A hora e a vez do cabelo
crescer<http://www.substantivoplural.com.br/a-hora-e-a-vez-do-cabelo-crescer/>

Por Alex de Souza

<http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/06/corda-bamba.jpg>
Durante boa parte da minha curta e já interrompida carreira jornalística,
atuei em áreas que são consideradas os patinhos feios das redações: esportes
e cultura, especialmente esta última. Ambas geralmente são tocadas por
aficionados chamados pelos colegas de ‘setoristas’, profissionais que
carregam o estigma de ‘só saberem fazer aquilo’. O Olimpo, para quem
trabalha num jornal, é fazer política. Esses são os caras de tarimba, uma
elite privilegiada entre a força de trabalho. Com a internet, a cobertura
política aqui no estado se ampliou exponencialmente.
Um lado bacana de trabalhar com cultura é que, apesar de atrair poucos
leitores se compararmos com as demais editorias, o público é qualificado e
geralmente há bastante reflexão e críticas sobre o fazer jornalístico.
Muitas delas são bastante pertinentes.
(Por sinal, um sintoma da indigência cultural que grassa no jornalismo
potiguar pôde ser conferido neste sábado, quando apenas um jornal da
capital, a Tribuna do Norte, dedicou uma foto e chamada de capa para a morte
de José Saramago. É como se morressem escritores de língua portuguesa
agraciados pelo Nobel toda semana. Não é notícia.)
No entanto, pouca gente reflete sobre o jornalismo político praticado no Rio
Grande do Norte. Dois fatos recentes me chamaram a atenção para a relação
entre a imprensa e a classe política potiguares e são, também, sintomáticos.
Um foi a denúncia feita pelo deputado federal e gato Fábio Faria de que
estaria sofrendo chantagem de um blogueiro, que exigia R$ 4 mil para não
falar mal do parlamentar (como se fosse possível falar bem de 97,8% dos
políticos locais, segundo o último levantamento). O outro, a desistência dos
principais candidatos ao governo do estado, Iberê e Rosalba, de participar
do programa Xeque-Mate, da TVU, que está sabatinando todos os pretendentes a
administradores desta birosca em formato de elefante.
O caso do achaque ao deputado Fábio Faria expõe um assunto delicado,
verdadeiro tabu entre os jornalistas da terrinha, que é a ética obtusa que
rege as relações de caráter financeiro com os políticos.
Mesmo sendo reprováveis, algumas práticas que envolvem o jogo de interesse
entre os donos do poder e as empresas de comunicação já são meio que
consideradas regras do jogo. Jornais se aliam a projetos políticos de olho
em benesses publicitárias ou mesmo funcionam como engrenagem de grupos,
vejam o exemplo da Tribuna do Norte, TV Tropical e TV Ponta Negra. É um
reflexo torpe do comando exercido pela classe política sobre a mídia
brasileira.
A coisa fica ainda mais pantanosa quando essas relações se dão diretamente
entre o jornalista e o poder, sem atravessadores. Jornalista no RN ganha um
salário porco e ruim para fazer um trabalho porco e ruim. Para viver, é
obrigado a fazer mais trabalho porco e ruim em outros lugares para completar
a renda familiar. Por incrível que pareça, é de praxe no jornalismo político
que esse outro bico (que geralmente paga bem mais que a empresa da qual é
contratado) seja de ‘assessor’ de políticos.
As aspas estão ali justamente porque existem dois tipos de assessores. Há os
que exercem a atividade abertamente, pois, afinal de contas, isso é bossa
nova, isso é muito natural – e se irritam sobremaneira se há quaisquer
questionamentos sobre a ‘ética’ do seu trabalho, mesmo quando não há ética
alguma. Há, ainda, aqueles em que é a faca entrando e eles negando até o fim
que estão numa folha paralela, enquanto todos sabem em que time eles jogam.
(Você por acaso tem ideia da quantidade de gente na folha de pagamento do
comitê de imprensa da Assembleia Legislativa? Se aparecerem todos para
trabalhar no mesmo dia, não sobra espaço nem para os deputados no Palácio
José Augusto. Era prática comum até dia desses convidar repórteres da área
para entrar na listinha.)
Talvez todo o espanto e burburinho tenham sido motivados pela falta de tato
do rapaz na hora de pedir um agrado ao deputado. Afinal, o que não falta na
blogosfera potiguar é gente levando muito mais do que quatro pilas pelo
mesmo serviço.
O que nos leva ao caso dos dois bundões, Iberê e Rosalba. O programa
Xeque-Mate, uma iniciativa bacana criada pelo professor Emanuel Barreto e
hoje coordenada muito bem pelo professor Ruy Rocha, consiste em entrevistas
coletivas realizadas pelos alunos de Comunicação Social da UFRN.
Aproveitando o clima morno de pré-campanha, em que as agendas ainda não
soterram completamente os candidatos, o programa marcou entrevistas com
todos os pré-candidatos ao governo, atitude democrática e plural, apesar de
eu duvidar de que qualquer um deles tenha algo edificante a dizer.
Em ambos os casos, os alunos foram avisados em cima da hora, com estúdio já
montado e tudo o mais, que nem Rosalba, nem Iberê apareceriam para gravar,
por problemas de agenda.
A ‘Rosa’, cujo grupo político tem como hobby processar jornalistas
recalcitrantes em Mossoró (a incrível cidade em que uma única família é
governo e oposição), apresentou a espinhosa lorota de que teria de ir a
Brasília, mas estranhamente foi vista por Natal na mesma noite. Já Iberê tem
a desculpa perfeita de precisar fazer sua candidatura e o Estado andarem,
mesmo falhando fragorosamente nas duas coisas.
Dois políticos calejados, com vários anos de vida pública, temerem
participar de um programa de entrevistas com alunos de jornalismo que às
vezes sequer sabem o que perguntar é, ainda, um reflexo das relações
espúrias que eles mantêm com os jornalistas da terrinha.
A cobertura política praticada por aqui é de uma pobreza que deixaria São
Francisco de Assis com inveja, caso os santos pecassem. Com cada vez mais
raras exceções, a cobertura se limita a reverberar futricas e balões de
ensaio muitas vezes plantados pelos próprios jornalistas a mando de seus
capos. Tem quem faz colunismo social e pensa que é jornalismo político.
Desconhece-se se o Legislativo legisla ou o Executivo executa – até porque o
Judiciário nunca julga.
Acostumados a tapinhas nas costas e perguntas tipo ‘vai que é tua,
Taffarel’, teriam as duas raposas ficado com receio de enfrentar um ambiente
distante do controle de qualidade do caixa dois? É bem possível. Foi-se o
tempo em que a capacidade de diálogo e de convencimento eram primordiais
para o exercício da política.
A blogosfera só fez amplificar esse mercado e pulverizar ainda mais a grana
que não pinga nas grandes empresas. Enquanto isso, independente de quem
coliga com quem na próxima eleição, o Rio Grande do Norte afunda cada vez
mais em pobreza e corrupção, a olhos vistos, tudo com direito a fotos,
notinhas elogiosas e reticências.
Fora os raros momentos em que a vida legal e administrativa do Estado serve
para satisfazer as birras de um ou outro grupo, como nas mumunhas recentes
sobre empréstimos a bancos públicos e liberação de verbas, você se lembra de
encontrar no noticiário reportagens que investigam a fundo como andam a
administração ou quais projetos são relevantes ao desenvolvimento econômico
do Rio Grande do Norte?
Pior do que instituir a futrica como carro-chefe de uma cobertura que, em
tese, deveria orientar a população sobre o que realmente andam fazendo seus
representantes, o modelo de jornalismo político em prática tem um reflexo
ainda mais pernicioso: ele limou a opinião – esse termo fantasmagórico – do
dia a dia da administração pública.
P.S.: Você deve estar se perguntando o que diabos esse papo todinho tem a
ver com o título lá de cima. Na verdade, eu acho essa música do Mutantes do
caralho e sempre quis usá-la para encabeçar algum texto.
16 comentários para “A hora e a vez do cabelo crescer” Em:
www.substantivoplural.com.br

------------------------------
O SEU NAVEGADOR PODE TE PROTEGER DE FRAUDES NA WEB. VEJA DICAS DE INTERNET
EXPLORER 
8<http://www.microsoft.com/brasil/windows/internet-explorer/features/stay-safer-online.aspx?tabid=1&catid=1&WT.mc_id=1588>

 

Responder a