Vicente Serejo [email protected]
 15 OUT
 Um minuto de silêncio

15/10/2009 - 19:11
 *A coluna transcreve hoje a belíssima carta de Kerubino Procópio ao
arquiteto Moacyr Gomes. Como um grande pintor impressionista a refletir os
traços e as cores sob um sol triste e melancólico, desenha o chute lento na
História diante da dor da lucidez. Leiam Kerubino no talhe de um estilo
epistolar que só ele ainda sabe escrever.*

*Um minuto de silêncio*
Não é a primeira vez que escrevo sobre a demolição do Machadão e do Centro
Administrativo do Estado. Naquele outro momento, alguns meses atrás, a
decisão do desmanche do Machadão e adjacências era tida como uma hipótese
distante, uma espécie de transfusão de risco para um corpo são. Ninguém
acreditava que fosse verdade a alternativa da destruição, até porque se sabe
que Dom Quixote é coisa de ficção Entretanto, a notícia corria solta,
fazendo um contraponto com as baladas do Poder.

Eu dizia e repetia, Moacyr, que não tinha sentido uma demolição em série de
obras úteis e vultosas com a finalidade única de conhecer atletas sem
tradição ou receber autógrafo em língua estrangeira. Assim, eu pensava
porque o desmanche, além de inútil, parecia uma agressão às vestes da nossa
pobreza, já tão cheias de demolições. Não havia lógica nesta nova calamidade
numa cidade tão rica em calamidades públicas.

Contudo, o certo é que agora o fato está consumado. O desmanche não é mais
uma quimera ou fantasia política. A sorte está lançada e o crupiê já
recolheu as cartas e as fichas. De nada valeram os esforços de técnicos e
especialistas em artigos e exposições, fundados em números, equações e
equilíbrios orçamentários. Tudo isto passou ao largo do ponto de ebulição do
problema porque uma coisa, Moacyr, é a matemática de números e outra é a
matemática que decide. São concepções incompatíveis. Estou querendo dizer
que a poeira da demolição não é apenas poluição, ela também suja as mãos.

Apesar de tudo, quem sabe, Moacyr, se neste clima de perdidos e achados não
estejam eles, os responsáveis, guardando uma homenagem secreta para o
arquiteto que envaideceu a cidade com desenhos e emoções. Quem sabe? Será
que você não será chamado, discordâncias a parte, para protagonista do
pontapé inicial da partida de fechamento do estádio, antes que as luzes da
ribalta se apaguem? Não duvido tanto, porque gostaria bastante. Imagino tudo
isto com a visão de divina comédia, onde o trágico se perde nos gestos de
superação. Um chute lento, olhos na multidão, com uma mensagem de quem
devolve uma medalha olímpica, chutando a história. Neste instante, o seu
jogo terminou, a paga está feita e quem sabe, a platéia entenda e possa
aplaudir em pé o silêncio de um retirante, "um minuto de silêncio".

Na realidade, sei que nada disto vai acontecer. O Estádio vai desabar sem
qualquer suspiro de reconhecimento ou retardo de melancolias. O que passou é
sumiço, é gol perdido que não conta para os abraços.
Por isso, não vale a pena continuar a pensar em escombros ou restos mortais.
O que eu queria era entender os pobres mortais e a dor da lucidez.

Um abraço, Kerubino Procópio

Responder a