aumento da unidade solidária entre os 
que lutam no chão. Em geral, nestes episódios históricos se forja uma vontade 
política coletiva, mais forte até do que os laços com o mandatário derrubado. 
Quem resiste em Honduras deve estar levando em conta todos estes fatores. No 
momento em que escrevo estas palavras, militantes do Movimento pelos Direitos 
Humanos, do Bloco Popular, da Via Campesina e do Conselho Cívico das 
Organizações Populares e Indígenas de Honduras, além de líderes sindicais, 
estão com suas prisões decretadas pelo governo golpista. Apostar na repressão, 
mesmo protegidos pelo cerco e da censura midiática, aumenta o risco entre os 
golpistas da dissidência dentro das Forças Armadas e do aparecimento de 
negociadores “sensatos”. 

Além da polarização contra os golpistas, já se constituiu um pólo de poder que 
se reconhece na continuidade de quem foi deposto. Trata-se do Gabinete do 
Governo de Honduras em Resistência, e tem em sua composição a 27 atores 
políticos de 1º e 2º escalão do governo Zelaya. Para contrapor este pólo é 
preciso confrontar a oligarquia, mas também compor outro pólo de aglutinação e 
poder decisório. Se houver tempo e sabedoria política, a coordenação pontual 
para resistência civil ao golpe pode se consolidar em instância permanente, 
guinando o poder abaixo e à esquerda. Caso Zelaya retorne ao poder Executivo do 
Estado burguês, os meses subseqüentes serão definidores do futuro próximo de 
Honduras e de toda a região.
 
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