O Mercosul, o BRIC e o planeta
Um candidato a
presidente do Brasil que tem possibilidades de ser eleito deveria ao
menos estar bem informado. Por exemplo, deveria conhecer os altíssimos
índices de crescimento que o comércio exterior de seu país vem tendo
durante os últimos dois anos, em que o Mercosul existiu notoriamente.
Este foi um dos principais fatores do crescimento e do enorme superávit
de seu país. Haveria uma boa quantidade de dados, cifras e percetuais
para demonstrar a Serra que suas opiniões nao têm por certo um
fundamento muito sólido e sobretudo sereno. E essas são virtudes que se
reclama de qualquer governante. O artigo é de Esteban Valenti, diretor
da agência UyPress.
Esteban Valenti (*)
Em
declarações recentes na Federação das Indústrias de Minas Gerais, o
pré-candidato a Presidência da República do Brasil pelo partido
centrista PSDB, José Serra qualificou o Mercosul como uma “farsa” e
como “uma barreira para que o Brasil possa fazer acordos comerciais”.
Depois,
em outras declarações à imprensa ele flexibilizou suas definiçãos mais
taxativas. Como em todos os casos, devemos partir da realidade. Um
candidato a presidente do Brasil que tem possibilidades de ser eleito
deveria ao menos estar bem informado. Por exemplo, deveria conhecer os
altíssimos índices de crescimento que o comércio exterior de seu país
vem tendo durante os últimos dois anos, em que o Mercosul existiu
notoriamente. Este foi um dos principais fatores do crescimento e do
enorme superavit fiscal de seu país.
Durante a crise mundial
que devastou setores inteiros do comércio internacional, inclusive, os
países do Mercosul estão entre os menos afetados, tanto em termos de
crescimento como em seu comércio internacional. Assim o informa o
último relatório do Fundo Monetário Internacional, que prevê para a
região um crescimento de 4,3% neste ano.
Haveria uma boa
quantidade de dados, cifras e percetuais para demonstrar a Serra que
suas opiniões nao têm por certo um fundamento muito sólido e sobretudo
sereno. E essas são virtudes que se reclama de qualquer governante.
Muito mais em se tratando de um potência emergente como hoje é o
Brasil.
Se, por exemplo, analisa-se as afirmações de Serra
desde os outros países integrantes do bloco, por exemplo Argentina e
Uruguai e se considera o avanço impetuoso das grandes empresas
brasileiras em setores como o cimento, a cerveja, os grãos, a terra, os
frigoríficos, a energia, a construção e muitos outros setores, quem
deveria se alarmar – caso tivéssemos uma visão míope e desconfiada –
seríamos nós, os sócios do Mercosul. A menos que Serra considere que
este avanço impetuoso dos grupos empresariais do Brasil nada tenha a
ver com o Mercosul.
Seria bom que ele respondesse a uma
simples pergunta: em que outra região do planeta o Brasil concentra
tantos investimentos e tal predominância em setores inteiros da
indústria e do comércio?
O que alarma, porém, é a absoluta falta
de uma visão política, de uma mirada estratégica sobre o papel do
Brasil na região e no mundo. Se algo paradoxicamente caracterizou o
Brasil durante muitas décadas foi ter uma das melhores chancelarias do
mundo, o Itamaraty, e a falta de uma estratégia global. Na realidade,
nao era um problema profissional, era político, o que faltava era um
Projeto Nacional.
O maior aporte que Luis Inácio “Lula” da
Silva realizou não foi a luta contra a pobreza, mas inscrever essa luta
num projeto nacional de desenvolvimento que tinha obrigatoriamente uma
estratégia regional e internacional.
Quem poderia se queixar
de certas lacunas e injustiças nessa estratégia seriam, por exemplo, os
uruguaios, que no marco do Mercosul nao receberam nem apoio nem atenção
por parte do Brasil, no vasto conflito com a Argentina no caso da
construção da fábrica de celulose BOTNIA (atual UPM) e da não
construção de uma ponte entre os dois países, violando um claro
pronunciamento e as normas estabelecidas pelo próprio Mercosul. Não o
fizemos com muita estridência porque privilegiamos a estratégia, o
oolhar de médio e longo prazo.
E é esse olhar que falta a
Serra em suas afirmações e inclusive em suas retificações posteriores.
Sem a credibilidade que o Brasil ganhou no Mercosul, em seu aporte aos
fundos estruturais e na comunidade dessa política na UNASUR, o Brasil
não seria o mesmo, não teria o papel que hoje tem no BRIC e no mundo.
Um
país que, por simples conveniência comercial de curto prazo liquida
tantos anos de esforços e de negociações com seus vizinhos,
sepultando-os com alguns adjetivos sem fundamento, não é um país sério
e confiável. Nao é uma potência emergente.
Essa condição, esse
papel em termos de mundo globalizado, essa capacidade de intelocução
mundial, nas Nações Unidas e em todos os foros, nao se ganha só e
principalmente com o tamanho, mas com seriedade, solidez e com uma
mirada profunda em suas estratégias. O Brasil fez nos últimos anos
grandes esforços para ganhar essas posições.
Se mirássemos o
mundo através de uma fechadura, nós, Uruguaios – que somos pequenos e
quase anões ao lado do gigante –, que temos deixado de ser chorões e
passamos a assumir nosso papel e a defender nossos direitos,
possivelmente sairíamos a gritar que o Mercosul limita nossos acordos
comerciais. Alguns compatriotas o fazem, no entanto, nem o governo
anterior, de Tabaré Vázquez, nem o de José Mujica tiveram essa postura.
Muito pelo contrário, trataremos de aproveitar juntos uma oportunidade
única.
O nível atual de desenvolvimento do mundo, o
crescimento do consumo – ainda que em meio à fome de que grandes
setores padecem – implica uma demanda crescente de alimentos, em
especial de grãos. O Mercosul em seu conjunto é potencialmente o maior
exportador de alimentos do planeta. Se esta possibilidade – que já está
se expressando – for aproveitada por nós no marco de projetos de
desenvolvimento, de investimentos adequados em tecnologia, na
indústria, em logística, na educação, na cultura e na saúde, quer
dizer, se concedermos sustentabilidade social ao crescimento, este
momento é único e irrepetível para todos.
Como é óbvio, o Brasil tem um papel fundamental neste processo.
(*) Jornalista, escritor e diretor da agência UyPress. Uruguay.
Tradução: Katarina Peixoto