02 de Agosto de 2009 às 21:59 Notícias do Beco (Jam da Selva) por Volonté
Arquivo Volonté SEM PALAVRAS A massa rumorosa de um língua desconhecida constitui uma proteção deliciosa, envolve o estrangeiro (desde que o país não seja hostil) numa película sonora que bloqueia, a seis ouvidos, todas as alienações da língua materna: a origem, regional e social daquele que a fala, em seu grau de cultura, de inteligência, de gosto, a imagem através da qual ele se constitui como pessoa e pede para ser reconhecido. Assim, no estrangeiro, que repouso! Estou ali protegido contra a tolice, a vulgaridade, a vaidade, a mundanidade, a nacionalidade, a normalidade. A língua desconhecida, da qual capto no entanto a respiração, a aeração emotiva, numa palavra, a significância pura, forma à minha volta, à medida que me desloco, uma leve vertigem, arrasta-se em seu vazio artificial, que só se realiza para mim: vivo no interstício, livre de todo sentido Pleno. Como você garantia essa necessidade vital da comunicação? Ou mais exatamente, asserção ideológica que rocobre a interrogação prática: só há comunicação na fala. Ora, acontece que naquele país (o Japão) o império dos significantes é tão vasto, excede a tal ponto a fala, que a troca dos signos é uma riqueza, de uma mobilidade, de uma surtileza fascinantes, apesar da opacidade da língua, às vezes mesmo graças a essa opacidade. A razão é que lá o corpo existe, se abre, age, se dá sem histeria, sem narcisismo, mas segundo um puro projeto erótico – embora sutilmente discreto. Ao é a voz (com a qual identificamos os "direitos"da pessoa) que comunica (comunicar o quê? Nossa alma - forçosamente bela – nossa sinceridade, nosso prestígio?), é corpo todo (os olhos, o sorriso, a mecha, o gesto, a roupa) que mantém conosco uma espécie de balbucio, ao qual o perfeito domínio dos códigos tira todo caráter regressivo, infantil. Marcar um encontro (por gestos, desenhos, nomes próprios) leva de fato uma hora, mas duramente essa hora, para uma mensagem que se teria que se teria abolido num instante se tivesse sido falada (sem verdadeira finalidade) sua própria narrativa, seu próprio texto. Volonté transcreve do livro 'O Império dos signos', do escritor, sociólogo e filósofo francês Roland Barthes, com tradução de Lelya Perrone-Moisés.
