Belíssima homenagem! Em 19 de julho de 2010 12:29, augustolula <[email protected]> escreveu:
> > > texto de alex medeiros > A viagem de Jorge Banda > > Postado às 15/7/2010 as 14:48:33hs > > * > O* ônibus da empresa Gontijo levou dois dias para atracar na rodoviária de > Belo Horizonte, um enorme terminal pra lá de modernoso que ganhou até prêmio > na Primeira Bienal de Arquitetura, em 1971, no ano da sua inauguração. > > O trajeto foi serpenteado, com passagens por cidades cearenses e goianas, > com direito a paradinha para vacinas contra doenças tropicais. Tínhamos > pouco mais de vinte anos e respirávamos o ar da rebeldia pré-Eleições > Diretas das ruas do Brasil de 1983. > > Jorge Macedo tinha o sonho de aventurar-se pela cena musical mineira, > naquela conjuntura bastante efervescente pela influência da geração do Clube > da Esquina. Eu tinha apenas um encontro com uma namorada de Piracicaba na > casa do meu irmão. > > Quando o ônibus encostou no terminal Israel Pinheiro, percebi o outro > ônibus oriundo de Sampa estacionando a poucos metros de nós. Foi o bastante > pra gente improvisar rapidamente uma despedida furtiva de duas paqueras > conquistadas na viagem. > > Ainda sorrindo para Maria (era o nome da garota que ficou comigo, já não > lembro a pareia de Jorginho), me virei em tempo de esbarrar no abraço de > Mara, a estudante de psicologia que apareceu para mim no verão do ano > anterior, na Festa do Caju, da Redinha. > > De férias da faculdade, havia combinado comigo, nas correspondências que > trocávamos em poesias escritas em folhas de bananeiras, o encontro em Beagá. > E trouxe com ela uma amiga estudante de arquitetura, Mariângela, uma gata de > capa de revista que tirou da órbita os olhos do meu amigo. > > Hospedados na casa do meu irmão (na foto, é o do meio), vivemos aventuras > musicais inesquecíveis, no Festival de Inverno de Diamantina, nos bares em > torno das ruínas de Sabará, nos botecos da agitada noite belohorizontina. E > Jorge azarando Mariângela. > > A juventude e inexperiência de vida não pesavam nele quando se compenetrava > no toque do violão ou da guitarra. Vi muitos poucos guitarristas como el e, > que sem querer chamou a atenção de importantes militantes da música mineira > naqueles junho e julho. > > A necessidade de faturar uns trocos para construir as possibilidades de > ficar em Belo Horizonte, fez com que Jorginho perambulasse todos os dias nos > bares com música ao vivo. Eu estava sempre com ele nessas visitas, ao lado > das duas meninas paulistas. > > Chamava-se “O Outro Lado da Moeda” e era um dos bares mais badalados da > capital mineira, que na ausência de mar tinha sua juventude se esbaldando em > cerveja e outros líquidos. Sentamos e encaminhamos um pedido de “canja” para > o magrelo guitarrista. > > A negativa veio com uma educada justificativa: naquela noite, o bar viveri > a um momento histórico, quando amigos do cantor e compositor Beto Guedes se > reuniriam em torno dele, iniciativa de outro craque das baladas românticas, > Paulinho Pedra Azul. > > Imagina, então, se iríamos perder aquela chance. Variando duas dúzias de > gírias bem próprias do seu malemolente vocabulário, Jorge esperou a casa > cheia e a presença das feras, que se alternavam no pequeno palco levantando > aplausos dos muitos tietes. > > A “canja” permitida ao chapliniano natalense logo se transformou numa sopa > nutritiva, com acordes que enlouqueceram a platéia. Pra mim ficava bem claro > o porquê do apelido “Jorge Banda”. A coisa era outra, porque ele tocava como > se muitos fossem. > > Qua ndo voltei pra Natal e no ano seguinte fui viver em São Paulo, fiquei > feliz por saber que Jorginho conseguira emplacar seu talento no mundo > musical mineiro. Virou até professor de violão e guitarra e constituiu banda > com direito a discos gravados. > > Acabei não sendo um “tio” presente na vida dos seus filhos com minha grande > amiga Kátia Ferraz, a quem apresentei Jorge naqueles dias em que ele sonhava > com música e ela desejava mudar o mundo com muitas amigas feministas e uma > militância no PT. > > Não dá para esquecer o dia em que Kátia reuniu um grupo de mulheres no > apartamento de Capim Macio e me pediu para fazer companhia ao namorado, que > ficava deslocado diante dos papos sobre direitos da mulher, aborto e orgasmo > de operárias. > > A relação dos dois, no lado intelectual, era como juntar Marina Colasanti e > Lobão. O amor era o combustível maior a desmoralizar teorias de > relacionamentos. Naquele dia, a mulherada decidiu discutir o livro “*Eu, > Christiane F., 13 anos drogada e prostituída*”. > > Em encontro feminista, lugar de homem é na cozinha, e lá estavam eu e Jorge > tomando umas cervas e analisando, anatomicamente, uma a uma as companheiras > na sala. Fomos até lá no exato momento da discussão e uma delas perguntou se > tínhamos lido. > > Na afirmativa dupla, alguém - já não lembro se foi Gilka Pimentel ou Salete > Mach ado – quis então saber nossa opinião sobre o livro. Jorginho entornou a > tulipa, deu dois tragos no cigarro e fuzilou: “*Só não gostei daquele > final, sabe minha irmã, pois a menininha encaretou de vez e não deu mais > nenhum tapa*”. > > Ao saber ontem da derradeira viagem de Jorge Macedo, me vem sempre aquele > sentimento revoltante com essa cidade que consagra falsos talentos e > engrandece gente estúpida. Saiba, Natal, que perdemos um dos mais > fantásticos guitarristas do Brasil. Um cara magro e maneiro que tinha o peso > de uma banda nos dedos. > > >
