ESTRATÉGIA & ANÁLISE
 ISSN 00331983
 
Dois artigos publicados nesta semana:
A importância da Teoria – revisitando a obra de Raúl Cariboni – 2, 
O modelo agrícola brasileiro e a CPI do MST
 
 O modelo agrícola brasileiro e a CPI do MST 
 
01 de outubro de 2009; da Vila Setembrina dos caídos pelos tiros dados pelas 
costas através dos capangas de latifundiários e escravagistas, Bruno Lima Rocha 

Na semana passada a bancada ruralista, comandada pela dublê de presidente da 
Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e senadora pelo DEM de Tocantins 
Kátia Abreu, protocolou o terceiro pedido de CPI sobre o Movimento dos 
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Para compreender o tom do embate, convido 
a leitura deste artigo assinado pela parlamentar. É a terceira iniciativa do 
gênero em menos de cinco anos e tenta atingir um dos poucos setores onde o 
movimento popular ainda consegue impor alguma agenda ao governo de Luiz Inácio. 
A arena antagônica do Planalto reflete dois projetos distintos e opostos. É o 
tipo de conflito que não cessa apesar dos panos quentes de um presidente com 
livre trânsito entre ambos os setores.
Como era de se esperar o foco da possível Comissão Parlamentar de Inquérito 
serão os canais de apoio do Movimento, mirando tanto nas ONGs (nacionais e 
internacionais) e pessoas jurídicas de tipo terceiro setor, assim como nos 
supostos repasses e convênios do governo central. Este intento de tornar 
midiáticas as formas de financiamento do MST é o reflexo da ofensiva que o 
projeto de agricultura camponesa e familiar impôs ao agronegócio nos últimos 
quarenta e cinco dias. 

A ampliação da chamada reserva legal e a revisão dos índices de produtividade 
colocou em pé de guerra os defensores da concepção do Brasil como uma 
mega-plataforma de exportação de grãos e bens primários. Se aprovadas, ambas as 
medidas vão obrigar os representados pela CNA a intensificarem seus índices e 
revisarem suas práticas produtivas. Apenas esta ameaça já é o suficiente para 
arrepiar o status quo num país onde 1% dos brasileiros são detentores da 
propriedade de 46% do território. 

Particularmente vejo a tudo isso como um absurdo. O modelo fundiário brasileiro 
é excludente e mal direcionado. Apesar de toda tecnologia incorporada pelos 
brilhantes profissionais das ciências agrárias nacionais, tamanho esforço não 
retorna para a população na forma de diversificação da oferta alimentar e menos 
ainda no desenvolvimento de modelos sustentáveis. Ao contrário, o avanço 
tecnológico na agricultura, toda ela financiada pelo Estado, implica em poder 
plantar soja da Amazônia à Campanha gaúcha. Para piorar, como dependemos de 
fertilizantes e sementes sob controle de transnacionais, estamos todos pagando 
royalties nas duas pontas da cadeia produtiva visando à exportação. 

Os paladinos das plantations contra argumentam afirmando que os assentamentos 
são tanto improdutivos como dependentes de recursos públicos. Trata-se de falsa 
polêmica e afirmação. Primeiro, porque a produtividade dos assentamentos não se 
mede pela relação extensão de terra e volume absoluto de produção para 
exportar, e sim por diversificação dos produtos e oferta aos mercados locais. 
Segundo, porque a agricultura no mundo inteiro é subsidiada, portanto, todo o 
setor primário depende do Estado. 

Deveríamos sim debater com profundidade os conceitos de soberania alimentar, 
defesa da biodiversidade e modelos ecologicamente sustentáveis. Tenho certeza 
que, se for esta a pauta, a balança vira, e o MST pára de sofrer os intentos de 
criminalização. Este é o debate estratégico para o país.
A importância da Teoria – revisitando a obra de Raúl Cariboni – 2
1º de outubro de 2009, por Bruno Lima Rocha 

Damos seqüência nesta semana com a visita e releitura da obra coletiva 
coordenada pelo professor de História e militante libertário uruguaio, Raúl 
Cariboni. O título do texto de orientação para a militância uruguaia do início 
da dura e disputada década de ’70 se chama A Importância da Teoria, e o apelido 
era Huerta Grande (Horta Grande). É um pequeno documento com sólida base 
estruturalista, apontando para o papel do mundo das idéias e da ciência para o 
acionar político do campo do movimento popular e das organizações específicas 
que se posicionam como motor destas lutas.
Dentro desse marco de conceitos operacionais está o de Linha, Programa e Etapa, 
conforme vemos abaixo: 

Sem linha para o trabalho teórico, uma Organização, por maior que seja, é 
confundida por condições que ela não condiciona nem compreende. A linha 
política pressupõe um programa, ou seja, as metas que se quer alcançar em cada 
etapa. O programa indica que forças são favoráveis, quais são os inimigos e 
quem são os aliados circunstanciais. Mas para saber isso é preciso conhecer 
profundamente a(s) realidade(s) do país. Por isso, adquirir agora esse 
conhecimento é a tarefa prioritária. E para conhecer é preciso teoria. 

Entendo que as formulações acima nos oferecem uma modelagem visível das 
carências, acertos, virtudes e mazelas do pouco ou muito trabalho teórico, da 
suficiente ou da falta de aplicação de métodos científicos na lida política. 
Podemos concluir que o bom conhecimento das realidades, somados com a qualidade 
de intervenção de acordo com o objetivo finalista é o fruto direto da 
capacidade teórica (aqui caracterizado como um sistema de conceitos 
coerentemente articulados), somado com a metodologia analítica para a 
incidência (sendo esta a sobreposição do pensamento histórico-estrutural 
aplicado sobre um tabuleiro de análise estratégica) e estando a dimensão 
ideológica preservada e retroalimentada pelo fazer da política cotidiana. 

Por contraposição lógica, o pouco conhecimento das realidades (a baixa 
compreensão da sociedade concreta e seus constrangimentos estruturais), em 
geral facilita a mística interna esterilizante. Esta “mística exagerada e 
esterilizante”, se caracteriza por um discurso excessivamente emotivo e que 
somente se retro-alimenta, fazendo a confusão intencional entre culto da 
simbologia com a frieza analítica que é pré-condição para qualquer incidência 
de longo prazo. Este discurso político se materializa para o público externo, 
em geral, através de um programa muito aberto, de linha pouco coerente (com 
evasivas conceituais e baixa coerência interna), o que corresponde na 
qualificação da incidência política em um caráter excessivamente agitativo. 

Somo aos fatores citados acima a necessidade da qualidade da intervenção, 
caracterizando-se a coesão, a partir do âmbito interno para o externo, como um 
perfil de estilo de trabalho político. Esta forma de procedimento atua tanto 
nas instâncias política específicas, como na política-social, social e do 
associativismo como um todo. Afinal, nas arenas públicas, a conduta de seus 
membros é a materialidade da intervenção organizada da agrupação que se 
pretende fomentadora de câmbio profundo. O trabalho de Cariboni aponta também o 
estilo, a forma de intervenção, quando a organização é identificada além do 
arsenal simbólico característico da política, mas também pela coerente 
articulação discursiva e analítica materializada na intervenção política de 
seus membros. 

Do ponto de vista metodológico, a teoria política de matriz libertária tem de 
dialogar com outras teorias, que não ocupem o mesmo espaço, mas que possam ser 
úteis para as análises e incidências necessárias para o desenvolvimento desta 
organização. Assim, segundo Cariboni, o ponto do diálogo, se dá na formulação 
de conceitos operacionais adequados na doutrina já pré-existente. “Teremos, 
então, que tomar a teoria conforme vamos elaborando, analisando-a criticamente. 
Não podemos aceitar qualquer teoria de olhos fechados, sem crítica, como se 
fosse um dogma.” Esta afirmativa implica em reconhecer e criticar, 
simultaneamente, e não iludir-se com a elaboração intelectual de outros. 

Isto eu compreendo que também caracteriza um repúdio orgânico às adesões de 
tipo “clichê”. No termo aplicado abaixo, “cartazinho da moda”, é a crítica de 
Cariboni (com a qual faço acordo) da citação pela citação, pela profusão de 
discurso com pretensões científicas, mas cuja importação de paradigmas 
estranhos e tipos ideais inaplicáveis tornam esse mesmo esforço inócuo e 
estéril. Se isso pode ser desastroso na produção acadêmica de um trabalhador 
intelectual, para uma equipe de formação política que tem como meta alimentar a 
capacidade de análise, tal esterilidade é a negação da instância em si mesma. 
Entendo que por isso a crítica abaixo é tão contundente. 

Não iremos adotar uma teoria para pô-la em um "cartazinho de moda". Para viver 
repetindo "citações" que outros disseram em outros lugares, em outro tempo, a 
propósito de outras citações e problemas. A teoria não é para isso. Para isso a 
usam os charlatães. [...] Quem compra um grande torno moderno e, ao invés de 
tornear fica falando do torno, faz um mau papel, é um charlatão. Da mesma forma 
aquele que, podendo ter um torno e usá-lo, prefere tornear a mão, porque era 
assim que se fazia antes... 

Neste ponto acima vejo uma aproximação da crítica intramuros do círculo 
virtuoso do mundo acadêmico, do conhecimento enquanto representação. É notado o 
elogio, mesmo que através de outros termos, do conhecimento enquanto um produto 
tangível e de aplicação estratégica. Isto se dá, analiso, porque no texto de 
Cariboni não se aventa a possibilidade de aplicação de um conhecimento fruto de 
método científico e cabedal teórico coerente, por fora do marco orgânico e da 
intencionalidade de ser um agente de câmbio. 

A caracterização do “charlatão” como aquele que faz “um mau papel”, e vejo como 
perfeitamente aplicável na atualidade. Pode ser visto este “mau papel” tanto 
entre operadores políticos e acadêmicos, dentre os que produzem discursos 
intangíveis ou importam categorias desnecessárias ou imaterializáveis em nossas 
sociedades. Vale observar que quando generalizo “nossas sociedades”, me refiro 
às sociedades concretas existentes na América Latina, englobando países, 
regiões, territórios ou grandes divisões como: Cone Sul, Zona Andina, Caribe, 
Centro-América, dentre outras. 

Voltando a charlatanice do cartazinho da moda e da citação pela citação, estes 
absurdos se dão seja pela complexidade argumentativa desacompanhada de uma 
fórmula de incidência, seja pelos que apenas copiam como os que aplicam tipos 
idéias pré-formatados. A pretensão universal de uma categoria ou um conjunto de 
predições categóricas, assim como a capacidade que um conhecimento tem de fazer 
do outro o particular e a si mesmo o conhecimento global é fruto tanto da 
correlação de forças como do potencial simbólico dos “charlatães”. A diferença 
do “grau de fracasso”, sem entrar no mérito valorativo do que seria pior, é que 
o epistemicídio que nos fala Boaventura de Souza Santos, quando aplicado na 
prática política resulta em fracassos de fins trágicos. 

O mesmo se dá na comparação da tecnologia a ser empregada, ironizando “quem 
prefere tornear a mão, porque assim se fazia antes...”. Na política, o 
anacronismo tático pode levar a uma esterilidade das idéias-guia, justo pela 
incompatibilidade que estas idéias de tipo doutrina terão na aplicação teórica. 
O equívoco estratégico, fruto da confusão e “cegueira valorativa” daquilo que é 
tático e do que é estratégico para atender aos objetivos finalistas através de 
uma estratégia permanente, segundo os fins e as condicionalidades, costuma 
cobrar um preço elevado para os que cometem erros básicos. 

Entendo que se nota acima, na citação do original de Cariboni, a preocupação em 
produzir teoria cujo produto de análise seja tangível, acessível, 
compreensível, tendo factibilidade entre a prática discursiva e a incidência 
organizativa cotidiana. Isto se dá, porque a preocupação maior não é nem com o 
proselitismo político e nem com a fundamentação da filosofia política. Embora 
estes dois fatores sejam relevantes, o que importa é a tangibilidade adequada 
ao terreno, ao espaço geográfico, inserida no tecido social e na estrutura de 
classes a partir de onde se opera e se organiza. 

O conhecimento enquanto representação se confunde e mescla a teoria com a 
dimensão ontológica pura (ideológica), tornando assim, a teoria, em muito algo 
pouco científico, acercando-a a mais uma peça de discurso atuando como um 
espelho de um sistema de crenças com pretensões cientificistas. A confusão e o 
apontar de algumas diferenças entre teoria com ideologia é abordada na 
seqüência, no último artigo da série da releitura do trabalho coordenado e 
sistematizado por Raúl Cariboni em 1970. Encerro estas linhas chamando a 
atenção para a atualidade do pensamento político quando se torna clássico e 
teoricamente válido. Tal é o caso da Horta Grande, que segue semeando novas 
proposições teóricas para o pensamento de matriz libertária. 
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Estratégia & Análise: a política, a economia e a ideologia na ponta da adaga.
 
Expediente
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