Dois artigos importantes publicados nesta semana: 
 

Criticando o neoliberalismo a partir de seus pressupostos políticos – 2 e 
Lula e os poderes de veto partidário
 
ESTRATÉGIA E ANÁLISE-ISSN 00331983
Lula e os poderes de veto partidário
26 de agosto de 2009, da Vila Setembrina dos Farrapos traídos em Porongos e 
entregues para o Império em Ponche Verde, Bruno Lima Rocha 

Ao contrário do que o título possa dar a entender, este texto não trata dos 
poderes constitucionais do presidente da república. Menos ainda das formas de 
governar por decreto, ou quase, usando e abusando de sua versão eufemística, a 
Medida Provisória. O foco desse artigo é outro e toma Lula apenas como um 
exemplo de descolamento entre liderança política e a organicidade que o gerou. 
O que abordamos aqui não é novidade no fazer político e menos ainda em sua área 
de concentração de estudos acadêmicos, a chamada “ciência” política (eu prefiro 
o termo politologia). O dilema é simples. Até que ponto um líder carismático e 
popular terá disciplina partidária? Ou será que a popularidade e o controle de 
recursos vão fazer com que sua vontade se imponha sobre as instâncias 
orgânicas? No caso do presidente Luiz Inácio, qualquer observador isento vai 
considerar que o maior partido da América Latina (o PT, ao menos em tamanho) 
hoje está refém dos cálculos pragmáticos do titular do Planalto. 

Percebam. Isso não implica afirmar nenhum tipo de maniqueísmo onde uma suposta 
“base” do PT teria algum grau de coerência política e os chefes em Brasília, a 
começar pelo chefe dos chefes, abandona ser coerente em busca da sobrevivência 
através da indicação da sucessora. O que afirmo com todas as letras é que é 
impossível haver coerência política em qualquer legenda se não houver 
democracia interna. Isso se refere diretamente ao poder de veto dos operadores 
políticos (veto players) na interna partidária. Se estes poderes não forem 
diluídos pela pressão da militância, é certo que a participação será tolhida e 
a maior parte de afiliados terão seus vínculos mantidos por interesses diretos 
de ordem material. 

Essa queixa eu já escutei de vários militantes, alguns com funções de 
dirigentes em nível estadual. A fala é sintoma da crise interna de um partido 
que nasce de esquerda e troca seu programa por parcelas de governabilidade no 
“centro da política”. Segundo esses veteranos, no início dos anos ’80, seu 
partido organizava uma parte da força de trabalho. Na metade da primeira década 
do século XXI, esta base “militante” vê no seu partido a possibilidade de ter 
um trabalho. Isso por si só reforça o poder de veto do chefe político. Não há 
democracia quando o dirigente político é o chefe que assina ou demite o cargo 
em comissão (CC). Essa “legitimidade pragmática” influencia toda a vida 
partidária e, quando este partido está no Poder Executivo, chega a determinar a 
capacidade de discordar ou não das decisões do presidente. 

A democracia numa interna partidária está vinculada a capacidade dos afiliados 
poderem exercer seu direito político sem serem coagidos pela sobrevivência 
econômica. Onde a política é puro pragmatismo, a tal da governabilidade se 
transforma em escola de arrivistas. Qualquer semelhança com a conduta política 
de Lula e a deformação da esquerda eleitoral brasileira não é nenhuma 
coincidência. 
 
Criticando o neoliberalismo a partir de seus pressupostos políticos – 2
27 de agosto de 2009, da Vila Setembrina, Bruno Lima Rocha 

Dou seqüência nesta semana para o conjunto das críticas destinadas ao campo de 
saber e incidência ideológica apelidado ao mundo de neoliberalismo. Como quase 
sempre procuro fazer, exponho o pensamento da direita através de suas próprias 
palavras, em especial de algumas obras fundadoras e doutrinadoras. O eixo do 
debate passa pela colonização da linguagem, como base de raciocínio de recursos 
discursivos, obrigando aos reprodutores destas palavras a carregar consigo os 
conceitos que compõem a parte intrínseca do modo neoliberal de totalizar o 
pensamento.
Isto se verifica no absurdo dos discursos de análise fazendo analogia com jogos 
de salão ou cassinos. A forma portadora das ferramentas de análise é através da 
linguagem, dos exemplos comparativos e das analogias. Na figura de linguagem 
macro, para os neoliberais o mundo se trataria de um grande cassino. Se 
observarmos com atenção a justificativa de “racionalidade da escolha racional”, 
em texto original de Milton Friedman, já encontramos as mesmas analogias. 

No livro cuja edição original é de 1990, Jogos Ocultos, George Tsebelis (1998, 
p: 44, para esta crítica utilizo a edição brasileira da EdUSP) apresenta o 
debate do pressuposto racional da sua escolha. Vejam que a afirmação é nada 
sutil. Ao questionar se “é realista o enfoque da escolha racional?” expõe a 
origem desta formulação que logo viria a ser universalizada para o campo da 
ciência política por Anthony Downs (em Uma Teoria Econômica da Democracia, a 
obra original é de 1957, eu utilizo nesta crítica da edição da Edusp, datada de 
1999). Segundo Tsebelis, a resposta mais freqüente para a questão seria: “Não 
importa; as pessoas agem ‘como se’ fossem racionais”. 

Um dos fundadores da matriz de pensamento neoclássico afirma exatamente o mesmo 
absurdo. Particularmente considero isso a doutrina e não teoria. Teoria é um 
conjunto de hipóteses coerentemente articuladas e testáveis (ao menos uma 
Teoria de Médio Alcance, na dimensão estratégica do conhecimento). As 
idéias-guia são a forma mais sofisticada da ideologia, ou seja, doutrina. As 
palavras que seguem são base de doutrinação pura, vejamos. Repito a pergunta. 
“É realista o enfoque da escolha racional? As pessoas em geral agem para 
maximizar ganhos materiais e minimizar estas mesmas perdas?” A forma 
totalizante de responder a este questionamento se encontra no artigo do 
economista Milton Friedman, The Methodology of Positive Economics. Friedman 
(1953: 14) afirma: 

Descobrir-se-á que hipóteses realmente importantes e significativas possuem 
‘pressupostos’ que são representações descritivas tremendamente imprecisas da 
realidade, de modo geral, quanto mais significativa for a teoria, mais 
irrealistas serão os pressupostos (nesse sentido). [...] Para ser importante 
uma hipótese deve ser descritivamente falsa em seus pressupostos. 

Friedman exemplifica em três exemplos diferentes para apoiar a “F-twist” 
(“tendência F”), como a tese do ‘como se’ fossem racionais. 
- os hábeis jogadores de bilhar, que executam suas tacadas ‘como se’ soubessem 
as complicadas fórmulas matemáticas que descrevem a trajetória ótima das bolas; 
- as firmas que agem ‘como se’ fossem maximizadoras da utilidade esperada; 
- as folhas de uma árvore; Friedman (1953: 19) sugere “a hipótese de que as 
folhas se posicionam como se cada uma procurasse deliberadamente maximizar a 
quantidade de luz solar que recebe”. 

Qualquer estudante de ciências econômicas, sociais e humanas que apresentasse 
este conjunto de hipóteses na forma de ensaio, sem se referir à citação de 
Friedman, seria ridicularizado e humilhado por pares e professores. Sejamos 
sinceros, por vezes (muitas vezes, majoritariamente) o campo acadêmico costuma 
ser cruel nos seus ritos de passagem e aprovação de membros mais novos. Se este 
novo membro a entrar em algum escalão universitário utilizasse estes exemplos 
absurdos acima, a reação seria terrível, possivelmente causando traumas e 
dramas para o restante de sua vida. Mas, do alto de seu posicionamento de 
doutrinador, Friedman pode dar o exemplo estapafúrdio e irracional que nada 
acontece a não ser a reprodutibilidade acelerada pelos seguidores com estilo 
das cabras e ovelhas de George Orwell. 

Retomando o conteúdo da crítica, um dos pilares da aproximação da lógica da 
escolha racional sobre as variáveis da política e sua matriz 
histórico-estrutural é a obra de Anthony Downs (1999), “Uma teoria econômica da 
democracia” . Como já dissemos, o original da obra é de 1957, sendo a mesma 
escrita entre 1955 e 1956. É interessante observar já nos agradecimentos, a 
vinculação teórica, epistemológica e de suporte institucional que o economista 
contou para escrever o livro. Downs (1999), na página, 21, Agradecimentos, 
presta o seguinte reconhecimento:
“Como todas as obras supostamente originais, este estudo deve muito de seu 
conteúdo ao pensamento e esforços de outras pessoas. [...] Também gostaria de 
agradecer Robert A. Dahl e Melvin W. Reder, que leram o manuscrito e fizeram 
muitas sugestões que incorporei. [...] Finalmente, gostaria de agradecer ao 
Office of Naval Research pelo auxílio que tornou este estudo possível. 
[...].Anthony Downs, Stanford University, maio de 1956”. 

Como se nota, o “campo” neoclássico e liberal se protege, consegue seus 
financiamentos e é auto referenciado. Nesta obra, Downs (1999, p. 43) se 
posiciona na mesma linha de Friedman e afirma que o artigo do economista de 
Chicago, publicado em uma obra cujo título coletivo é a de um “ensaio” (Essays 
of Positive Economics, 1953, Chicago Univ. Press) é uma “excelente afirmação 
desse ponto de vista”. Segundo Downs, “os modelos teóricos deveriam ser 
testados primordialmente mais pela precisão de seus prognósticos do que pela 
realidade de seus pressupostos.” Dessa forma, o autor concorda com Friedman e 
defende o pressuposto irreal como base para a Escolha Racional. 

O pressuposto deste prognóstico se notara após o trabalho de colonização de 
assimilados convertidos em doutrinadores operando na esfera política com 
discurso econômico. O convênio entre Friedman e seus seguidores oriundos 
majoritariamente da Universidade Católica do Chile montou a base das “piranhas 
vorazes”, o outro apelido dado aos Chicago Boys, braço “econômico” da ditadura 
chileno de estilo prussiano de Augusto Pinochet e outros genocidas. 

O questionamento desses dois trabalhos não é pelo fato de seus pressupostos 
serem irreais. Entendo que esta postura teórica-epistemológica deve existir, 
mas diz respeito às dimensões ontológicas (ideológicas) da teoria. No campo 
operacional da política, a dimensão ideológica, após um largo período de 
desenvolvimento, sistematiza idéias-guia no sentido de doutrina. Todas as 
idéias-guia das modestas, mas incisivas análises que faço, assim como suas 
filiações tanto teóricas como metodológicas e ontológica, foram discutidas em 
artigos anteriores e estão sempre expostas. Assim, abro a tomada de posição do 
analista. Entendo que a honestidade intelectual deve partir de que o 
pressuposto “subjetivo” é irracional por estar o mesmo vinculado ao campo das 
filiações, do inconsciente, das aspirações. Como o inconsciente é um único 
irredutível, é um objeto próprio da esfera ideológica. Por serem as ciências 
humanas e sociais de
 natureza aparadigmática, simplesmente não existem disciplinas e saberes das 
humanidades que não contenham em seu universo intrínseco uma dimensão 
ontológica, portanto, não-científica. 

É interessante a maneira de formulação de pensamento de Friedman. Já no quesito 
“precisão de prognósticos”, entendo que ocorre uma afirmação inversa. A 
precisão de análise e a predição de conjunturas dentro de um marco de 
constrangimento são possíveis. Já o termo empregado por Friedman, a da 
“representação descritiva tremendamente imprecisa” não garante nenhuma certeza 
de alteração estrutural no futuro. O que quero dizer é que o acerto na predição 
de largo prazo depende da incidência dos agentes e não da precisão analítica. 
Coube aos neoliberais o papel de conspiradores internacionais, usando como eixo 
de força as absurdas fórmulas matematizadas. Friedman e seus seguidores são o 
exemplo vivo da força das materialidades das idéias, por mais absurdas que 
estas possam parecer. 

Estamos em trincheiras diferentes, por sorte. Cabem aos analistas e 
trabalhadores acadêmico-científicos da América Latina se posicionar perante as 
mazelas, virtudes e desafios do Continente. Nossa lida passa por buscar e 
produzir as ferramentas necessárias para teorizarmos saídas visando a 
radicalização da democracia, o empoderamento dos sujeitos sociais organizados, 
a expansão de direitos e liberdades e a derrota em todos os níveis das 
oligarquias (nacionais e estaduais), das transnacionais, da jogatina dos 
banqueiros e do Império. 
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Estratégia & Análise: a política, a economia e a ideologia na ponta da adaga.
 
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