ESTRATÉGIA & ANÁLISE
 ISSN 00331983
Para construir uma teoria democrática da América Latina - 1
23 de julho de 2009, Bruno Lima Rocha, escrito no Vale dos Sinos 

Neste brevíssimo texto, faço o debate, de forma propositiva, de uma concepção 
de democracia como forma social de ampliação de direitos. Para debater este 
viés, o da democracia política com distribuição sócio-econômica, entendo ser 
necessário tanto fazer a crítica ao neoliberalismo e dos pressupostos 
transferidos para os estudos políticos neoinstitucionalistas, como desenvolver 
a modelagem teórica adequada. Com isso, espero contribuir no diálogo entre 
aqueles trabalhadores intelectuais que ajudam a pôr água no moinho da luta 
epistemológica produzida na América Latina em prol da democracia participativa 
e direta. Vejo a este processo como um desafio metodológico à altura dos 
estudos e do pensamento político pós-colonial.
Ou criamos conceitos operacionais ou seremos eternos colonizados 

Esta peleia teórica passa pela criação de um conceito de processo para a 
radicalização democrática aplicável na acumulação de forças onde atuem 
organizações políticas extra-institucionais, como impulsionadoras de movimentos 
populares. Este método condensa-se na ação estratégica de empoderamento 
contínuo de sujeitos sociais organizáveis, elencando as arenas prioritárias, 
visando o aumento da participação direta da maioria. Para ampliar a 
participação necessita-se da compreensão do papel da análise estratégica e de 
seu respectivo planejamento, subordinando as rotinas do ativismo ao objetivo 
finalista. 

A categoria do planejamento da atividade política está sempre em disputa. 
Hegemonicamente, seu sentido é escamoteado por um esforço de esvaziar de 
significado real esta categoria. O planejamento, em sendo estratégico, é sempre 
subordinado ao objetivo e não ao contrário. Não existe um tipo-ideal de 
planificação, porque esta categoria é acessória da categoria objetivo 
finalista. Para obter finalismo, é necessário ter a capacidade de impor uma ou 
mais agendas simultâneas. Na ausência de um planejamento próprio, o poder de 
agenda é imposto de cima para baixo. Para reagir a esta pressão, faz-se urgente 
ter no horizonte o fato consumado que as arenas institucionais da política 
profissional, consagradas através das relações de clientela e da cobertura da 
mídia corporativa. 

Com a falta de uma teoria democrática que contemple o processo político de 
empoderamento dos sujeitos sociais organizados coletivamente na forma de 
movimentos populares, a agenda destes movimentos sempre será reativa e não 
proativa. Procedendo assim, perde o sentido uma organização política que supere 
o papel de intermediação-representação e se proponha a servir de motor e força 
estratégica deste mesmo processo. Eis a necessidade da teoria. 

A proposta aqui é fomentar uma janela de crítica e possibilidades para debater, 
a partir do campo da politologia (também chamada no Brasil de ciência política) 
os pilares de uma teorização de processo de acúmulo para uma democracia 
radical. E, desde agora e sempre, esta premissa de proposição encarna em si 
mesma uma dimensão ontológica que se coloca diametralmente em contra da 
corrente hegemônica do pensamento político liberal-oligárquico (ainda que 
travestido de outros nomes) e aponta a convergência interdisciplinar com outras 
matrizes das ciências humanas e sociais que se coloquem a serviço dessa causa 
coletiva. 

A hegemonia dos colonizadores retumba entre os colonizados 

Embora pareça repetitivo, reitero e reforço a noção de que as ciências sociais 
vivem uma crise, onde especificamente, as teorias democráticas referenciadas na 
América Latina têm de exercer uma constante luta intelectual para ser 
reconhecidas por seus próprios pares latino-americanos. Isto não é novidade nas 
ciências humanas e sociais. Ao contrário, afirmo que a peleia de idéias e de 
conceitos-chave, de opção por variáveis macro-explicativas em detrimento de 
outras, é constitutivo tanto em nossa lida diária como nas demais matrizes 
históricas de qualquer forma de pensamento. 

Parto do princípio da urgência da sinceridade teórica, sem ocultar nem 
travestir premissas. Neste campo, a dimensão ontológica implica necessariamente 
nas escolhas feitas. Isto é, na eleição das ferramentas de análise elencadas 
como válidas e no uso de um corpo conceitual que seja coerente com os 
pressupostos teóricos, metodológicos e o suporte ideológico dos trabalhadores 
intelectuais que se dedicam a montar e operar teorias. É sempre assim que 
funciona e quando alguém fala em neutralismo, na verdade, o que existe é 
premissa oculta. Não existe nenhuma forma de “neutralismo” científico nem nada 
por estilo. O rigor é distinto da “neutralidade”. Ser “neutro” nas ciências 
humanas é apenas reproduzir o senso comum dominante, sem saber ou admitir o que 
se está fazendo. 

Estas características não contêm nenhuma contradição ou conflito inerente. Ao 
partir do princípio que não existe neutralidade científica nos saberes das 
humanidades, admitimos que a precisão analítica não é correlata de uma pretensa 
neutralidade. Qualquer argumento neste sentido termina implicando em suposto 
cientificismo, o que, em tese aqui desmentida, universaliza(ria) um ou mais 
pressupostos particulares. Na correlação de forças do universo acadêmico dos 
países centrais e sua relação desigual com o campo intelectual da América 
Latina, ocorre justamente o inverso. 

A crise de paradigmas é da “democracia” que vive em crise 

Assumo como ponto de partida a condição de crise de paradigmas e funções nas 
ciências sociais contemporâneas em geral e das teorias democráticas meramente 
procedimentais e ritualísticas em particular. Infelizmente, e não há nenhuma 
novidade nisso, e segue valendo a lógica dos assimilados. Não há ninguém que 
conheça melhor a literatura dos países centrais que o leitor colonial. Assim, 
as categorias que se apresentam como “novas”, justo por visarem radicalizar a 
democracia, aprofundando os critérios de participação, ativismo, protagonismo 
popular, ação coletiva e gestão direta dos recursos públicos, e vista pela 
hegemonia do campo como algo “raro”. 

O exemplo mais absurdo se dá no debate dos “clássicos” da política do Ocidente, 
quando se estuda o Federalismo. Ao mesmo tempo em que se apresenta como modelo 
federalista o arcabouço oligárquico da Revolução Escravocrata das 13 colônias 
inglesas, se nega rotundamente o Federalismo Histórico e Revolucionário da 
Gesta Artiguista cujo projeto político concreto foi a Liga Federal dos Povos 
Livres. 

Ao não buscar novos parâmetros, e por se negar a reconhecer em sua própria 
matriz histórico-estrutural as saídas para as crises da sociedade onde se 
insere e extrai sua produção intelectual, o cientista social da colônia fica no 
papel de tradutor de conceitos e apresentador de teorias normativas e 
inaplicáveis. Ou seja, este tipo de trabalhador hiper especializado não pode 
nem buscar soluções para esta “democracia” liberal conservadora porque seu 
trabalho termina por legitimar o sistema de carreiras políticas profissionais e 
de partido de intermediação. No final das contas, não pode este cientista 
social (como um todo) e político (em específico) ser parte da solução das 
maiorias porque pertence ideologicamente a minoria que é causadora destes 
mesmos problemas. 

Este exemplo vale tanto na luta contra a não-história (a pós-modernidade), como 
nos embates entre a democracia participativa e as matrizes de pensamento 
liberal-conservador e sua democracia de poucos para quase ninguém. Conclui-se 
que para superar esta hegemonia que gravita em nosso campo é preciso um esforço 
analítico, teórico-epistemológico, com premissas explícitas e a dimensão 
ontológica sendo demonstrada desde o princípio da própria formulação. A 
resultante deste esforço, mais do que uma “análise política da América Latina” 
é a afirmação de uma escola de análise política latino-americana, buscando 
ultrapassar a democracia de tipo liberal e indo ao encontro da dimensão 
substantiva e participativa da mesma. 
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