E se nada muda você é um idiota...disse mui acertadamente o rapaz italianO!
2009/11/18 Ørf <[email protected]> > Viva o Google!!! > > 2009/11/18 <[email protected]> > > >> >> >> >> >> ------------------------------ >> >> *Mensagem original* >> *De:* Antonio Capistrano < [email protected] > >> *Para:* [email protected],[email protected], >> [email protected],[email protected], >> [email protected],[email protected],[email protected], >> [email protected],[email protected],[email protected], >> [email protected],[email protected],[email protected] >> ,[email protected] >> *Assunto:* Umberto Eco afirma: o Google é uma tragédia para os jovens >> *Enviada:* 16/11/2009 23:34 >> >> >> >> *O Google é uma tragédia para os jovens, afirma Umberto Eco* >> >> >> O escritor e semioticista italiano Umberto Eco, curador de uma nova >> exposição no Louvre em Paris, falou à "Spiegel" sobre o lugar que as listas >> ocupam na história da cultura, as formas pelas quais tentamos evitar pensar >> na morte e por que o Google é perigoso para os jovens. >> >> * >> Spiegel: Sr. Eco, o senhor é considerado um dos grandes acadêmicos do >> mundo, e agora está inaugurando uma exibição no Louvre, um dos museus mais >> importantes do mundo. Entretanto, os temas de sua mostra soam um pouco >> lugar-comum: a natureza essencial das listas, poetas que listam coisas em >> seus trabalhos e pintores que acumulam coisas em suas pinturas. Por que você >> escolheu esses temas?* >> >> Umberto Eco: A lista é a origem da cultura. Ela faz parte da história da >> arte e da literatura. O que a cultura quer? Tornar a infinitude >> compreensível. Ela também quer criar ordem - nem sempre, mas com frequência. >> E como, enquanto seres humanos, lidamos com a infinitude? Como é possível >> entender o incompre ensível? Através de listas, através de catálog os, >> através de coleções em museus e através de enciclopédias e dicionários. Há >> uma atração em enumerar com quantas mulheres Don Giovanni dormiu: foram >> 2.063 pelo menos, de acordo com o libretista de Mozart, Lorenzo da Ponte. >> Nós também temos listas totalmente práticas - listas de compras, >> testamentos, cardápios - que, a seu modo, também são conquistas culturais. >> >> *Spiegel: A pessoa aculturada deveria então ser vista como um zelador >> tentando impor a ordem em lugares onde o caos prevalece?* >> >> Eco: A lista não destrói a cultura; ela a cria. Para onde quer que você >> olhe na história da cultura, encontrará listas. Na verdade, há uma variedade >> atordoante: listas de santos, exércitos e plantas medicinais, ou de tesouros >> e títulos de livros. Pense nas coleções sobre a natureza do século 16. Meus >> livros, a propósito, são cheios de listas. >> >> *Spiegel: Contado res fazem listas, mas também podemos encontrá-l as nas >> obras de Homero, James Joyce e Thomas Mann.* >> >> Eco: Sim. Mas eles, é claro, não são contadores. Em "Ulysses", James Joyce >> descreve como seu protagonista, Leopold Bloom, abre suas gavetas e tudo o >> que ele encontra dentro delas. Vejo isso como uma lista literária, e ela diz >> muito sobre Bloom. Ou veja Homero, por exemplo. Na "Ilíada", ele tenta >> transmitir uma impressão do tamanho do exército grego. Primeiro ele usa >> metáforas: "Assim como um grande fogo florestal investe contra o topo de uma >> montanha e sua luz é vista de longe, enquanto marchavam, o brilho de suas >> armaduras reluzia nas alturas do céu". Mas não fica satisfeito. Ele não >> consegue encontrar a metáfora certa, então implora às musas para que o >> ajudem. Então ele chega à ideia de listar os nomes de muitos, muitos >> generais e seus navios. >> >> >> >> A lista não destrói a cultura; ela a cria. Para onde quer que você olhe >> na história da cultura, encontrará listas. (...) Meus livros, a propósito, >> são cheios de listas >> >> *Spiegel: Mas, ao fazer isso, ele não se desvia da poesia?* >> Eco: A princípio, pensamos que uma lista é algo primitivo e típico das >> primeiras culturas, que não tinham um conceito exato do universo e que, >> portanto, eram limitadas a listar as características que podiam nomear. Mas, >> na história cultural, a lista prevaleceu ao longo do tempo. Ela não é, de >> forma alguma, uma mera expressão das culturas primitivas. Uma nova visão de >> mundo baseada na astronomia predominou durante o Renascimento e o período >> barroco. E havia listas. E a lista com certeza impera na era pós-moderna. >> Ela tem uma mágica irresistível. >> >> *Spiegel: Mas por que Homero lista todos aqueles guerreiros e seus >> navios, se sabe que nunca será capaz de citar todos eles?* >> Eco: O trabalho de Homero se depara constantemente com o tópos do >> inexpressível. As pessoas sempre farão isso. Sempre fomos fascinados pelo >> espaço infinito, pelas estrelas incontáveis e galáxias além das galáxias. >> Como uma pessoa se sente olhando para o céu? Ela acredita que sua língua não >> é suficiente para descrever o que vê. Os amantes estão na mesma posição. >> Eles experimentam uma deficiência de linguagem, uma falta de palavras para >> expressar seus sentimentos. Mas os amantes tentam parar de fazer isso? Eles >> criam listas: seus olhos são tão belos, assim como sua boca, e a sua >> clavícula... As pessoas podem entrar em grandes detalhes. >> * >> Spiegel: Por que nós perdemos tanto tempo tentando concluir coisas que não >> podem ser realisticamente concluídas?* >> Eco: Nós temos um limite, um limite muito desencorajador e hu milhante: a >> morte. É por isso que gostamos de todas as coisas que acreditamos não ter >> limites, e que, portanto, não têm fim. É uma forma de fugir dos pensamentos >> sobre a morte. Gostamos de listas porque não queremos morrer. >> >> *"As pessoas têm suas preferências"* >> * >> Spiegel: Em sua mostra no Louvre, você também mostra obras das artes >> visuais, como naturezas-mortas. Mas essas pinturas têm molduras, ou limites, >> e elas não podem mostrar mais do que de fato mostram.* >> Eco: Pelo contrário, o motivo pelo qual gostamos tanto delas é que >> acreditamos que somos capazes de ver mais do que elas mostram. Uma pessoa >> contemplando uma pintura sente necessidade de abrir a moldura e ver que >> coisas estão à esquerda e à direita da tela. Esse tipo de pintura é >> verdadeiramente uma lista, um r e corte da infinitude. >> >> *Spiegel: Por que as listas e as acumulações são particularmente >> importantes para você?* >> Eco: As pessoas do Louvre me procuraram e perguntaram se eu gostaria de >> ser o curador de uma exibição no museu, e pediram para que eu elaborasse uma >> programação de eventos. Só a ideia de trabalhar num museu já era sedutora >> para mim. Estive lá sozinho recentemente, e me senti como um personagem num >> livro de Dan Brown. Fiquei ao mesmo tempo assustado e maravilhado. Percebi >> imediatamente que a exibição teria como tema as listas. Por que me interesso >> tanto pelo assunto? Não sei dizer exatamente. Gosto das listas pela mesma >> razão que outras pessoas gostam de futebol ou pedofilia. As pessoas têm suas >> preferências. >> >> *Spiegel: Ainda assim, você é famoso por ser capaz de explicar suas >> paixões...* >> Eco: ? mas não por falar sobre mim mesmo. Veja, desde a época de >> Aristóteles tentamos definir as c oisas baseadas em sua essência. A >> definição do homem? Um animal que age de forma deliberada. Agora, levou 80 >> anos para os naturalistas conseguirem elaborar a definição de um >> ornitorrinco. Eles acharam infinitamente difícil descrever a essência desse >> animal. Ele vive na água e na terra; bota ovos, e apesar disso é um >> mamífero. Então com que se parece essa definição? É uma lista, uma lista de >> características. >> >> Spiegel: Uma definição certamente seria possível com um animal mais >> convencional. >> Eco: Talvez, mas isso tornaria o animal interessante? Pense num tigre, que >> a ciência descreve como um predador. Como uma mãe descreveria um tigre para >> seu filho? Talvez usando uma lista de características: o tigre é um felino, >> grande, amarelo, com listras e forte. Só um químico se referiria à água como >> H2O. Mas eu digo que ela é líquida e transparente, que nós a bebemos e que >> podemos nos lavar com ela. Agora você pode finalmente ver sobre o q ue estou >> falando. A lista é o marco de uma sociedade altamente avançada, >> desenvolvida, porque ela nos permite questionar as definições essenciais. A >> definição essencial é primitiva comparada à lista. >> >> Spiegel: Pode parecer que você está dizendo que deveríamos parar de >> definir as coisas e que o progresso seria, em vez disso, apenas contar e >> listar as coisas. >> Eco: Isso pode ser libertador. O período barroco foi um período de listas. >> De repente, todas as definições escolásticas que foram feitas no período >> anterior não serviam mais. As pessoas tentaram ver o mundo de uma >> perspectiva diferente. Galileu descreveu novos detalhes sobre a Lua. E, na >> arte, definições estabelecidas foram literalmente destruídas, e a variedade >> de assuntos se expandiu tremendamente. Por exemplo, vejo as pinturas do >> barroco holandês como listas: as naturezas-mortas com todas aquelas frutas e >> as imagens de armários opulentos de curiosidades. As listas podem ser anárqu >> ica s. >> >> Spiegel: Mas você disse que as listas podem estabelecer a ordem. Então, >> tanto a ordem quanto a anarquia se aplicam? Isso tornaria a internet, e as >> listas criadas pelo mecanismo de busca Google, perfeitas para você. >> Eco: Sim, no caso do Google, ambas as coisas convergem. O Google faz uma >> lista, mas, no minuto em que eu olho para minha lista gerada pelo Google, >> ela já mudou. Essas listas podem ser perigosas - não para pessoas mais >> velhas como eu, que adquiriram o conhecimento de outra forma, mas para os >> jovens, para quem o Google é uma tragédia. As escolas precisam ensinar a >> fina arte de discriminar. >> >> Spiegel: Você está dizendo que os professores deveriam instruir seus >> alunos sobre a diferença entre o que é bom e o que é ruim? Se sim, como eles >> deveriam fazer isso? >> Eco: A educação deveria voltar à forma que era nas oficinas do >> Renascimento. Lá, os mestres não eram necessariamente capazes de explicar >> aos alunos porque uma pint ura era boa em termos teóricos, mas eles faziam >> isso de forma mais prática. Veja, o seu dedo pode se parecer com isso, mas >> ele é de fato assim. Veja, esta é uma boa mistura de cores. A mesma >> abordagem deveria ser usada nas escolas ao lidar com a internet. O professor >> deveria dizer: "Escolha qualquer assunto, quer seja a história alemã ou a >> vida das formigas. Busque 25 páginas diferentes na internet e, ao >> compará-las, tente descobrir qual oferece uma boa informação". Se dez >> páginas descreverem a mesma coisa, pode ser um sinal de que a informação >> publicada está correta. Mas também pode ser um sinal de que alguns sites >> copiaram os erros dos outros. >> >> >> Por que me interesso tanto pelo assunto? Não sei dizer exatamente. >> Gosto das listas pela mesma razão que outras pessoas gostam de futebol ou >> pedofilia. As pessoas têm suas preferências >> >> >> *Spiegel: Uma definição certamente seria possível com um animal mais >> convencional.* >> Eco: Talvez, mas isso tornaria o animal interessante? Pense num tigre, que >> a ciência descreve como um predador. Como uma mãe descreveria um tigre para >> seu filho? Talvez usando uma lista de características: o tigre é um felino, >> grande, amarelo, com listras e forte. Só um químico se referiria à água como >> H2O. Mas eu digo que ela é líquida e transparente, que nós a bebemos e que >> podemos nos lavar com ela. Agora você pode finalmente ver sobre o que estou >> falando. A lista é o marco de uma sociedade altamente avançada, >> desenvolvida, porque ela nos permite questionar as definições essenciais. A >> definição essencial é primitiva comparada à lista. >> >> *Spiegel: Pode parecer que você es tá dizendo que deveríamos parar de >> definir as coisas e que o progresso seria, em vez disso, apenas contar e >> listar as coisas.* >> Eco: Isso pode ser libertador. O período barroco foi um período de listas. >> De repente, todas as definições escolásticas que foram feitas no período >> anterior não serviam mais. As pessoas tentaram ver o mundo de uma >> perspectiva diferente. Galileu descreveu novos detalhes sobre a Lua. E, na >> arte, definições estabelecidas foram literalmente destruídas, e a variedade >> de assuntos se expandiu tremendamente. Por exemplo, vejo as pinturas do >> barroco holandês como listas: as naturezas-mortas com todas aquelas frutas e >> as imagens de armários opulentos de curiosidades. As listas podem ser >> anárquicas. >> >> *Spiegel: Mas você disse que as listas podem estabelecer a ordem. Então, >> tanto a ordem quanto a anarquia se aplicam? Isso torna r ia a internet, e as >> listas criadas pelo mecanismo de busca Google, perfeitas para você. >> *Eco: Sim, no caso do Google, ambas as coisas convergem. O Google faz uma >> lista, mas, no minuto em que eu olho para minha lista gerada pelo Google, >> ela já mudou. Essas listas podem ser perigosas - não para pessoas mais >> velhas como eu, que adquiriram o conhecimento de outra forma, mas para os >> jovens, para quem o Google é uma tragédia. As escolas precisam ensinar a >> fina arte de discriminar. >> >> *Spiegel: Você está dizendo que os professores deveriam instruir seus >> alunos sobre a diferença entre o que é bom e o que é ruim? Se sim, como eles >> deveriam fazer isso?* >> Eco: A educação deveria voltar à forma que era nas oficinas do >> Renascimento. Lá, os mestres não eram necessariamente capazes de explicar >> aos alunos porque uma pintura era boa em termos teóricos, mas eles faziam >> isso de forma mais prática. Veja, o seu dedo pode se parecer com is so, mas >> ele é de fato assim. Veja, esta é uma boa mistura de cores. A mesma >> abordagem deveria ser usada nas escolas ao lidar com a internet. O professor >> deveria dizer: "Escolha qualquer assunto, quer seja a história alemã ou a >> vida das formigas. Busque 25 páginas diferentes na internet e, ao >> compará-las, tente descobrir qual oferece uma boa informação". Se dez >> páginas descreverem a mesma coisa, pode ser um sinal de que a informação >> publicada está correta. Mas também pode ser um sinal de que alguns sites >> copiaram os erros dos outros. >> >> O Google faz uma lista, mas, no minuto em que eu olho para minha lista >> gerada pelo Google, ela já mudou. Essas listas podem ser perigosas - não >> para pessoas mais velhas como eu, que adquiriram o conhecimento de outra >> forma, mas para os jovens, para quem o Google é uma tragédia. As escolas >> precisam ensinar a fina arte de discriminar >> >> *Spiegel: Você tem uma tendência maior a trabalhar com livros, e tem uma >> biblioteca de 30 mil volumes. Ela provavelmente não funciona sem uma lista >> ou catálogo. >> *Eco: Acredito que, agora, ela tenha na verdade 50 mil livros. Quando >> minha secretária quis catalogá-la, pedi que ela não o fizesse. Meu interesse >> muda constantemente, assim como minha biblioteca. A propósito, se você muda >> constantemente de interesses, sua biblioteca constantemente dirá algo >> diferente sobre você. Além disso, mesmo sem um catálogo, sou obrigado a me >> lembrar dos meus livros. Tenho um corredor para literatura com 70 metros de >> comprimento. Ando por ele várias vezes por dia, e me sinto bem ao fazer >> isso. A cultura não é saber quando Napoleão morr eu. Cultura significa saber >> como posso descobrir isso em dois minutos. É claro, hoje em dia posso >> encontrar esse tipo de informação na internet em menos tempo. Mas, como eu >> disse, nunca se pode ter certeza com a internet. >> >> *Spiegel: Você inclui uma lista simpática feita pelo filósofo francês >> Roland Barthes em seu novo livro, "A Vertigem das Listas". Ele lista as >> coisas de que mais gosta e as coisas de que não gosta. Ele adora salada, >> canela, queijo e especiarias. Ele não gosta de motoqueiros, mulheres com >> calças compridas, gerânios, morangos e cravo [instrumento musical]. E você? >> *Eco: Eu seria um tolo se respondesse a isso; estaria me fechando numa >> definição. Eu era fascinado por Stendhal aos 13 e por Thomas Mann aos 15 e, >> aos 16, eu adorava Chopin. Então passei a minha vida inteira tentando >> conhecer o resto. Agora, Chopin está no topo nov a mente. Se você interage >> com as coisas em sua vida, tudo muda constantemente. E se nada muda, você é >> um idiota. >> >> Fonte: Der Spiegel - Tradução: Eloise De Vylder >> >> >> >> Publicado no www.vermelho.org.br – 16/11/2009 >> >> >> >> Com um abraço de Antonio Capistrano >> >> >> >> >> > >
