A Matriz Estruturalista na ciência social aplicada na América Latina – 2
14 de novembro de 2009, por Bruno Lima Rocha 

Neste segundo artigo, aponto a materialidade das experiências inaugurais que 
marcam, segundo minha análise, um novo período na luta social latino-americana 
e onde pode ser perfeitamente localizada a base da Matriz Estruturalista 
aplicada na Teoria da Radicalização Democrática. 

Para aplicar esta proposta, a de um estudo estratégico embasado em uma nova 
teoria de médio alcance, é necessário um terreno. Entendemos que não se faz 
política nem tampouco se analisa a política fora do mundo real e concreto. Para 
isto, são necessários quatro elementos que compõem o terreno: sociedades 
concretas; um recorte de espaço geográfico; linha de tempo (para inferência) e 
experiências formuladoras de idéias-guia.  
O recorte propriamente dito é onde se aplicam as hipóteses e inferências 
apontadas ao longo do texto. Isto é, o continente chamado de América Latina e 
especificamente nas experiências de superação do neoliberalismo e do Consenso 
de Washington. Este recorte tem como bases de início das experiências – 
arbitrário por suposto, como todo corte – a duas passagens do cenário político 
latino-americano dos anos 1990. Uma é o chamado Levante Zapatista ocorrido no 
estado de Chiapas, sul do México, em 1º de janeiro de 1994. Outra experiência 
marcante é a derrubada do presidente equatoriano Abdala Bucaram Ortiz em 5 de 
fevereiro de 1997, com apenas seis meses de mandato.
A relevância da experiência zapatista se dá por uma série de fatores. Um deles 
é a abordagem de controle do território. Outro, que pode ser compreendido como 
causa deste é a ancestralidade das populações originais e sua relação com a 
terra nativa. Isto ocorre num momento em que o uso dos recursos naturais é 
visto como commodity e não como patrimônio coletivo não renovável. Interessante 
também é ressaltar que o uso da força abriu espaço político, levando inclusive 
a um impasse na política tradicional e contribuindo de forma decisiva para dar 
cabo do regime Priista, levando a uma renovação conservadora na política 
profissional mexicana. Por fim, dos elementos que cabe ressaltar, é o reflexo 
da não-profissionalização da maioria dos encarregados políticos, havendo um bom 
índice de rotatividade e de aprendizado comum nas funções de coordenação. 

A experiência da rebelião popular que derrubou Abdala Bucaram (presidente 
equatoriano) em fevereiro de 1997 (com apenas 120 dias de mandato) ganha 
contornos de relevância por inaugurar um processo que culmina em uma série de 
puebladas onde diversas modalidades de luta e participação tiveram presentes. 
Elementos ideológicos, incluindo os de motivação republicana incidiram com 
peso, somadas ao vazio constitucional e a presença constante da organização 
social dos povos originais no formato de confederação indígena (Confederação 
Nacionalidades Indígenas de Equador) como vetor destas lutas. Assim, compreendo 
que a queda de Bucaram se equipara a uma modalidade inaugural. É quando a 
fragmentação da multiplicidade de sujeitos sociais representados dá lugar a uma 
unidade tática (ao menos) gerando uma experiência vitoriosa. Tal feito 
histórico assegura um grau de confiança das maiorias equatorianas que se 
mobilizavam contra os efeitos da
 dolarização da economia e dos efeitos do comportamento político das elites 
dirigentes associadas à presidência e ao próprio presidente Bucaram. A derrota 
do presidente Jamil Mahuad em janeiro de 2000 e do coronel Lucio Gutiérrez em 
abril de 2005, entendo que são a culminação do processo iniciado com a rebelião 
do verão de 1997. 

O fato de haver ressaltado estas duas experiências não é para estudo de caso, 
mas justo o inverso, é para aproveitar o que há de generalizável e 
universalizante (para o Continente) destes dois episódios históricos, e que no 
momento em que concluo este breve artigo, mantêm a sua vitalidade. Tomo estas 
experiências como inauguradoras de um discurso de ação direta popular, 
democracia direta, espaço público horizontal e decisão coletiva mediante amplo 
debate. 

Estas práticas políticas vão de encontro e em repúdio às medidas de governo, 
necessariamente decisões fundamentais para os respectivos países, e que não 
passaram por nenhuma forma de consulta. Entendemos que na América Latina, suas 
sociedades concretas passaram e seguem sofrendo o acionar de duas idéias 
aplicadas sobre dois discursos completamente antagônicos. O primeiro é o 
conjunto dos efeitos da desconstrução do tecido social a partir das “reformas” 
do neoliberalismo. O segundo conforma um conjunto arbitrário (por ser de minha 
escolha) de práticas generalizantes que acumulam para o conceito de Poder 
Popular como forma de organização dessa mesma sociedade fragmentada.
Leia também: O Muro caiu e deixou sua herança maldita.
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