A ÉTICA DO POETA MENTIROSO
 
Há dois domingos, o Novo Jornal, veículo para o qual trabalho, publicou uma 
reportagem minha sobre o Beco da Lama. Embora abrangente, com espaço para 
freqüentadores, moradores, proprietários dos botecos e personagens que habitam 
aquele pedaço do Centro Histórico, o foco da matéria era a criação da Bamba, 
entidade recém-fundada por um grupo de freqüentadores do Beco, e sua relação 
com a Samba, sociedade organizada na mesma região há 15 anos. As duas 
convergem, pelo menos na teoria, para a luta em defesa do Centro Histórico e, 
por conta disso, a polêmica foi levantada em cima das razões de se criar uma 
nova entidade para o mesmo fim. A reportagem cumpriu seu papel de trazer à tona 
várias questões envolvendo as duas entidades e jogou luz à divisão política que 
existe, hoje, na região do Beco da Lama. 
 
Era óbvio, como toda polêmica, que a matéria geraria reações diversas tanto a 
favor como contra. E foi assim. No entanto, nenhuma delas foi tão ardilosa e 
desqualificante como a acusação a mim imposta pelo poeta e diretor da Bamba, 
Plínio Sanderson. Baseado em ‘achismos’ e ‘ilações’ mentirosas, o rapaz me 
incutiu a pecha de antiético por entender do texto que, segundo ele, eu 
entrevistei o presidente da Samba, Augusto Lula antes e depois de falar com 
Dunga, o diretor da Bamba. Na imaginação criada e divulgada de forma leviana 
por Plínio Sanderson, o repórter atuou como leva-e-traz para beneficiar a 
Samba. 
 
Pois bem. Depois de ler e reler os ataques divulgados por email por Sanderson, 
que chegaram a mim através de um amigo porque mesmo tendo meu endereço 
eletrônico o rapaz não me enviou o texto, me lembrei do jornalismo mau-caráter 
praticado pela revista Veja, “a única revista americana escrita em português”, 
segundo o jornalista José Arbex Júnior.  Na falta do que dizer para atacar e 
acusar seus opositores, a Veja costuma se valer do mesmo artifício usado agora 
por Plínio Sanderson: a criação de factóides, mentiras.  
 
E explico. Na semana da festa que celebrou a criação da Bamba, o jornalista 
Alexandro Gurgel publicou, no blog que assina grandeponto.blogspot.com.br  uma 
entrevista com Dunga sobre as razões da criação da Bamba. No texto, em formato 
ping-pong de perguntas e respostas, o diretor da Bamba critica a gestão da 
Samba e diz rigorosamente tudo aquilo que repetiu a mim, quase uma semana 
depois. Num jornal, como o senhor Sanderson deveria saber, há uma etapa chamada 
edição e, no final das contas, acabou ficando de fora algumas coisas, além é 
claro dos ataques pessoais de ambos os lados. E não foram poucos.
 
Portanto, Augusto Lula, quando entrevistado na única vez em que nos falamos na 
semana da reportagem, antes de Dunga, respondeu as perguntas fazendo referência 
aos ataques direcionados a gestão dele pelo diretor da Bamba e tornado público 
por Alexandro Gurgel através do blog ‘Grande Ponto’. Mas ainda assim fica uma 
dúvida: ou a relação de Plínio Sanderson com os blogs é apenas ‘poética’ ou o 
diretor da Bamba não acredita no sucesso do blog de seu amigo.  Alguém precisa 
comunicar ao poeta Sanderson o que se fala e o que se diz sobre a entidade que 
ele dirige com um grupo de amigos sob pena de cair no ridículo de inventar 
fatos para atacar quem quer que seja.           
 
Desde que o ministro do STF, Gilmar Mendes, decidiu acabar com a 
obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo, muita gente entendeu 
o ato como se a porteira estivesse escancarada para quem quisesse se arvorar no 
ofício. Alguns passaram a acreditar na possibilidade da concretização de um 
sonho ou desejo frustrado de se tornar profissional sem precisar passar pelos 
bancos das universidades; outros viram um espaço novo para a picaretagem pura e 
simples. Pouquíssimos, no entanto, atentaram para o fato de que, mesmo com toda 
a abertura possível, a prática jornalística decente e responsável deve obedecer 
a alguns critérios básicos que, ao servir para a profissão, servem igualmente 
para qualquer situação da vida: a checagem da informação e a pluralidade dos 
discursos que nada mais é, no jargão jornalístico, que ‘ouvir os dois lados da 
história’. Nenhum desses dois preceitos e princípios básicos foi respeitado 
pelo senhor Plínio Sanderson. Não é à toa que temos conceitos distintos sobre 
ética.  
 
Rafael Duarte
Jornalista diplomado
DRT 1250                                          
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