Cultura é tratada com descaso

Publicação: 31 de Agosto de 2010 às 00:00

 
Folclore, culinária, artesanato, artes cênicas, artes visuais, música - formas 
da expressão de uma cultura que dependem da participação da comunidade para 
sobreviver.

Na terra do célebre folclorista Câmara Cascudo, todas as formas de cultura são, 
infelizmente, tratadas com descaso pelas autoridades - e não é de hoje.


adriano abreuPara José Sávio, não adianta pensar somente na questão do 
financiamento da produção cultural se os artistas não estiverem inseridos numa 
cadeia produtiva amplaEnquanto grupos independentes lutam para sobreviver - e 
até alguns conseguem precariamente -, a falta de uma política cultural 
consistente faz com que o Estado se volte a apenas alguns eventos com forte 
apelo comercial e turístico - o que seria positivo se não fosse insuficiente. E 
ponha insuficiente nisso.

“Cultura é algo que está presente em todas as manifestações de uma sociedade, 
de modo que, tanto aquilo que chamamos de arte, quanto os nossos costumes e até 
a nossa própria língua são diferentes aspectos da nossa cultura”,  lembra José 
Sávio Oliveira de Araújo, professor do Departamento de Artes da UFRN na área de 
Tecnologia Cênica e Educação.

Coordenador do curso de Licenciatura em Teatro, Sávio conhece profundamente o 
viés antropológico das disciplinas que leciona, mas imprimiu uma produtividade 
que vai muito além da sala de aula ao estender seus conhecimentos à comunidade.

Foi Sávio, por exemplo, que coordenou o show de abertura da última edição da 
SBPC, realizada em Natal, no fim de julho, e acompanha de perto a vida de 
grupos independentes cujo trabalho considera sério e consequente.

Nesse sentido, a maior prioridade de seu trabalho é a questão do acesso à 
tecnologia de produção, à formação e ao consumo de das diferentes formas de 
manifestação cultural - estejam elas na rua ou encerradas nos espaços fechados 
dos teatros.

“Não adianta pensar somente na questão do financiamento da produção cultural se 
os artistas não estiverem inseridos numa cadeia produtiva ampla, capaz de 
manter essa atividade de modo sustentável, propiciando seu desenvolvimento e o 
crescimento de quem se beneficie desse ofício”, acrescenta.

Daí a pergunta de Sávio que nunca quer calar: “Quais as ações que se fazem 
necessárias para tornar tudo isso sustentável e acessível a todos?”

“Para alimentarmos esta discussão – diz o professor - ninguém precisa 
reinventar a roda na discussão da cultura”. E acrescenta: “É muito importante 
trazer para o centro do debate alguns pontos e eixos que a sociedade civil 
organizada já vem discutindo e apontando por meio de grandes debates nacionais”.

José Sávio cita os encaminhamentos tirados na II Conferência Nacional de 
Cultura. 

Realizada em março último, em Brasília, setores da sociedade ligados à produção 
cultural elaboraram propostas para melhorar as condições da produção cultural 
em todo o país e que se aplicam também ao caso do RN. 

Entre outras propostas, o documento final sinaliza para a necessidade de  
implementar políticas de intercâmbio em nível regional, nacional e 
internacional entre os segmentos artísticos e culturais, englobando das 
manifestações populares tradicionais às contemporâneas que contemplem mostras, 
feiras, festivais, oficinas, fóruns, intervenções urbanas, dentre outras ações. 
O objetivo é compor um calendário anual que interligue todas as regiões 
brasileiras. 

Um plano de dimensões nacionais

Entre as conclusões da II Conferência Nacional de Cultura, qualquer discussão 
acerca da produção cultural local deve estar alinhada com um debate nacional 
mais amplo, sob o risco de não se chegar a um Plano Nacional de cultura.

Só um plano nessas dimensões poderia criar fontes de financiamento, vinculação 
e repasses de recursos para atividades culturais. O dinheiro seria usado para a 
instalação, construção, manutenção e requalificação de espaços e complexos 
culturais como teatros, bibliotecas, museus, memoriais, espaços de espetáculos, 
de audiovisual, de criação, produção e difusão de tecnologias e artes digitais, 
com enfase para a ocupação dos patrimônios da união, dos estados, municípios e 
do Distrito Federal em desuso no país.

Para o professor  José Sávio, implementar e fortalecer as políticas culturais 
dos estados, a fim de promover o desenvolvimento cultural sustentável, 
reconhecendo e valorizando as identidades e memórias culturais locais, é 
fundamental. Isso inclui a regulamentação de profissões de quem detém o saber o 
e ofício, ampliando as ações entre os diversos setores e democratizando a 
informação por meio da educação, economia, comunicação, turismo, ciência, 
tecnologia, saúde e meio ambiente, segurança pública e programas de inclusão 
digital, com estímulo a novas tecnologias sociais de base comunitária.

Bate-papo

José Sávio Oliveira de Araújo » professor do Departamento de Artes da UFRN, na 
área de Tecnologia Cênica e Educação

Como se democratiza o acesso à cultura num país de grandes desigualdades 
sociais como o Brasil?

Ampliando os recursos públicos e privados, para dar sustentabilidade às cadeias 
criativas e produtivas da cultura. Isso valoriza as potencialidades regionais e 
envolve todos os setores da sociedade civil e do poder público no processo de 
criação, produção e circulação dos bens e produtos culturais. Em última 
análise, amplia a circulação e a exportação dos produtos culturais brasileiros.

Como é possível garantir o sucesso desse processo?

Simples, regulamentando as profissões da área cultural, criando condições para 
o reconhecimento de direitos trabalhistas, previdenciários no campo da arte, da 
produção e da gestão cultural, incluindo os profissionais da cultura em 
atividades sazonais.

Qual o mecanismo institucional para se alcançar essa meta?

Institucionalizando e implementando o Sistema Nacional de Cultura (SNC), 
constituído de órgãos específicos de cultura, conselhos de política cultural 
(consultivos , deliberativos e fiscalizadores), tendo, no mínimo, 50% de 
representantes da sociedade civil eleitos democraticamente pelos respectivos 
segmentos, planos e fundos de cultura, sistemas setoriais (Teatro, Dança, 
Música, Artes Visuais, Livro. Manifestações Populares e Indígenas, entre 
outras) e programas de formação na área da cultura, na União, Estados, 
Municípios e no Distrito Federal, garantindo ampla participação da sociedade 
civil e realizando periodicamente as conferências de cultura e, especialmente, 
a aprovação pelo Congresso Nacional de Propostas de Emenda à Constituição 
(PECs).

Quais PECs seriam essas?

A PEC 416/2005 que institui o Sistema Nacional de Cultura; a  PEC 150/2003 que 
designa recursos financeiros à cultura com vinculação orçamentária e a PEC 
049/2007, que insere a cultura no rol dos direitos sociais da Constituição 
Federal. Existem também os projetos de lei que instituem o Plano Nacional de 
Cultura e o Programa de Fomento e Incentivo a Cultura - Procultura e do que 
regulamenta o funcionamento do Sistema Nacional de Cultura.

Mais alguma outra medida?

Tem sim. Seria necessário também realizar um mapeamento preliminar das 
manifestações culturais, dos distintos segmentos, dos povos e comunidades 
tradicionais, das expressões contemporâneas, dos agentes culturais, 
instituições e organizações, dos grupos e coletivos, disponibilizando o banco 
de dados resultante em uma plataforma livre de fácil acesso e com 
descentralização da informação. Paralelamente a isso, criar um órgão de estudos 
e indicadores culturais integrado ao Sistema Nacional de Cultura e mapear as 
cadeias criativas e produtivas, empreendimentos solidários, bem como investir 
em capacitação técnica de equipes locais, atualizando continuamente o 
mapeamento preliminar e gerando produtos como roteiros e eventos de integração 
e intercambio. 

http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/cultura-e-tratada-com-descaso/158466


      

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