--- Em dom, 30/8/09, Deise Santarelli Marinho <[email protected]> escreveu:


De: Deise Santarelli Marinho <[email protected]>
Assunto: MARINA SILVA ENTREVISTA VEJA
Para: "Deise Santarelli Marinho-PV" <[email protected]>
Data: Domingo, 30 de Agosto de 2009, 13:56


Entrevista VEJA:  MARINA SILVA

Na semana passada, Marina, de 51 anos, casada, quatro filhos, explicou em 
entrevista concedida a Sandra Brasil e publicada, sob o título Marina 
imaculada, as razões que a levaram a deixar o PT – e opinou sobre temas como 
aborto, legalização da maconha e criacionismo.

Eis a entrevista.

A senhora será candidata a presidente pelo Partido Verde?

Ainda não é hora de assumir candidatura. Há uma grande possibilidade de que 
isso aconteça, mas só anunciarei minha decisão em 2010.

Se sua candidatura sair, como parece provável, que perfil de eleitor a senhora 
pretende buscar?

Os jovens. Eles estão começando a reencontrar as utopias. Estão vendo que é 
possível se mobilizar a favor do Brasil, da sustentabilidade e do planeta. 
Minha geração ajudou a redemocratizar o país porque tínhamos mantenedores de 
utopia. Gente como Chico Mendes, Florestan Fernandes, Paulo Freire, Luiz Inácio 
Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, que sustentava nossos sonhos e servia 
de referência. Agora, aos 51 anos, quero fazer o que eles fizeram por mim. 
Quero ser mantenedora de utopias e mobilizar as pessoas.

Sua saída abalou o PT. Além da possibilidade de disputar o Planalto, o que mais 
a moveu?

O PT teve uma visão progressista nos seus primeiros anos de vida, mas não fez a 
transição para os temas do século XXI. Isso me incomodava. O desafio dos nossos 
dias é dar resposta às crises ambiental e econômica, integrando duas questões 
fundamentais: estimular a criação de empregos e fomentar o desenvolvimento sem 
destruir o planeta. O crescimento econômico não pode acarretar mais efeitos 
negativos que positivos. Infelizmente, o PT não percebe isso. Cansei de tentar 
convencer o partido de que a questão do desenvolvimento sustentável é 
estratégica – como a sociedade, aliás, já sabe. Hoje, as pessoas podem eleger 
muito mais do que o presidente, o senador e o deputado. Elas podem optar por 
comprar madeira certificada ou carne e cereais produzidos em áreas que 
respeitam as reservas legais. A sociedade passou a fazer escolhas no seu dia a 
dia também baseada em valores éticos.

A crise moral que se abateu sobre o PT durante o governo Lula pesou na decisão?

Os erros cometidos pelo PT foram graves, mas estão sendo corrigidos e 
investigados. Quando da criação do PT, eu idealizava uma agremiação perfeita. 
Hoje, sei que isso não existe. Minha decisão não foi motivada pelos tropeços 
morais do partido, mesmo porque eles foram cometidos por uma minoria. Saí do 
PT, repito, por falta de atenção ao tema da sustentabilidade.

Ou seja, apesar de mudar de sigla, a senhora não rompeu com o petismo?

De jeito nenhum. Tenho um sentimento que mistura gratidão e perda em relação ao 
PT. Sair do partido foi, para mim, um processo muito doloroso. Perdi quase 3 
quilos. Foi difícil explicar até para meus filhos. No álbum de fotografias, 
cada um deles está sempre com uma estrelinha do partido. É como se eu tivesse 
dividido uma casa por muito tempo com um grupo de pessoas que me deram muitas 
alegrias e alguns constrangimentos. Mudei de casa, mas continuo na mesma rua, 
na mesma vizinhança.

No período em que comandou o Ministério do Meio Ambiente, a senhora acumulou 
desavenças com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Como será enfrentá-la 
em sua eventual campanha à Presidência?

Não vou me colocar numa posição de vítima em relação à ministra Dilma. Quando 
eu era ministra e tínhamos divergências, era o presidente Lula quem arbitrava a 
solução. Não é por ter divergências com Dilma que vou transformá-la em vilã. 
Acredito que o Brasil pode fazer obras de infraestrutura com base no critério 
de sustentabilidade. Temos visões diferentes, mas não vou fazer o discurso 
fácil da demonização de quem quer que seja.

Um de seus maiores embates com a ministra Dilma foi causado pelas pressões da 
Casa Civil para licenciar as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no Rio 
Madeira. A senhora é contra a construção de usinas?

No Brasil, quando a gente levanta algum "porém", já dizem que somos contra. 
Nunca me opus a nenhuma hidrelétrica. O que aconteceu naquele caso foi que eu 
disse que, antes de construir uma usina enorme no meio do rio, era preciso 
resolver o problema do mercúrio, de sedimentos, dos bagres, das populações 
locais e da malária. E eu tinha razão. Como as pessoas traduziram a minha 
posição? Dizendo que eu era contra hidrelétricas. Isso é falso.

Se a senhora for eleita presidente, proibirá o cultivo de transgênicos?

Eis outra falácia: dizer que sou contra os transgênicos. Nunca fui. Sou a 
favor, isso sim, de um regime de coexistência, em que seria possível ter 
transgênicos e não transgênicos. Mas agora esse debate está prejudicado, porque 
a legislação aprovada é tão permissiva que não será mais possível o modelo de 
coexistência. Já há uma contaminação irreversível das lavouras de milho, 
algodão e soja.

O que a senhora mudaria no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)?

Eu não teria essa visão de só acelerar o crescimento. Buscaria o 
desenvolvimento com sustentabilidade, para que isso pudesse ser traduzido em 
qualidade de vida para as pessoas. Obviamente, é necessário que o país tenha 
infraestrutura adequada. Mas é preciso evitar os riscos e problemas que os 
empreendimentos podem trazer, sobretudo na questão ambiental.

Na economia, faria mudanças?

Não vou me colocar no lugar dos economistas. Prefiro ficar no lugar de 
política. Em linhas gerais, acho que o estado não deve se colocar como uma 
força que suplanta a capacidade criativa do mercado. Nem o estado deve ser 
onipresente, nem o mercado deve ser deificado. Também gosto da ideia do Banco 
Central com autonomia, como está, mas acho que estão certos os que defendem 
juros mais baixos.

No seu novo partido, o PV, há uma corrente que defende a descriminalização da 
maconha. Como a senhora se posiciona a respeito desse assunto?

Não sou favorável. Existem muitos argumentos em favor da descriminalização. 
Eles são defendidos por pessoas sérias e devem ser respeitados. Mas questões 
como essa não podem ser decididas pelo Executivo, e sim pelo Legislativo, que 
representa a sociedade. A minha posição não será um problema, porque o PV 
pretende aprovar na próxima convenção uma cláusula de consciência, para que 
haja divergências de opinião dentro do partido.

Os Estados Unidos elegeram o primeiro presidente negro de sua história, Barack 
Obama. Ele é fonte de inspiração?

Eu também sou negra, mas seria muito pretensioso da minha parte me colocar como 
similar ao Obama. Ele é uma inspiração para todas as pessoas que ousam sonhar. 
A questão racial teve um peso importante na eleição americana. Mas os Estados 
Unidos têm uma realidade diferente da do Brasil. Eu nunca fui vítima de 
preconceito racial aqui.

A senhora poderia se apresentar como uma candidata negra na campanha 
presidencial?

Não. É legítimo que as pessoas decidam votar em alguém por se identificar com 
alguma de suas características, como o fato de ser mulher, negra e de origem 
humilde. Mas seria oportunismo explorar isso numa campanha. O Brasil tem uma 
vasta diversidade étnica e deve conviver com as suas diferentes realidades. 
Caetano Veloso (cantor baiano) já disse que "Narciso acha feio o que não é 
espelho". Nós temos de aprender a nos relacionar com as diferenças, e não 
estimular a divisão. A história engraçada é que, durante as prévias do Partido 
Democrata americano, quando a Hillary Clinton disputava a vaga com Obama, um 
amigo meu brincou comigo dizendo que os Estados Unidos tinham de escolher entre 
uma mulher e um negro, e, se eu fosse candidata no Brasil, não teríamos esse 
problema, porque sou mulher e negra.

A senhora é a favor da política de cotas raciais para o acesso às universidades?

Há quem ache que as cotas levam à segregação, mas eu sou a favor de que se 
mantenha essa política por um período determinado. Acho que há, sim, um resgate 
a ser feito de negros e índios, uma espécie de discriminação positiva.

Mas a senhora entrou numa universidade pública sem precisar de cotas, embora 
seja negra, de origem humilde e alfabetizada pelo Mobral.

Sou uma exceção. Tenho sete irmãos que não chegaram lá.

Aos 16 anos, a senhora deixou o seringal e foi para a cidade, a fim de se 
tornar freira. Como uma católica tão fervorosa trocou a Igreja pela Assembleia 
de Deus?

Fui católica praticante por 37 anos, um aspecto fundamental para a construção 
do meu senso de ética. Meu ingresso na Assembleia de Deus foi fruto de uma 
experiência de fé, que não se deu pela força ou pela violência, mas pelo toque 
do Espírito. Para quem não tem fé, não há como compreender. Esse meu processo 
interior aconteceu em 1997, quando já fazia um ano e oito meses que eu não me 
levantava da cama, com diagnóstico de contaminação por metais pesados. Hoje, 
estou bem.

A senhora é mesmo partidária do criacionismo, a visão religiosa segundo a qual 
Deus criou o mundo tal como ele é hoje, em oposição ao evolucionismo?

Eu creio que Deus criou todas as coisas como elas são, mas isso não significa 
que descreia da ciência. Não é necessário contrapor a ciência à religião. Há 
médicos, pesquisadores e cientistas que, apesar de todo o conhecimento 
científico, creem em Deus.

O criacionismo deveria ser ensinado nas escolas?

Uma vez, fiz uma palestra em uma escola adventista e me perguntaram sobre essa 
questão. Respondi que, desde que ensinem também o evolucionismo, não vejo 
problema, porque os jovens têm a oportunidade de fazer suas escolhas. Ou seja, 
não me oponho. Mas jamais defendi a ideia de que o criacionismo seja matéria 
obrigatória nas escolas, nem pretendo defender isso. Sou professora e uma 
pessoa que tem fé. Como 90% dos brasileiros, acredito que Deus criou o mundo. 
Só isso.

A senhora é contra todo tipo de aborto, mesmo os previstos em lei, como em 
casos de estupro?

Não julgo quem o faz. Quando uma mulher recorre ao aborto, está em um momento 
de dor, sofrimento e desamparo. Mas eu, pessoalmente, não defendo o aborto, 
defendo a vida. É uma questão de fé. Tenho a clareza, porém, de que o estado 
deve cumprir as leis que existem. Acho apenas que qualquer mudança nessa 
legislação, por envolver questões éticas e morais, deveria ser objeto de um 
plebiscito.

Seu histórico médico inclui doenças muito sérias, como cinco malárias, três 
hepatites e uma leishmaniose. A senhora acredita que tem condições físicas de 
enfrentar uma campanha presidencial?

Ainda não sou candidata, mas, se for, encontrarei forças no mesmo lugar onde 
busquei nas quatro vezes em que cheguei a ser desenganada pelos médicos: na fé 
e na ciência.
Deise Santarelli Marinho
Fone: (21) 9867 1712




      
____________________________________________________________________________________
Veja quais são os assuntos do momento no Yahoo! +Buscados
http://br.maisbuscados.yahoo.com

Responder a