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Mossor�-RN, domingo 15 de agosto de 2010













 
Sete e Um
 

Cláudia Magalhães
Escritora, Dramaturga e Atriz
 
Vivemos num mundo onde almas se procuram e quando se encontram morre parte do 
nosso céu ou inferno. Nessa oração, a vida nos aprisiona com o que nos resta 
dessas curas até o encontro fatal, derradeiro, que, independente de ser 
predestinado ou apenas uma questão de sorte, nos prova que estamos sempre em 
busca da morte. E foi num duelo com esta que conheci o riso e o choro, mas 
aprendi a não debochar.

O amor nunca me pegará! Esse pensamento me acompanhava desde a mais tenra 
idade. Na verdade, não queria conhecê-lo, pois sempre tive medo dos heróis, 
eles não são perfeitos e suas falhas me aniquilariam. Tamanho era o meu medo de 
encontrá-los ou reconhecê-los que passava grande parte do meu tempo dentro de 
mim. Em minhas tocas, em minhas esquinas, virei a morte dos humanos, a que vive 
onde a vida escarra. Seguia diante da vida impondo meus desejos de sangue e 
minha sede de saliva, mudando a realidade, moldando-a de tal forma que ela 
atendesse a todos os meus desejos. Eu, algoz e vítima, a todo instante me 
perseguia e, com medo do amor, acelerava o tempo levantando minha saia de 
solidão e revelando minhas vergonhas. Precisava enrubescer para me sentir viva. 

Aos vinte e dois anos quando meu primeiro namorado, com um buquê de flores, 
pediu-me em casamento, meia hora depois desejei ardentemente que ele tivesse um 
infarto fulminante na hora do jantar. O segundo, quando eu tinha vinte e cinco 
anos, pediu-me em casamento e me entregou um jogo de panelas, imaginei ele, que 
tinha Hipsifobia, medo de altura, seguindo até a varanda do meu apartamento e 
se atirando do sétimo andar. Aos trinta anos, desejei que o meu terceiro 
candidato a marido perdesse a consciência durante sua caminhada matinal, 
enquanto eu manuseava com tédio o presente que acabara de ganhar, um álbum de 
fotografias. Aos trinta e três imaginei meu quarto pretendente, depois do 
pedido, morrendo com uma dor torácica ao tentar levantar o meu presente que 
estava sobre o meu tapete, uma televisão. Aos trinta e seis, enquanto eu 
estampava minha cara de tédio ao abrir meu presente, uma caixa com três 
perfumes doces, imaginei o quinto, que sofria de síndrome do QT longo, indo 
dessa para uma melhor, sofrendo um gatilho emocional ao conferir que acertara 
todos os números do bilhete da loteria que esquecera de apostar. Aos trinta e 
seis, imaginei o sexto, que sofria de Wolff-Parkinson-White, uma doença que 
atinge em média quatro a cada cem mil pessoas, morrendo por excesso de 
exercícios na bicicleta que me trouxera de presente e aos trinta e nove anos 
senti uma enorme felicidade imaginando meu sétimo pretendente morrendo com uma 
parada cardíaca depois de me presentear com um livro de auto-ajuda e não teria 
desfibrilador portátil, ressucitação cardiopulmonar e nenhum medicamento que o 
salvasse. Embora as situações fossem outras, as vítimas e o que tem dentro 
delas também, na hora do pedido de casamento sentia uma espécie de assombração 
por todos e assustada sempre dizia: Não! Ao desejar suas mortes não tinha o 
menor rasgo de sofrimento, pelo contrário, um enorme alívio me consumia. 

O oitavo pretendente, depois de tomar uma garrafa de vinho, na mesma noite em 
que nos conhecemos, me pediu em casamento e, sem nenhum presente em mãos, 
aproximou-se com gestos rápidos e tirou minha roupa. Senti um tremor na alma 
que a cada olhar dele se emocionava e tentando recusar essa emoção perdi a 
lucidez. Lembro que em pensamento o chamei de irritante, vadio, louco, mas um 
turbilhão de sentimentos me invadiu, o que não ousaria resumir em uma única 
palavra. Entrei na mais perigosa fuga. Ali, num assalto do tempo ou num acordo 
cúmplice com a morte, o amor me alcançou. Feito flores "bocas-de-lobo" em meio 
a espinhos encheu-me de um carinho violento e passei a me sentir em perigo. Ele 
despertou a beleza e a ternura que me inquietava, penetrou minha carne seguindo 
o terço das emoções, rezou sobre meu sexo sem pressa, elevando sua temperatura 
tal qual um vulcão prestes a entrar em erupção e com seu líquido quente 
eletrizou meu corpo até as pontas dos meus cabelos, as raízes do meu tempo, de 
uma maneira tal que, naquele instante, eles pararam de crescer. Em seguida, 
levou-me até o inferno sem tirar-me do altar. Depois das horas de amor, o vi 
perdendo os sentidos. Em desespero, toquei em sua carne fria, em suas mãos 
roxas, em seu rosto distante dos sorrisos que exaltaram e iluminaram a noite. 
Diante da sua morte, pude ver o mundo faminto desde sua criação devorar-me, 
enquanto pessoas vestidas iguais me ofereciam flores sob murmúrios que exprimem 
grande devoção a dor ou total ausência desta, cheios de horror diante do 
infeliz destino da assassina, da desgraçada, da besta-fera, da que seria 
infeliz no amor até o momento da terra cuspir em sua cara. Com a dor fazendo 
ondas em meu peito, pensando em sua ausência, em sua carne apodrecendo, entrei 
em desespero! Foi preciso vê-lo frágil, fraco, ver a vida cuspí-lo para 
descobrir que ele pertencia à minha vida. Minutos depois, o perfume da paixão 
me subiu às narinas e me trouxe à realidade. Com grande alívio, observei seu 
rosto cheio de cor e o seu sorriso que antecipava as horas de prazer, as quedas 
livres do gozo e tudo o que até hoje me exprime ternura. O seu amor me torna 
invisível aos olhos da morte, ele disse feliz, como se lesse os meus 
pensamentos. Há dez anos ele repete essa frase e, nus, continuamos roubando os 
sonhos do mundo, nada mais justo quando se quer viver um grande amor.
 


                                          

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