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REVISTA 14 - nº 04 - Ano 01 - Novembro de 2009
 
O Desalinho da Funcarte
 
Tristes e estarrecidos. O sentimento é de luto. No curto período entre a 
publicação de uma edição da nossa revista e de outra, coisas mirabolantes 
aconteceram com a cultura potiguar. Primeiro, anunciam: não haverá mais 
Encontro Natalense de Escritores este ano, ele foi adiado para março de 2010 
com o nome de Encontro Lusófono (?!) de Escritores. Mais uma ação de uma gestão 
municipal que parece querer apagar o passado recente de Natal.
O desenrolar foi mais arrebatador. César Revoredo, artista plástico e 
presidente da Fundação Capitania das Artes, foi pego num ato, no mínimo, 
estranho: depositou o salário de todos os funcionários terceirizados do órgão 
na conta do seu motorista e a partir dele fez os pagamentos dos trabalhadores. 
A acusação foi capa do Diário de Natal e pegou mal.
Tão mal que logo a prefeita decepou-lhe a cabeça. Enquanto isso, no outro 
âmbito governamental, artistas que venceram editais estaduais acusam a Fundação 
José Augusto de não pagar. Um protesto foi organizado, mas o fogo foi logo 
extinto depois que Crispiniano Neto, presidente da entidade, tranqüilizou os 
artistas e pediu paciência. Voltando ao município, a piada pareceu não ter mais 
fim: o novo titular da Funcarte chama-se Rodrigues Neto, jornalista da TV Ponta 
Negra, emissora cuja dona é a prefeita Micarla de Souza.
Até aí tudo bem, porque o vice escolhido é Gustavo Wanderley, um cara que tem 
um projeto bem bacana à frente da Casa da Ribeira e com as crianças do Arte e 
Ação.  Mas o teor das entrevistas concedidas pelo novo titular da Funcarte, 
tanto para o Diário de Natal, quanto para a Tribuna do Norte foi assustador. 
Não mais do que a substituição da dramaturga Clotilde Tavares, por Edson Bastos 
(outro funcionário da TV Ponta Negra), no texto do Auto de Natal. Clotilde 
trabalhava no texto havia mais de 20 dias e foi sumariamente retirada. Motivo: 
falta de tempo, Edson já teria um texto pronto.
Acontece que na entrevista dada por Rodrigues ao jornalista Sérgio Vilar do 
Diário de Natal, ele fez a seguinte afirmação sobre o texto do auto: “Será um 
texto bíblico, baseado no texto do apóstolo Matheus” e completou: “Não será uma 
adaptação esdrúxula”, referindo-se as ligações feitas no Auto com as religiões 
Afro, e com a nossa história e cultura popular. Talvez seja um julgamento 
precipitado, mas isso mostra um pouco da falta de preparo do novo gestor.
Na Tribuna do Norte, como muito bem repercutiu o Substantivo Plural, Rodrigues 
fala de uma suposta ligação do turismo com a cultura potiguar e afirma que 
priorizará as quadrilhas estilizadas. Nada contra as quadrilhas, mas ele parece 
esquecer que a tradição da cultura popular do Rio Grande do Norte é bem mais 
forte no boizado, no côco e no mamulengo – o resgate dessas tradições é de 
importância fundamental para a cidade. Ele pretende fazer cultura de eventos – 
isso pode ser assustador, quando lembramos que a produtora do Natal em Natal 
será a mesma do Carnatal.
Não quero, aqui, prever o fim do mundo, mas o desenrolar dos fatos gera uma 
impressão bem negativa quanto ao futuro da Capitania das Artes. Rodrigues já 
anunciou a demissão de toda a equipe que trabalhava na Funcarte, muitos vindos 
da gestão de Dácio Galvão – reconhecida pelas mudanças positivas na 
instituição. E esse aparente desalinho pode terminar com frutos negativos para 
uma área tão carente de políticas públicas. Espero que eu esteja errado.
Foto: George Maia
 

 
 
Fábio Farias
 



      
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