No Rio, o choque de ordem não garante cidadania plena
21 de outubro de 2009, por Bruno Lima Rocha 

A queda do helicóptero, fruto do ataque executado por narcotraficantes no Morro 
dos Macacos, em Vila Isabel, Rio de Janeiro, não é uma exceção à regra do 
cotidiano de cariocas e fluminenses. Tanto a capital como sua Região 
Metropolitana vive um cotidiano de não-governo em espaços geográficos onde o 
Estado entra de forma negociada. Para desespero coletivo, a situação se agrava 
desde 1983! No meu entendimento, esta é a raiz de todos os problemas de ordem 
pública da “Cidade Maravilhosa”.
José Mariano Beltrame é delegado da PF e atual secretário de segurança do 
estado do Rio. Corretamente, como manda o manual, quer recuperar a soberania 
estatal sobre manchas de território urbano. O problema é de legitimidade. 
Explico. Se um morador de favela disca o número 190 e chama o auxílio policial 
para sua integridade física, é quase impossível que uma viatura suba o morro em 
seu auxílio. Ao mesmo tempo, na zona sul carioca, a presença de policiamento 
ostensivo é superior a recomendada pela ONU. Trata-se de dois pesos e duas 
medidas para quem vive, literalmente, lado a lado. 

Quando o Estado não reconhece de fato a cidadania de mais de 2 milhões de 
pessoas, não tem nenhuma condição de agir como repressor. A presença física de 
forças policiais deveria ser obrigatoriamente acompanhada, ou pelo menos 
precedida, de um esforço descomunal para integrar estas regiões à cidade. Não é 
o que ocorre. Entra e sai governo e as medidas são paliativas e pirotécnicas. 
Retomar a soberania do Estado implicaria em regularização fundiária, 
policiamento ostensivo e permanente (e não ocupação policial), saneamento 
básico e ampla oferta de serviços públicos fundamentais, a começar pela saúde 
pública, incluindo o problemático serviço de ambulâncias para atendimentos de 
emergência. 

Se os moradores não têm direito a uma parte significativa de sua cidadania, não 
se espera que reconheçam a legitimidade de administrações que pouco ou nada 
lhes oferecem. Com esse argumento não afirmo ser preferível o controle 
territorial das redes de quadrilha do tráfico e menos ainda a tirania de 
para-policiais atendendo pela alcunha de “milícias”. Afirmo com todas as 
letras. Se a violência de narcotraficantes se resumisse às áreas de favela, os 
governos de turno do Rio e suas elites conviveriam sem problema algum com esse 
absurdo. Essa opinião não é minha, e sim de Hélio Luz, delegado de polícia 
civil e ex-subsecretário de segurança, com quem modestamente concordo. 

Assegurar a plena cidadania nas comunidades implica em políticas estruturantes 
ao custo de bilhões de reais. Infelizmente, os moradores não devem esperar nada 
nesse sentido dos governantes de plantão. A condição é outra. Na história da 
democracia liberal, os direitos fundamentais são fruto de conquistas e não de 
concessões. Ou se obriga o Estado a cumprir o seu dever, ou teremos mais 
helicópteros derrubados seguidos de milhares de mortos por ano. 


      
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