Nesse Carnatal não beije estranhos, se apresente primeiro
[foto de Robert Doisneau, em 1950, antes da gripe do porco]

A última vez que eu fui a um Carnatal foi em 1994 com meu amigo Adriano
Araújo. Lembro que foi no dia da morte de Tom Jobim e a gente resolveu
se misturar na multidão e encher a cara. Bebemos o morto em meio a mais
absoluta e selvagem folia e transitamos como fantasmas pela turba de
alucinados que girava em círculos ao redor do Machadão atrás dos trios
elétricos do ashé paradaise daqueles anos antigos.

Essa semana o Carnatal retorna ao nosso mundo urbano de uma forma,
vamos combinar, bem diferente. Ou melhor, não é apenas a micareta
potiguar, a própria cidade está diferente. Esses anos todos, desde que
o primeiro Carnatal ocorreu ainda na Praça Cívica, em Petrópolis, Natal
mudou radicalmente e hoje, um evento outrora absolutamente canônico,
não parece mexer com o campo magnético da cidade como fazia em 1993 ou
1994.

Com a expectativa da derrubada do Machadão e com as sinistras notícias
de um surto generalizado de H1N1 depois da fuzaca, o Carnatal está mais
denso esse ano. Os adeptos de teorias conspiratórias falam em mais de
vinte mortos por gripe suína na cidade e sobre imorais estratégias de
camuflagem de números da saúde para que não se atrapalhe a festa nem se
espante os turistas e seus adorados euros em plena abertura de alta
estação. Por enquanto não temos indícios de que isso seja realmente
verdade, mas se for, seria motivo para se derrubar metade do
secretariado da prefeita e da governadora de uma lapada só.

O fato é que a população sente, empiricamente, que vivemos sobre a
égide de um tempo de peste. Os planos de saúde que um dia representavam
status e a marca de certa estirpe social hoje não fornece mais aquela
garantia de segurança sanitária que a classe média acostumou a
relacionar com a prestação do seu precioso seguro de saúde. Tentamos
ridiculamente criar estratégias de sobrevivência nesse tempo de crise.

Fala-se que o beijo de língua é um dos grandes aliados do H1N1 nesse
Carnatal. Nada mais coerente porque, como cantava o Bauhaus no começo
dos anos oitenta “a paixão dos amantes é para a morte”. Sim, muito já
se falou sobre as relações entre sexo e morte e o beijo de língua todo
mundo sabe, é uma espécie muito peculiar de acordo pré-coito. Nesse
sentido ele difere fundamentalmente do cheiro no cangote. Cheirar um
cangote e beijar de língua são coisas que tem significados
absolutamente discrepantes. Um casamento pode durar uma eternidade, por
exemplo, se o casal se acostumar religiosamente a cheirar o cangote um
do outro todos os dias. Mas o beijo de língua não se sustenta após o
arrefecimento hormonal das paixões e das fantasias sexuais. Ele tem uma
função muito especifica no cardápio das estratégias de reprodução da
espécie para ser sustentáculo de qualquer casamento ou relacionamento
mais sólido.

Se o cheiro no cangote denota um misto transcendente de
espiritualidade, afeto e amor total, o beijo de língua manifesta de
modo selvagem o amor biológico da terra percorrendo de forma mais bruta
no corpo dos amantes através de seus fluidos e de suas secreções.

Mas nesse Carnatal, nem o inocente cheiro no cangote nos salvará da
gripe do porco. È normal ir ao Carnatal. È normal curtir, nesses três
dias, nosso débito com os velhos rituais de procriação de Dionísio e
abrir mão dos nossos pudores para cultuar a loucura, o sexo e a morte e
deixar à mostra nossos segredos inconscientes revelados pela força do
álcool. Somos assim. Humanos, demasiado humanos. È normal… sim, eu sei
que é normal. O problema, é que ser normal em uma sociedade doente não
é lá um sinal muito confiável de saúde.

Fonte: www.pablocapistrano.com.br


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Postado por Yuno Silva no .: SOS Ponta Negra :. em 12/04/2009 10:02:00
AM

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