Olá amigos e amigas.
O poema épico teatral que lhes envio foi um cutucar na memória das noites em
que ficava ao lado de minha mãe, ela costurando e me contando os dramas e
relatos das grandes secas que assolaram o Sertão Nordestino nos seus idos
tempos de juventude. Algumas criações ao longo do texto poético são frutos
da minha imaginação e de outros relatos ouvidos nos terreiros em noite de
luz cheia, nas humildes casas sertanezas. Portando, fiz um esperemer de
memória e uma futucada na imaginação para que pudesse fazer tal poema.
Espero que gostem.
Abraços
Gilmar Leite
Retirantes do Pajeú
* Poema Épico Teatral*
Arde o sol, queima a terra, ouvem-se gemidos.
Sopram ventos vorazes, parecendo brasas.
O céu brilha mostrando o azul da cor do mar...
Sob o lânguido teto das pequenas casas
Uma pobre família chora padecida
Ao ouvir os agouros sobre cada vida
De abutres que rondam batendo as asas.
O ruflar violento tomba a velha porta
Dum casebre, espectral, sem resistência.
Dele surge a beata magra e esquelética,
Transformada na sua própria aparência...
Ergue os braços e fita o olhar pra sequidão
E emite um gemido, uma assombração,
Roga aos céus , soluçando, pedindo clemência.
Grande Deus! Venha, veja o mórbido sertão!
O voraz Pajeú não corre mais no leito...
Só as lágrimas dos tormentos em vertentes
Escorrem sobre as folhas murchas do meu peito.
Oh Deus! Veja, nas velhas casas só há prantos...
Sobre os campos murcharam todos os encantos...
Deus! Oh Deus! Porque nós sofremos desse jeito?
Grita ao mundo de forma louca e estridente
Seus lamentos de dores, cantos e orações
Na esperança da vida sem cruéis tormentos
Onde a seca destruiu verdes plantações.
Seu clamor sem poder se perde no infinito
E tristonha percebe o seu fúnebre grito
Entre as rochas, lajedos, vales e grotões.
Já que o mundo se mostra surdo aos sertanejos!
Já que o céu não escuta os lânguidos clamores!
Só lhes resta partir! Mas, para onde irão?
A certeza da seca só demonstra dores...
Um ocaso se fecha sobre a existência...
Negras nuvens nublam o céu da consciência
De mulheres gentis, de nobres plantadores.
Assim parte, sem rumo os tristes sertanejos,
Carregando no peito a saudade gritante
Do Sertão, do seu Pajeú, terra de sonhos,
Onde outrora foi seu lugar tão fascinante...
O presente machuca todo o seu passado...
O futuro se mostra mórbido e nublado...
A esperança se perde no triste semblante.
Pajeú serpenteia seu leito vazio...
Entre os galhos, fantasmas langues, moribundos,
De mulheres, crianças, homens maltrapilhos,
Que parecem com seres vindos de outros mundos.
Em cada alma, nenhuma gota de esperança...
Vez enquanto desponta a luz de uma criança
Sobre a forma de um riso que foge em segundos.
Na caatinga se estendem secos marmeleiros...
Imbricados com decrépitos retirantes
Como vultos sombrios da mesma existência
Numa tela real, com cenas degradantes.
Velas árvores com seus galhos estendidos...
Cadavéricos seres emitem gemidos...
Ambos são: fantasmas dum filme horripilante.
Mães famintas, crianças fracas, pais chorosos,
São as cenas do Pajeú seco e tristonho
Que enterrou entre as rochas do chão ressequido
As promessas floridas de um mundo risonho.
Nos casebres ficaram lânguidas lembranças...
O presente sepulta lindas esperanças...
O porvir fecha as portas dúlcidas do sonho.
Não há tempo pro sonho! Só há o presente!
Que se mostra com garras frias e afiadas,
Arrancando os vestígios de felicidade
Das crianças que fazem belas cavalgadas.
Os indícios de vida são espectrais...
E entre gritos, gemidos, lamentos e ais,
Os famintos pisam nas trilhas calcinadas
Oh Leitor! Veja nas imagens destes versos!
Sinta em cada palavra a dor, o sofrimento,
Que nem Dante viu nos círculos infernais
Os castigos cruéis, no mundo do tormento.
Lá, o vate assistiu a dor dos pecadores...
Aqui, mostro o tormento dos agricultores...
Homens simples, perdidos, sofrendo ao relento.
Estes homens, outrora, foram cavaleiros,
Bravos mitos rompendo a caatinga voraz,
De perneira, gibão, chapéu, laço na mão,
Desbravavam a caatinga no potro fugaz.
Hoje, nem mesmo dão passadas tão seguras,
Cabisbaixos caminham nas estradas duras
Entre pedras, juremas e cactos brutais.
Uma magra mulher parecendo um graveto
Conduz uma filhinha presa a cintura
E sem força tropeça nos duros rochedos
Pra cair por cima da pobre criatura.
Um gemido abafado da boca ecoa
Que se estende por cima da velha lagoa
E se perde por dentro da mata escura.
A magrela criança chora bem baixinho...
Um graveto de mãe lhe oferta o seio mole
Na esperança de ter um pouco de alimento
Que alivie o sofrer e que o leite a console.
A criança tremendo sem força o puxa
E percebe ao puxar na glândula murcha,
Que do seio da mãe nenhum leite se bole.
Ao contrário do leite, surge um fio de sangue!
Uma lágrima brota do olhar tristonho...
As cacimbas do rosto ficam inundadas...
E se afoga no fundo da alma o seu sonho.
Secos lábios rachados como a terra bruta
Sobre os seios padecem numa triste luta
De um viver degradante, mórbido e bisonho.
A criancinha chora e grita: Oh Mamãe!
O meu corpo tremula como uma bandeira!
Não consigo andar; sinto os pés fraquejando
Ao cruzar uma estrada que tenha ladeira.
Estou fraca, meu corpo lânguido definha...
Eu não sei para onde a triste alma caminha...
E a fome, tornou-se a minha companheira.
Sob o sol que derrama o raio abrasador,
A sofrida família do povo faminto
Cruelmente é cortada pelo sofrimento
E jogada num confuso e louco labirinto.
Sem saber com certeza quais são os caminhos,
A família padece em sórdidos espinhos,
Onde a vida é travosa como um absinto.
O horizonte se perde ao longo das estradas...
A caatinga desnuda os poucos marmeleiros...
Os rochedos exibem lâminas cortantes...
E, os troncos parecem lânguidos guerreiros.
Retorcidas, tombam decrépitas juremas...
Cada canto parece ter tristes cinemas
Exibindo nas telas fúnebres roteiros.
Os famintos sofrendo deixam suas casas
E perdidos procuram alguns aposentos;
Mas a sombra que têm, são lúgubres abutres,
Que aguardam as horas com vôos agourentos.
Nas curvadas ramagens das árvores nuas,
Retirantes arrancam as raízes cruas,
E mastigam com força brutos alimentos.
Não existe esperança na alma do flagelo
Só o sol e a fome mostram-se presentes
E os gemidos por entre os secos carrascais
Que ecoam com gritos fortes e estridentes.
O poder governante vira as suas costas...
Os famintos tristonhos rezam de mãos postas
E suplicam a Deus com choros indulgentes.
Vez enquanto olham pro velho Pajeú...
Tudo morto! Somente pedras e sequidão.
Um pai vê o seu filho lânguido de fome
Que tremendo desmaia de desnutrição
Nem sequer botou um nome no frágil filho
Porque sabe que em breve o pobre maltrapilho
Vai morrer nas estradas secas do Sertão.
Caminhando a esquálida menina triste
Que parece um graveto quando a folha seca
Leva nas mãos seu lindo sonho de criança
Que se mostra na forma feliz de boneca.
Pro risonho brinquedo fala bem baixinho
Prometendo com meigo e plácido carinho
Que terão a comida depois da soneca.
Oh Leitor! Não se engane com este momento;
Onde a vida se mostra na pura inocência.
Mova os olhos, enxergue o mórbido flagelo
Onde o sol do viver se deita na existência.
Veja bem leitor! Cada passo, cada dor,
Cada ocaso de vida perdendo o esplendor,
Na nação dos “homens” que não tem consciência.
Veja bem sobre o solo bruto e ressequido
Homens magros que só tem na pele os ossos,
E no peito um deserto sem nenhuma fonte...
E na alma nenhuma miragem de poços.
Cabisbaixos procuram por um pouco de água
E se afogam num lago que transborda mágoa
Numa enchente de fome que só tem destroços.
Sem nação, sem aurora, sem a esperança,
Retirantes do Pajeú pisam em tocos
E caminham perdidos, sem nenhum destino,
Parecendo uma grande procissão de loucos.
Neste quadro de amarguras vê-se um país,
Que massacra a pobreza que chora infeliz
E oferta a imensa riqueza para poucos.
*Gilmar Leite*
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