banda larga: austrália 10×0 brasil
srlm às 10:43

a área da austrália é da ordem de grandeza do espaço ocupado pelo brasil, aí
pelos oito milhões de quilômetros quadrados. o pib de lá é parecido com o
nosso, ao redor do trihão de dólares por ano. as populações são muito
diferentes: a nossa é nove vezes maior, o que os torna muito mais dispersos.
clique na figura abaixo para ver como wolfram alpha nos compara.

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o governo da austrália resolveu que banda larga é uma das infraestruturas
essenciais da economia e da sociedade, assim como água, esgoto e energia
elétrica. e decidiu investir A$43B [cerca de sessenta e oito bilhões de
reais] para construir uma rede nacional de fibra ótica conectando pelo menos
90% de todas as casas e pontos de trabalho do país, com velocidade de
download mínima de 100 megabit por segundo. os 10% muito remotos ou em
regiões de muito baixa densidade demográfica serão conectados por novas
gerações de tecnologias de satélite e sem fio [3G+]. coisa de gente grande.
como o brasil. e a austrália, claro.

a diferença é que eles estão fazendo. e nós não. a rede deles, que está
sendo implementada e será operada por uma PPP [parceria público-privada]
começou a ser implantada na tasmania em julho passado e vai começar a entrar
no ar aí pelo meio de 2010.

os principais analistas de tecnologias de informação e comunicação da
austrália, consultados sobre a relação entre o custo e os benefícios do
projeto, chegaram à conclusão de que os benefícios ultrapassarão, em muito,
os custos. óbvio. rede de qualidade é como educação e, cada vez mais,
funciona como uma das infraestruturas essenciais para educar: custa caro;
mas experimente o custo de não tê-la.

aqui em pindorama, continuamos sem rumo quando o assunto é uma verdadeira
política, nacional, de banda larga. já concluimos, há tempos, que precisamos
de muito mais banda, para muito mais gente. mas a verdade é que não há uma
política pública do porte da australiana para resolver o problema. por causa
disso, ficaremos, por ainda muito tempo, neste lero-lero. quando o tema é
rede, a austrália tá dando na gente de dez a zero.

rede de bits, no brasil, deveria ser tratada como uma prioridade nacional,
aliás, juntamente com rede de esgoto, isso porque só 44% das famílias
brasileiras tem seu esgoto coletado. e só 30% do que é coletado é tratado.
dos 32 milhões de metros cúbicos de esgoto diários que o país produz, 18
milhões vão direto para os cursos d'água. e o orçamento federal com isso? em
2007, apenas 0,04% do PIB do país foi gasto com isso. e tome dinheiro no
SUS, para pagar uma conta que vem, em boa parte, da falta de esgotos… sem
falar no impacto ambiental.

e olha que a gente poderia pensar –seriamente- em, a partir da
universalização da rede de esgostos, levar banda larga junto, pra todos os
lugares pra onde ela ainda não chegou, o que quer dizer, na prática, todos
os lugares. quer ver como? leia o texto abaixo, publicado no meu velho blog,
há dois anos, exatamente:

    o british medical journal começou a ser publicado em 1840. é o que
poderia se chamar um venerando jornal científico. coincidentemente, foi nos
anos 1840 que edwin chadwick [e outros] começou a propagar, na inglaterra, a
noção de usar canos para trazer água para as casas, e em outros [espera-se,
sem vazamentos para os primeiros] levar dali seu esgoto. pois bem: o jornal
perguntou a seus leitores, comunidade majoritariamente de médicos, qual foi
o maior marco da história da medicina nos 167 anos de sua publicação. não
deu outra: esgoto, com antibióticos em segundo lugar.


    no brasil, apenas a metade dos municípios tem "algum tipo" de tratamento
sanitário; no nordeste, 30% coletam o esgoto  e uns 13% coletam e tratam.
esta é uma das razões pelas quais temos que gastar verdadeiras fortunas em
"saúde", sem os resultados esperados, porque a maioria das doenças continua
aí. imagine na amazônia, onde menos de 7% dos municípios tem algum tipo de
coleta e/ou tratamento. se a população aumentar, você já sabe o que vai
[o]correr no rio amazonas…

    e o que esta história está fazendo aqui? saneamento é uma rede de
infra-estrutura básica da sociedade, como água, eletricidade, telefone.
esgoto é assunto de interesse social há milhares de anos. os primeiros têm
mais de 5.000 anos. vez por outra este blog dá uma dura na falta de
políticas públicas reais, do tamanho do brasil, para incluir o povo inteiro
na internet, que representa numa só infra as bibliotecas, enciclopédias, os
jornais, diários, arquivos, TVs… do presente e do futuro, muitos deles
escritos por nós mesmos. mas internet é, no máximo, tão importante como…
saneamento. se não conseguimos controlar o fluxo de efluentes danosos à
saude e ao ambiente em terrenos, lagos, rios e mares, de pouco adiantará
termos internet. pois o mundo não vai estar aí mesmo pra gente -e,
principalmente, as gerações depois da  nossa- viver nele.

    a mega-crise de água que o planeta vai atravessar por causa do
aquecimento global certamente aumentará a pressão, em países como o brasil,
para o aumento da penetração da rede de saneamento, principalmente de esgoto
tratado. não seria demais pensar que qualquer governo minimamente
interessado no real futuro [e não em votos] estaria, nos estados e
municípios, instalando esgotos a mil por hora. questão de saúde, de
segurança pública, pois de sobrevivência.

    que tal, pra aumentar nossas chances de futuro, universalizar o esgoto
em todos os domicílios em 10 anos? considerando que eletricidade já chegou
em quase todos os domicílios, assim como água, e isso aconteceu antes da
possibilidade [e baixo custo] de levarmos, juntamente com alguma outra
infra, a internet [e de fibra ótica?], a hora de universalizar a internet
nas casas brasileiras [ou a possibilidade dela] é quando tomarmos a decisão
de universalizar o esgoto…

    o custo de instalação cairia pra perto de zero, pois já temos que levar
o esgotamento sanitário para o país inteiro mesmo. e o problema seria
localizado, cidade a cidade, cada uma decidindo o que fazer no seu espaço e
com seu dinheiro. claro que muitos vão optar por redes aéreas como wi-max.
mas isso não é banda larga de verdade… banda larga mesmo, por casa, no
futuro, é algo na região de 100 megabit por segundo. instalando a fibra
certa, agora, é só trocar as pontas, depois.

    sonho? pode ser. mas que parece razoável, aqui no blog, como idéia,
parece. só falta os prefeitos entenderem que banda larga é tão necessária
como esgoto e um insumo fundamental para o desenvolvimento econômico.
pensando bem, ainda falta mesmo é os prefeitos chegarem em 1840 e entenderem
que esgoto universal é um item essencial da cidadania e até da humaninade
como a entendemos hoje.



    enquanto tal racionalidade e planejamento não chegam, pelo menos podemos
contemplar as fotos da mega rede de esgotos de águas pluviais de tokyo [rios
naka, ayase, edogawa], onde enchentes, tufões, furacões, maremotos e banda
larga são levados muito a sério. clique na foto; há um monte na seqüência.
sim, elas parecem tiradas de um vídeo game. mas são absolutamente reais…

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