Palanque, palco e regime de caixa 
26 de fevereiro de 2010, da Vila Setembrina, Bruno Lima Rocha 

O ano de 2010 começa e já temos rusgas no nível jurídico a respeito do uso da 
máquina estatal em prol da situação. Quem representa contra a campanha 
antecipada, em geral, o faz por necessidade e ocasião, e não por princípios. É 
como abrir ou engavetar uma CPI, depende do lugar de fala e não da razão. Quem 
ocupa uma parcela de poder no Planalto pode ser oposição em algum dos estados e 
recorre aos tribunais eleitorais representando contra o mesmo crime cometido 
por seus correligionários em outro nível de governo. Pelo Brasil afora abundam 
comícios, atos públicos, inaugurações, festejos e outras ações de visibilidade 
e impacto midiático. Alguns colegas da ciência política normatizam esta 
prática, naturalizando-a. No meu caso, me posiciono contra. Vejamos por quê.
No jogo de competição dos políticos profissionais e consórcios econômicos 
associados, sabe-se que aqueles detentores do botim do Estado têm a condição de 
força para aplicar os recursos coletivos para fins privados. E, infelizmente, 
na democracia representativa através de líderes com carreiras e trajetórias de 
dedicação exclusiva, “investir” em ações publicitárias faz parte do jogo, mesmo 
beirando a ilegalidade segundo a lei eleitoral brasileira. Percebam que não 
defino aqui o nível de governo. Isto porque estas práticas são comuns e 
correntes nas esferas da União, estados e municípios. Embora a legislação 
proíba a campanha por antecipação, a cultura política não só tolera como 
reproduz a forma de conduta. 

Já escrevi a respeito da diferença entre a publicidade de governo para com a 
propaganda pública. A primeira, “vende” a imagem do líder do Executivo e sua 
equipe, tomando o político como produto. Já a segunda, descortina a caixa preta 
do Estado, tornando-o mais público para a cidadania. Como se sabe, a primeira 
forma ganha de goleada da segunda. A solução se encontra no controle social das 
gordas verbas para bens simbólicos e do disciplinamento dos governos para não 
fazerem regime de caixa com fins eleitoreiros. Realisticamente, ambas as 
medidas são duras de aprovar. 

O modo de agir é relativamente simples. Quando um governante se expõe em 
período pré-eleitoral, levando pelos braços o sucessor indicado, emprestando 
prestígio ou a falta deste para sua claque nos comícios ou atos públicos, isto 
já é campanha. Como não existe almoço grátis, a conta em geral é paga com 
regime de caixa único, arrocho generalizado e planejamento para uma enxurrada 
de inaugurações no período próximo aos pleitos. A prática é corriqueira e 
pluripartidária, sendo até agora comum entre todas as legendas. Assim, algo 
absurdo torna-se “natural”. 

Trata-se de um problema de interação complexa, tal como a guerra fiscal. Ou a 
regra se aplica a todos, ou quem a cumprir será de fato lesado na competição 
pelo voto. É urgente disciplinar as emendas orçamentárias e a sobretaxação para 
diminuir o palanque travestido de palco eleitoreiro. Para isso ocorrer, só há 
possibilidade real através da pressão popular vinda da ação coletiva. 
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