Livros e Bibliotecas digitais

Assim como outros diretores de grandes acervos de livros de outros países do mundo, o presidente da Biblioteca Nacional, está dividido entre o maravilhamento e o receio diante da proposta do site de busca Google de criar um sistema de busca internacional unindo acervos de várias instituições, unindo 15 milhões de volumes. Hoje, a ferramenta Google Book Search ( http://books.google.com) já permite acesso a milhões de volumes na rede, a partir de buscas simples.

O projeto da empresa é ampliar esse acesso ao Brasil e o Google acenou com um investimento de cerca de R$ 22 milhões para a digitalização de dois milhões de volumes da Bibliioteca Nacional, sem nenhum centavo de custo para a instituição. A proposta tentadora pode ser mal interpretada no Brasil, como sendo um monopólio mundial de uma empresa privada sobre o conhecimento.

A direção da Biblioteca Nacional vai discutir o assunto com colegas da França e da Alemanha no Colóquio Internacional sobre Bibliotecas Digitais, que a BN promove em 3 e 4 de abril, no Consulado da França, no Rio. O presidente da Biblioteca Nacional da França, que participará do colóquio no Rio, manifestou publicamente inquietação com a possibilidade de criação do monopólio. Há que haver uma reflexão sobre a noção de patrimônio cultural. Também virá ao Brasil para o colóquio a diretora da Biblioteca Nacional da Alemanha.

Considerações de Aldo Barreto:

As multinacionais de produção e disseminação de estoques da informação podem retirar da Biblioteca o seu sentido de guarda e transferência do conhecimento. Uma biblioteca nacional reflete não só a identidade cultural da sociedade, mas também , as particularidades contextuais de uma memória de saber acumulado.

Tanto o indivíduo como sua ambiência não são homogêneos, como é o tratamento técnico digital da informação , para a formação dos estoques online. A realidade onde se pretende que a informação atue para gerar conhecimento é fragmentada em suas condições políticas, econômicas sociais e culturais. Os habitantes desta realidade são multifacetados em suas competências para se apropriar da informação.

Harmonizar o estoque de informação produzida e disponível para uma sociedade e sua transferência visando o conhecimento é a intenção maior de todos aqueles que trabalham com a informação em bibliotecas.

Estoques digitais, homogêneos em sua fabricação nos levarão de volta a um tecnicismo iluminista, digital e monopolista, transformando bibliotecas em almoxarifados de livros, um retorno a idade média quando a informação era prisioneira em muros de clausura:

" ....Mas de nosso trabalho, do trabalho de nossa ordem e em particular do trabalho deste mosteiro é a sua substância o estudo e a custódia do saber. A custódia digo, não a busca, porque é próprio do saber, coisa divina , ser completo e definido desde o início, na perfeição do verbo que exprime a si mesmo. A custódia digo, não a busca, porque é próprio do saber, coisa humana, ter sido definido e completado no arco dos séculos que vai da pregação dos profetas até a interpretação da igreja. Não há progresso, não há revolução de períodos na história do saber, mas, no máximo continua e sublime recapitulação." ( trechos do discurso do Abade Jorge no quinto dia , Completas, sobre o do livro O Nome da Rosa de Umberto Eco)
(AAB)

Fonte: texto de Sergio Martins para Jornal do Brasil, Caderno B, edição impressa de 17/03/2006 e Arquivos da Lista)


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            Prof. Dr. Aldo de Albuquerque Barreto,   Ph.D.
# Pesquisador Titular do Ministério da Ciência e Tecnologia (IBICT)
#   Professor do Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação - Ibict-Uff
                        Rio de Janeiro






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